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Obras de pontes e viadutos que custaram milhões ficaram no meio do caminho em MG

Publicação: 24/02/2013 00:12 Atualização: 24/02/2013 11:40

Daniel Camargos, Luiz Ribeiro, Paulo Henrique Lobato e Simone Lima
A 12 quilômetros de Santa Fé de Minas, a ponte sobre o Córrego Mocambo foi construída antes da estrada, que nunca saiu do papel ( Aparicio Mansur/Esp. EM )
A 12 quilômetros de Santa Fé de Minas, a ponte sobre o Córrego Mocambo foi construída antes da estrada, que nunca saiu do papel

 

Encontrar a ponte de 200 metros sobre o Córrego Mocambo, uma das maiores obras já empreendidas na pequena Santa Fé de Minas, na Região Norte do Estado, é uma tarefa que exige disposição. Não existem caminhos até ela. Só depois de andar dois quilômetros rompendo um denso matagal é possível vislumbrar a estrutura, que liga o nada a lugar nenhum. Não há vestígio de estrada e muito menos de razão para construir uma obra desse porte ali. É um dos muitos monumentos ao desperdício que o Estado de Minas encontrou espalhados por Minas Gerais. São pontes, viadutos e estradas inacabadas que prejudicam moradores de cidades de regiões carentes como o Vale do Jequitinhonha – Minas Novas, Berilo e Chapada do Norte – e do Norte de Minas – Itacarambi, Buritizeiro, Manga e Montalvânia. Tais absurdos também são encontrados em cidades de regiões mais desenvolvidas, como Itaúna, no Centro-Oeste; Pedro Leopoldo, na Região Central e até mesmo em Belo Horizonte.

Não existem estatísticas recentes que indiquem o número de obras inacabadas no país e em Minas Gerais. Em 2007, o Tribunal de Contas da União (TCU) apontou 400 empreendimentos, com orçamento à época de R$ 3,3 bilhões, sendo que R$ 2 bilhões já tinham sido investidos. Desse total, 130 eram de responsabilidade da União e 270 dos estados e municípios. Entre as 400 obras, 167 estavam totalmente abandonadas. À época, Minas Gerais era o estado com mais edificações inacabadas (17,7% do total), seguido por Mato Grosso (12,3%). Dois anos antes, em 2005, uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE) apontou 326 construções iniciadas com recursos públicos estaduais e sem conclusão. A estimativa era de que R$ 400 milhões foram desperdiçados.

 ( Aparicio Mansur/Esp. EM )
Uma dessas obras que já figurava na lista do TCE é a ponte sobre o Córrego Mocambo, de oito metros de altura, distante 12 quilômetros da área urbana de Santa Fé de Minas. Iniciada há mais de três décadas, a construção até hoje não foi concluída. Nenhuma autoridade consegue explicar a sua utilidade. Os recursos foram liberados pelo governo federal quando os militares ainda estavam no comando. Os generais usavam obras desse tipo como uma representação do progresso e, principalmente, como uma maneira de desviar a atenção do que ocorria no país: ausência de liberdade e opressão. Nas décadas seguintes o leito do Córrego Mocambo passou por um desvio motivado pelo assoreamento e o que era água passando por baixo da ponte virou um monte de areia.

Envie fotos e relatos de obras inacabadas em sua cidade para o e-mail politica.mg@diariosassociados.com.br

A ponte construída sobre o Mocambo, no meio do mato, custou aproximadamente R$ 4,75 milhões. A estimativa é do engenheiro e professor Guilherme Augusto Guimarães, do curso de engenharia civil da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). Ele fez os cálculos após analisar aspectos físicos da obra, como extensão, altura, largura e estrutura de pilares e material consumido, a partir de fotografias da ponte abandonada. “Mas, também temos que levar em conta que a obra foi construída há mais de 30 anos e esse dinheiro ficou imobilizado no local, sem nenhum aproveitamento. Nesse caso, o prejuízo é maior do que simplesmente o valor gasto na construção da ponte”, explica o engenheiro.

Os moradores da região lembram que à época foram informados de que a ponte seria parte da BR-251, uma rodovia que ligaria o Norte de Minas a Brasília. Porém, em 1982 a obra foi abandonada. A BR-251 também não foi concluída, mas deixou outra ponte inacabada, sobre o Rio Paracatu, somente com os pilares levantados, próximo à comunidade de Remanso do Fogo, em Buritizeiro. Uma terceira ponte, sobre o Córrego Tábuas, que liga a comunidade a Santa Fé de Minas, também foi feita à época dos militares. Essa terceira, entretanto, é usada apenas por pedestres que passam por uma estrada vicinal.

Barbaridade João Alves Nascimento, de 64 anos, trabalhou na construção da ponte que hoje está no meio do matagal. Teve a companhia de quase uma centena de operários. “Na região só tinha mato. Aí abriram uma picada de oito quilômetros para que fosse construída a estrada. Logo depois, começaram as obras das pontes”, lembra. João lamenta que “de uma hora para outra” os responsáveis tenham abandonado tudo sem concluir o que estava projetado. “Acho isso uma barbaridade. Ninguém nunca fiscalizou”, reclama. João tem apenas uma certeza sobre a obra: “É muito dinheiro publico jogado fora”.

