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Atingidos por rompimento de barragem fazem caça a tesouros em Mariana

Ex-moradores de Bento Rodrigues promovem buscas nos destroços do antigo povoado e se emocionam ao desenterrar peças que ajudam a manter viva história da comunidade

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postado em 29/02/2016 06:00 / atualizado em 29/02/2016 08:36

Paulo Henrique Lobato

Tulio Santos/E.M/D.A/Press
Mariana – José da Graça Caetano, de 62 anos, nem acreditou quando encontrou o quadro da dupla de música sertaneja João Mineiro e Marciano em meio aos montes de rejeitos de minério de ferro que destruíram seu lar, em Bento Rodrigues, povoado de Mariana devastado pelo estouro da Barragem do Fundão, da Samarco, em 5 de novembro de 2015. “Está intacto. Veja os cantores. A foto é da época em que eles tinham cabelo comprido. Acho que é da década de 1980. Vou guardar para enfeitar a sala da casa onde um dia vou morar, no novo Bento”, festejou.

Ele e cerca de 100 atingidos pela represa retornaram ao antigo lugarejo no fim de semana, em busca de objetos que contam tanto a própria história pessoal quanto a do povoado, fundado há três séculos por um bandeirante. Para José e os amigos, as pequenas coisas resgatadas dos montes de barro são como grandes tesouros. Diante de escombros e ruínas, eles se permitiram sorrir. E cada um teve uma história para contar.

A pequena Ana Luiza Euzébio, de 10, nem se incomodou com o vento que jogou poeira em seu rosto. Em uma das mãos, exibia um porta-retrato cor-de-rosa com a fotografia tirada quando ela era bem pequena. Na outra, um relógio que pertence ao pai. A menina não sabia se o acessório funcionava. Para ela, isso não tem a menor importância: “São nossos. A foto e o relógio estão sujos. Vou limpar e levar para casa”.

Lenice Gonçalves do Carmo, de 46, fará o mesmo com o vaso de mudas de orquídeas resgatado dos escombros da antiga moradia. “Dá dó ver o Bento assim. Minha casa, seu moço, era ao lado daquele pé de pinho. Perto da mangueira. A lama veio, ouvi um zueirão danado e só tive tempo de sair com a roupa do corpo. Agora acho o vasinho. Vou fazer mais mudas com as orquídeas. Elas vão enfeitar minha nova casa”, contou.

A espécie de caçada a tesouros trouxe um pouco de alento aos desalojados. Debaixo do sol escaldante, no último sábado, Gilberto Pereira, de 33, chamou os amigos em voz alta. O motivo? Ele e Maria das Graças acharam uma garrafa, de 900ml, cheia de uma aguardente de marca famosa. Ele não pretende destampá-la: “É uma relíquia. Não é para ser aberta”.

Tulio Santos/E.M/D.A/Press
Próximo a ele, outro sorriso despertou a curiosidade de mais gente. Wallace Henrique de Souza, de 28, ficou maravilhado ao notar que o pé de caqui plantado pela família resistiu ao tsunami de lama e deu dezenas de frutos. “Ainda estão verdes, mas vou partir uns galhos com as frutas. Vai ser a última vez que vou comer o fruto do Bento”, comentou.

Wallace acomodou um galho sobre os ombros, caminhou até a encruzilhada onde havia o açougue e, do outro lado, o bar com mesa de sinuca. Lá, mostrou o seu troféu a Eva Aparecida de Souza, de 48. Ela ajeitou no colo a neta Melissa, de 2, e olhou com satisfação os caquis ainda verdes. A casa em que vivia não existe mais. Do quintal, nada sobrou. Apenas as lembranças da época em que plantava mandioca, tomate, couve, alface, entre outros cultivos.

“A gente não comprava nada disso. Agora, sem horta, pago caro para ter o que tinha de graça. Minha neta brincava no gramado. Entrava nas casas dos vizinhos. Estamos hoje num apartamento (alugado pela Samarco) em Mariana. Ela perdeu a liberdade e não entende o que aconteceu. Fica pedindo para a gente voltar para a casa do Bento”, contou.

As famílias de Bento Rodrigues afetadas pelo desastre aguardam indenização e a construção do novo lugarejo para recomeçar a vida. No sábado, visitaram uma área de 100 hectares onde o povoado pode ser reerguido. O terreno, que pertence à Arcelor Mittal, fica a 12 quilômetros do Centro Histórico de Mariana e foi o escolhido pela maioria dos desalojados para sediar o novo distrito, mas ainda serão apresentadas outras duas opções.

Enquanto isso...  Acordo com empresas deve ser firmado hoje

Há expectativa de que o acordo entre a Samarco e suas controladoras – Vale e BHP Billiton – seja assinado, hoje, em Brasília, com a Advocacia-geral da União (AGU) e os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. As mineradoras se comprometeram a recuperar o meio ambiente e a indenizar os atingidos. A ação que tramita na Justiça Federal em BH, cobrando das empresas R$ 20 bilhões, terá o trâmite suspenso. Até 2018, R$ 4,4 bilhões devem ser investidos em ações e obras por meio de uma fundação a ser criada pelas mineradoras. Outros valores serão calculados para os triênios seguintes.
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