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Estado de Minas

Ladrões monitoram comportamentos e rotinas antes de agir

Áreas com população flutuante, próximas de rotas de fugas, com locais ermos ou que tiveram aumento populacional e de renda expressivos recentes estão na mira


postado em 23/04/2016 06:00 / atualizado em 23/04/2016 07:27

Avenida Francisco Sá é um dos pontos críticos no Prado, segundo reconhece a própria PM(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A.Press)
Avenida Francisco Sá é um dos pontos críticos no Prado, segundo reconhece a própria PM (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A.Press)

Mais do que polos comerciais, criminosos que elevaram em mais de 100% as estatísticas de crimes violentos contra o patrimônio em Belo Horizonte entre 2012 e 2016 procuram outras características nos bairros para escolher onde assaltar. Áreas com população flutuante, próximas de rotas de fugas, com locais ermos ou que tiveram aumento populacional e de renda expressivos recentes também estão na mira. E as vítimas atestam: não tem mais horário. Atentos às atividades cotidianas da população, criminosos monitoram comportamentos e rotinas para agir. Nem mesmo crianças escapam.

“Acabou essa história de que assalto é só à noite. Os bandidos agora ‘trabalham’ o dia todo. Antes mesmo das 6h até a madrugada”, conta o presidente da Associação de Moradores do Bairro São Pedro, Carlos Rocha, que cita ainda o problema dos arrombamentos de veículos nas proximidades de bares e boates durante a madrugada. No Coração Eucarístico (Região Noroeste), que recebe diariamente cerca de 10 mil pessoas – quase o dobro de sua população fixa, de aproximadamente 12 mil moradores, são principalmente as idas e vindas de estudantes, com bolsas e celulares visíveis, que despertam a atenção dos ladrões em ruas vizinhas à universidade instalada na comunidade. “Os estudantes e moradores são assaltados desde as 6h30”, conta o presidente da associação de moradores (Amocoreu), Walter Freitas.


Os roubos na passarela que liga o bairro à Via Expressa também são um problema e ocorrem em qualquer horário, segundo Freitas. “A região tem ruas pequenas, ermas, e, ao mesmo tempo, com rotas de fuga pelo Anel Rodoviário, Via Expressa e pelo acesso ao vizinho Bairro Padre Eustáquio”, afirma o representante comunitário, citando ainda o problema dos arrombamentos de carros e assaltos ao comércio, também aquecido no bairro.

Nos vizinhos Sagrada Família e Horto, ambos na Região Leste, até as partidas de futebol na Arena Independência estão ditando o horário dos assaltos. O presidente da Associação de Moradores e Empresários (Ame-Sagrada Família), Marco Aurélio Alves, conta que parte dos moradores não tem garagem em casa e, diante da proibição de estacionar em um perímetro no entorno do estádio, precisam deixar os carros em ruas vizinhas durante as partidas. “Quando vão buscá-los, são surpreendidos pelos bandidos”, afirma.

Nas ruas próximas à unidade de saúde PAM Sagrada Família, funcionários estão deixando de ir de carro, diante da grande quantidade de roubos e arrombamentos de veículos. Já na Rua Conde Ribeiro do Vale, esquina com Avenida Cristiano Machado, foi depois da construção de uma passarela que os assaltos passaram a atormentar a comunidade. “Os ataques ocorrem desde a hora em que as pessoas estão indo trabalhar até tarde da noite, quando voltam de escolas e faculdades”, relata Marco Aurélio.

‘CARGA HORÁRIA’
O “horário de trabalho” também é amplo nos casos de criminosos que agem no Prado, na Região Oeste de BH. Mapeamento fornecido pela própria PM à comunidade mostra que, no início da manhã, os assaltos ocorrem principalmente contra pessoas que estão indo trabalhar e passam pela Avenida Amazonas, entre a Avenida Francisco Sá e a Rua Aristóteles Caldeira, além da Rua Brumadinho, no mesmo trecho. “Durante o dia, a criminalidade se dilui entre estabelecimentos comerciais na parte interior do bairro; à noite, se concentra no entorno da Avenida Francisco Sá, onde são comuns arrombamentos de carros e pontos de comércio”, informa o presidente da Associação de Moradores do Prado, Ricardo Scheid.

No Bairro Cidade Nova, na Região Nordeste, além do fervor do comércio, há ainda locais ermos que são atrativos para ladrões. De acordo com Nancy Camini de Oliveira, gerente de uma loja na Avenida Cristiano Machado, há assaltos diariamente em uma passarela que liga o bairro ao outro lado do corredor de trânsito. “Bandidos levam bolsas, celulares e mochilas de quem está atravessando. Na rua, passam de moto e assaltam. Entram no comércio para roubar e já houve até assassinato na porta de um banco aqui do lado. O problema é que o policiamento não é adequado”, critica.