O ex-prefeito de Santa Fé de Minas Ronaldo Soares Campelo (PRB) também se indigna. “Deixaram as pontes inacabadas e largadas. Foi um investimento faraônico deixado no meio do mato. Isso é uma demonstração da falta de planejamento e de compromisso com a aplicação correta dos recursos públicos”, entende. Porém, quando foi prefeito, entre 2009 e 2012, não conseguiu saber quem foram os responsáveis pelo desperdício. Ele lembra que em 2010 uma equipe de funcionários do governo federal esteve na cidade. “Disseram que estavam fazendo uma vistoria, visando à retomada da BR- 251. Mas ficou só nisso e de não ficamos sabendo de mais nada”, recorda o ex-prefeito.

O que se sabe, segundo relatos de moradores da região, é que os serviços foram abandonados por uma empreiteira que se chamava Pantheon. Tanto o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) quanto o Tribunal de Contas da União (TCU) alegaram não ter informações sobre as obras abandonadas em Santa Fé de Minas. A reportagem procurou o Ministério dos Transportes, mas não teve uma resposta. Existem empresas com o nome de Pantheon em São Paulo (Construtora Pantheon) e em Belo Horizonte (Pantheon Engenharia). O EM tentou, mas não conseguiu contato com nenhuma delas.

 

Crime em castigo 

 

A população é a principal prejudicada com as obras inacabadas e abandonadas. “Sobretudo as comunidades carentes deixam de usufruir de serviços e benefícios que o empreendimento deveria oferecer. Trata-se, em muitos casos, de serviços essenciais à comunidade”, destaca o auditor federal de controle externo do Tribunal de Contas da União (TCU) e integrante do Instituto de Fiscalização e Controle (IFC) André Luiz Vital. Outro ponto ressaltado pelo auditor é que os recursos consumidos por obras abandonadas poderiam ser aplicados em outras prioridades. “Em alguns casos, elas são retomadas tardiamente e acabam custando muito mais do que deveriam”, informa Vital.

Ele explica que é difícil estimar o número exato de obras inacabadas no país. “As prefeituras e entidades estaduais e federais não dispõem de sistemas de informações”, afirma. A Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) é o principal instrumento para encontrar os culpados. As leis que estabelecem as competências dos tribunais de Contas também tratam desse problema. Porém, Vital entende que embora a LRF represente um grande avanço, não existem mecanismos objetivos para punir o gestor por ofender o princípio da eficiência.

A saída, na análise de Vital, é a transparência dos gastos públicos e principalmente o controle social. “A sociedade poderá compreender as contas públicas, possibilitando ao cidadão condições de fiscalizar e cobrar a eficiência dos gestores”, afirma o o auditor federal.
 

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Esta matéria tem: (24) comentários

Autor: Marcelo Reis
Moramos no CIRCO BRASIL - AQUI VOCÊ É O PALHAÇO!!!!! | Denuncie |

Autor: dazio chaves
politico corrupto deveria ser exceção, mas no Brasil é a regra geral: só tem bandido na politica deste paiz, impressionante, e agora tem mais todo mundo fala que não sabia de nada e não tem culpa | Denuncie |

Autor: watchtowerbrasil watchtowerbrasil
DNIT = PR = Partido ressuscitado pela presidente Dilma em época de eleição. É melhor aplicar em bolsas esmolas do que em infraestrutura, pois essas não dão votos e ajudam o PT a se perpetuar no poder. | Denuncie |

Autor: Cícero Alvernaz
Obras paralizadas não são "privilégio" só de Minas não: isto se vê em todo o Brasil. O Brasil, aliás, está parado. Ultimamente, o Governo só está pensando em organizar a Copa do Mundo e ampliar o Bolsa Familia para garantir a reeleição. Infelizmente, a nossa realidade é esta. O PAC empacou de vez. | Denuncie |

Autor: Wilian da Silva Labiapari
Estava decepcionado com o UAI, pois, encobria tudo, mesmo estando no estado berço da inconfidência. Agora começo a ficar orgulhoso. Primeiro, pela reportagem sobre a suspensão da licitação da BR 381. Agora, por esta reportagem. Já critiquei-os muito, mas agora, PARABÉNS UAI!!! | Denuncie |

Autor: uberdham fernandes guimaraes
culpa principalmente do governo estadual, estado sem condiçao d ebanacar grandes obras e oposicionista ao governo federal, isso e burrice ne? | Denuncie |

Autor: uberdham fernandes guimaraes
aqui, a verdade seja dita enquanto nosso governo estadual fazer oposiçao ferrenha junto c a figura de aecio neves,minas so leva ferro com o governo federal, o resultado e isso, eterno atraso,obras inacabadas,falta de grandes investimentos,de que adianta oposiçao,isso faz o povo mineiro ser penalizado | Denuncie |

Autor: Kees van Tricht
Otima reportagem. Parabens. | Denuncie |

Autor: eduardo mello
E por isto que o Pais nao tem dinheiro pra nada. Nao tem verbas, nao tem condicao de alimentar alunos, construir hospitais, etc. O dinheiro e desviado e tudo mal administrado. | Denuncie |

