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EM percorre o que sobrou de Bento Rodrigues, povoado sugado pela lama

Os repórteres João Henrique do Vale e Rodrigo Clemente vão para o distrito de Mariana depois da restrição ao acesso dos antigos moradores e encontram cenário desolador, onde máquinas estão à procura de vítimas

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postado em 16/11/2015 06:00 / atualizado em 16/11/2015 17:24

João Henrique do Vale - Enviado Especial


Bento Rodrigues
- A sujeira nos postes de iluminação já dava ideia da onde a lama de rejeitos de minério que vazou das duas barragens da Samarco em Mariana, na Região Central de Minas Gerais, chegou a Bento Rodrigues. Apenas dois palmos acima dos mastros estão limpos. As folhas verdes das árvores maiores, como uma mangueira, contrastam com o marrom dos resíduos da mineração que ficaram nos troncos. A Escola Municipal Bento Rodrigues ficou completamente destruída. Restaram apenas as lousas brancas e o quadro de calendário. Da Igreja de Nossa Senhora das Mercês sobrou apenas parte das paredes.

A reportagem do Estado de Minas conseguiu entrar em Bento Rodrigues depois que os moradores foram proibidos de voltar ao local por segurança, na quarta-feira,  e viu de perto a devastação provocada pela avalanche. Casas estão sem telhado, brinquedos de crianças, roupas e até dois potes lotados de balas estão espalhados em meio à lama e ao entulho. Na cidade, o único barulho é dos pássaros e das máquinas pesadas que abrem as ruas para os militares poderem acessar os locais para as buscas. Na chegada, na parte alta, já dá para ter ideia da correria e do desespero dos moradores. No alto, os imóveis estão com portas e janelas fechadas. Carros foram deixados para trás, assim como objetos pessoais. No centro comunitário, que está com as portas abertas, dá para notar as cadeiras espalhadas.

Quando se começa a descer as ruas do distrito, a cena é de devastação e isolamento. Quando se chega perto do rio, as marcas de barro vão aumentando nas paredes das casas. Começam a um metro e terminam com quase 10 metros. A sujeira no tronco de árvores de grande porte impressiona apenas as folhas verdes limpas, o que aguçou ainda mais a cor.

A Escola Municipal Bento Rodrigues foi invadida pela lama e ficou sem telhado. Paredes foram destruídas, assim como os portões. Mesmo assim, as lousas brancas usadas pelos professores para passar conhecimento aos estudantes ficaram intactas, talvez, para lembrar que a cidade entrou para história de Minas Gerais e do país inteiro. Outro quadro verde escrito ‘“calendário’ também não sofreu avarias e sobreviveu à enxurrada. Descendo um pouco mais pela rua, dá para notar várias casas destruídas. Em uma delas, que também está sem telhado, a cena de tristeza é constratada por um quadro, que continua pregado na parede. Em outro imóvel, o banheiro está exposto. O espelho, parcialmente quebrado, reflete a imagem de um distrito abandonado e destruído.

 

Vídeo: equipe do EM percorre Bento Rodrigues

Ao virar à esquerda na rua aberta pelo Corpo de Bombeiros, chega-se à Igreja Nossa Senhora das Mercês. Lá, os moradores se encontravam para rezar, conversar e aguçar a fé. O imóvel não existe mais. Apenas um pedaço da parede de aproximadamente 30 centímetros. Ao fundo, o mar de lama que se formou. Durante aproximadamente uma hora e meia, a reportagem percorreu o local. O cheiro do rejeito de mineração ainda é forte. A lama já está mais firme, o que possibilita andar sobre ela. Porém, ainda há risco no local, por isso continua a interdição dos bombeiros. Máquinas pesadas abrem caminho.


Os trabalhos em Bento Rodrigues são feitos com duas máquinas pesadas. Uma retroescavadeira e uma pá carregadeira estão sendo usadas para abrir caminho pela cidade, que está tomada pela lama. Elas são controladas por técnicos da Samarco com auxílio de militares do Corpo de Bombeiros. “Os tratores só podem passar nos locais onde foram feitas buscas e vistorias. Nestes pontos, não foram encontrados corpos, por isso foram abertos”, explica o tenente Philippe Matos. Equipes especializadas dos bombeiros estão na cidade para fazer buscas por desaparecidos. São militares de Conselheiro Lafaiete, na Região Central, além de homens do Sul do país. Mesmo assim, os  trabalhos são demorados, devido aos grandes estragos provocados pela tragédia. “Tendo em vista a extensão e a minúcia do trabalho, ele é bastante lento”, afirma Matos.

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Cães farejadores estão sendo usados. Os militares usam canos PVC para furar a lama. Em seguida, ele é girado para formar uma espécie de cone. Se tiver vítimas ou algum animal morto, sobe um odor que é farejado pelos cachorros. Assim, pode-se chegar a possíveis corpos.


ANIMAIS Além das buscas por desaparecidos, bombeiros também estão preocupados com a situação de animais. Em uma fazenda perto de Bento, cerca de 100 animais, principalmente gado, estão ilhados. Ontem, bombeiros usaram o helicóptero da Polícia Militar para chegar até eles e levar mantimentos. Segundo os militares, os bichos estão magros e abatidos. Uma operação deve ser montada nos próximos dias para tentar resgatá-los.

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