Faltam efetivo e estrutura à Polícia Militar

Não só os problemas de segurança são comuns aos bairros de Belo Horizonte. Questões relacionadas à falta de estrutura e efetivo policial também são frequentes no discurso de moradores e comerciantes, que sofrem com o aumento dos crimes contra o patrimônio. “Falta policiamento no bairro. Não tem efetivo suficiente. Não tem viaturas, armamento, munição. Não tem estrutura. Metade da frota está parada. O Belvedere tinha base móvel, cavalaria. Hoje não tem mais. Vamos continuar cobrando isso das autoridades”, afirma o presidente da Associação dos Amigos do Bairro Belvedere, Ubirajara Pires.

A insatisfação tem levado a população a unir esforços em busca de segurança. No Bairro Castelo (Regional Pampulha), uma das apostas foi montar o grupo Castelo Protegido em uma rede social, que hoje já conta com mais de 2 mil pessoas, entre moradores e lojistas. “O policiamento está crítico em toda a cidade e, por aqui, há apenas duas viaturas para atender ao nosso bairro e ainda o Alípio de Melo e Manacá”, afirma o presidente da Associação de Moradores do Castelo, Glauco Mota, lembrando que os assaltos e arrombamentos cresceram muito no bairro nos últimos anos.

“A polícia sempre circula pelo bairro, mas o efetivo é pequeno para toda a cidade. A vigilância é muito ruim no São Pedro. Não tem presença da Guarda Municipal, nem câmeras do Olho Vivo e cavalaria. Isso é falta de governança”, reclama o presidente da associação de moradores, o também comerciante Carlos Rocha. Segundo ele, uma das alternativas para aumentar a segurança foi montar um grupo de vizinhos no WhatsApp, que funciona como canal com a polícia.

De acordo com Alfredo Gordon, um dos conselheiros da Associação dos Amigos do Bairro de Lourdes (Regional Centro-Sul), a Polícia Militar tem apoiado a população no local, mas esbarra no baixo efetivo e em problemas de infraestrutura. A queixa se repete ainda no Sagrada Família (Leste), onde a cobrança é pelo retorno da base móvel retirada do bairro há dois meses, além do aumento do efetivo. No Planalto (Norte), a população cobra as reuniões com a PM, interrompidas desde o ano passado, além da presença maior de policiais, especialmente em motos, que são mais ágeis. “Estamos todos inseguros nas ruas”, relata a presidente da Associação Comunitária do Planalto e Adjacências, Magali Ferraz.

E com forte movimento comercial, o Barreiro cobra intensificação no serviço de inteligência da PM. De acordo com comerciantes, bandidos roubam duas e até três vezes e não são detidos. “Falta apoio da PM. A solução foi montar uma rede de vizinhos e comerciantes protegidos, mas ela ainda precisa melhorar. Nós mesmos é que estamos tendo que tomar conta da região, porque a criminalidade cresceu muito”, afirma o presidente da Associação de Moradores e Amigos da Região do Barreiro, Fábio Daniel Barbosa.

Aposta em diálogo e remanejamento

De acordo com a Polícia Militar, a corporação está atenta aos problemas e tomando providências para reduzir a incidência de criminalidade em Belo Horizonte. Segundo o chefe da assessoria de comunicação do Comando de Policiamento da Capital (CPC), major Sandro de Souza, já foi determinada a transferência de militares da administração para o trabalho operacional. Desde janeiro foram 100, e a determinação é que mais 100 transferências ocorram até o fim do mês.

Além disso, os administrativos deverão ser colocados no mínimo duas vezes por semana para atuar no trabalho de rua, nos horários de maior incidência de crimes. Na semana passado, o comando determinou ainda que o policiamento a pé fosse reforçado nas vias identificadas por estatísticas da PM como mais problemáticas para inibir a ocorrência de delitos. Policiais de cada batalhão foram orientados a visitar comerciantes, repassando dicas sobre como prevenir assaltos, além de incentivar a formação de redes de vizinhos e lojistas protegidos, assim como a participação em encontros periódicos com a PM.

Sobre efetivo e infraestrutura, a PM informou que os cerca de 900 militares em preparação – que se formam em janeiro – já estão reforçando o policiamento nas ruas e um processo de locação autorizado pelo governo vai permitir a substituição de 602 viaturas das 1.013 que integram a frota hoje. O primeiro lote, com 348 veículos, será entregue na próxima segunda-feira.


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