Autor: eduardo mello
Boa reportagem! Inacreditavel. Isto e como se fosse o Governo dar um soco na cara cada um cidadao, porem o cidadao nao ataca de volta. Finge que nada acontece. | Denuncie |

Autor: Fábio Wagner Da Silva Lima
MG que liga as Cidades de Resplendor a Snata Rita do Ituêto, são 30km, dos quais 23 foram asfaltados, o restante está parado a mais de 4 anos, pois alegam que não há mais dinheiro da verba liberada pelo Governo do Estado para execução de tal trecho!!!! Isso sim é palhaçada né. Kd o TCE hein? | Denuncie |

Autor: Fábio Wagner Da Silva Lima
Volto a falar aqui, MG270 km 37 a 47, Deterro a Passatempo, período para Asfaltamento do trecho 360 dias, custo da obra 11 milhões de reais, a quase um ano após o início e não se tem sequer um único KM asfaltado, quem está pagando essa conta? Kd o TCE? Dq a pouco vai ter reajuste no valor desta obra | Denuncie |

Autor: PAULO FARIA
Retrato da incompetência.Ocorre q nossos administradores são pessoas investidas em cargos de alta responsabiliade, sem nenhuma condição de exercer.Simplesmente alcançam poder, tiram vantagens em benefício próprio. Nomeiam assessores e outros cargos c amigos, parentes, pessoas totalmente incapazes | Denuncie |

Autor: abdo miguel das neves
Isso quando não caem antes de ficarem prontos, como exemplo o viaduto novo na Portugal com Pedro I que está com fissura e ninguém comenta nada. | Denuncie |

Autor: Carlos Nogueira
Governo Federal, ineficiência para todos! | Denuncie |

Autor: Andre Lemos
PORQUE A PROMOTORIA PÚBLICA NÃO INVESTIGA PROFUNDAMENTE ESSES PROBLEMAS??? COM CERTEZA TEM TAMBÉM AS MÃOS DO DNIT | Denuncie |

Autor: Leonardo Magno de Miranda Magalhaes
Esta reportagem mostra mais uma vez o descaso com o dinheiro publico.Como sempre falo,na esfera Federal e todos os orgaos publicos do Brasil,so da bandido.Quando vai parar toda esta bandidagem? | Denuncie |

Autor: jairo peixoto
E O QUE VC PAGA TANTO DE IMPOSTO NESTE PAIS PARA TER UMA ESTRADA/RODOVIA DECENTE E NÀO CONSEGUE, TODAS AS OBRAS NÀO TERMINA NESTE PAIS. VEJA A RODOVIA ALMENARA SALTO DA DIVISA (90 KM) QUE PODERIA LIGAR A BR101,COM ISTO O DESENVOLVIMENTO E MUITO ATRAZADO NA REGIÀO.ESTADO DE MINAS FAÇA UMA REPORTAGEM | Denuncie |

Autor: Lucio Souza
Obras inacabadas existem varias por ai...exemplo, a reforma da rodocia entre a BR381 e Itabira. A parte concluida ficou otima, mas falta aproximadamente um terço para terminarem. Pararam a obra e deixaram armadilhas. Vamos la DER, concluam o que começaram !!! | Denuncie |

Autor: Ageu San
Essa fala do ex.prefeito é pra boi dormir, quando eles querem ficam sabendo de tudo e todos, duvido muito que ele nao teve curiosidade de saber pra quem foi cada fabia dessa pizza de concreto. Se DNIT E TCU não sabe de nada, aprendeu com LULA. Brasil o País da corrupção. | Denuncie |

Autor: Paulo Barbosa
E assim vai se cumprindo, a falta de compromisso destes maus empresários egoistas, que são verdadeiros assaltantes do dinheiro público, fazendo obras desnecessárias e caras sem nenhuma utlilidade para a população. Como faz falta aulas de moral e civismo. Será que estes empresários, só querem lucros? | Denuncie |

Autor: Ana Maria Souza
Quantas famílias teriam saído do estado de extrema miséria se o assalto aos nossos bolsos fossem revertidos de forma adequada; mas, quem governa está preocupado apenas em engrossar sua conta em paraísos fiscais e ajudar seus amiguinhos. Pagadores de impostos e sobreviventes a este holocausto nada tem | Denuncie |

Autor: Ana Maria Souza
O déficit de moradias no país em um absurdo, apesar de a constituição dizer "todo brasileiro tem direito à moradia; saúde; educação; lazer" isto fica só no papel; toda a roubalheira com impostos escorchantes serve apenas ao luxo e mordomia da corja que vive em Brasília e exterior! | Denuncie |

Autor: Ana Maria Souza
Todo este desmando de dinheiro público; amontoado de pontes; viadutos; estradas inacabadas iniciaram no período do ex-ministro Delfim Neto. Como eles são im(punes) as coisas vão piorando. O mais interessante, antes das eleições estes absurdos não são apontados; e o TCU aprovou a prestação de contas? | Denuncie |

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