Escola integral em Belo Horizonte potencializa capacidades

Criado por lei de 1996, projeto gera resultados positivos no comportamento e desempenho de alunos, indica estudo. Capital já trabalha 100% com a proposta; ideia é levá-la para o ensino médio

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postado em 12/05/2013 00:12 / atualizado em 12/05/2013 08:15

Junia Oliveira /

Alexandre Guszanshe/EM/D.A Press


Nas quadras, cada bola na rede não é apenas um gol. Na capoeira, o som do berimbau vai além dos movimentos cadenciados. Em oficinas de dança, artesanato e jogos, habilidades para as artes são quase secundárias. No programa Escola Integrada, essas ações se transformam em algo muito maior, refletindo diretamente nos resultados em sala, segundo um estudo divulgado recentemente. Quem participa das atividades oferecidas no contraturno das aulas na própria instituição, em espaços públicos ou de parceiros, tem desempenho melhor em português e matemática do que os outros estudantes. O incremento chega a até 15%, número referendado por educadores. Quem trabalha no dia a dia com a meninada ainda acrescenta: além das notas, melhoras no comportamento e na convivência são perceptíveis e comemoradas.

O levantamento em 30 escolas da rede municipal foi feito pela Fundação Itaú Social, uma das principais parceiras da Prefeitura de Belo Horizonte nesse programa, em conjunto com o Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Foram avaliados três grupos: alunos que participavam do programa; estudantes dessas mesmas instituições, mas que não aderiram ao projeto (a participação é voluntária); e meninos de escolas onde ele não havia sido implementado. Este ano, o projeto entrou nos 170 estabelecimentos da rede municipal.

O primeiro resultado foi a identificação do chamado “efeito transbordamento”, por meio do qual houve respostas positivas mesmo dos alunos não participantes, mas que estudam em escolas onde o programa ocorre. “O bom desempenho ‘transborda’ em quem está próximo, efeito do clima gerado na escola: aumento da leitura, do uso do computador, da frequência em atividades culturais, da prática de esportes, hábitos de higiene e de estudo, diminuição da agressividade e melhoria na relação familiar. E isso tudo foi muito mais positivo em relação às escolas onde não havia o programa”, explica a gerente da Fundação Itaú, Isabel Santana.

Na medição da aprendizagem, a base foi a Avalia-BH, prova aplicada aos alunos da rede municipal de ensino da capital mineira. Na média, as notas dos estudantes das escolas com o programa melhoraram cerca de 15% em matemática, na comparação com aqueles das instituições onde ainda não havia o Escola Integrada. Em português, a chance de o estudante subir de nível de proficiência (abaixo do básico, adequado e excelente) também é 15% maior do que aqueles alunos que não participam das atividades extraclasse. Na matemática, ocorre ainda o “efeito suporte”, diminuindo a chance de o menino ser rebaixado de nível.

Isabel destaca dois aspectos do programa. O primeiro é a necessidade de continuidade das ações. “Quanto mais longa a duração do programa na escola, maior é o impacto positivo”, diz. O outro é a condição equitativa. “Temos que buscar uma educação de qualidade não só para alunos que têm suporte da família e seriam bons de qualquer jeito, mas para todos. É ruim para uma rede de ensino ter uma variação de desempenho grande entre alunos e as escolas. É uma estratégia que pode melhorar a nota de todos, mas a equidade melhora principalmente a nota de quem está pior”, avalia.

Rotina

A Escola Municipal Ayres da Matta Machado, no Bairro Tirol, no Barreiro, tem o programa há pouco mais de um ano. A diretora Rose Bonfá diz que já é nítida a melhora de disciplina, convivência e socialização entre os jovens, mas a adesão dos pais ainda é um desafio. Os 370 alunos que participam do Escola Integrada fazem oficinas de capoeira, percussão, artesanato e tecelagem. “A meta é ter mais estudantes, mas, como o espaço onde as atividades ocorrem fica longe da escola, os pais têm um pouco de desconfiança no transporte”, afirma.

Diretora da Escola Municipal José de Calazans, no Bairro São Marcos, na Região Nordeste da capital, que está há cinco anos no programa, Sandra da Conceição Silva e Santos garante que a diferença é nítida. Oficinas, passeios a museus, parques e centros culturais fazem parte da rotina e se apresentam como um mundo até antes desconhecido para a maioria dos estudantes. Há ainda o momento do reforço escolar para quem tem dificuldade em sala. “É uma oportunidade de vivenciar novas aprendizagens e culturas. Por serem mais vulneráveis, esses meninos têm mais dificuldade de aprendizado e não têm tanto estímulo em casa. Às vezes, têm só a alimentação da escola. Então, é preciso considerar também esse lado, mas com certeza eles melhoram muito, porque o programa oferece boa estrutura”, afirma Sandra.

Na igreja ao lado da escola, onde as atividades ocorrem, o garoto Guilherme Pereira da Silva Santos, de 11 anos, do 6º ano do ensino fundamental e no programa desde 2007, diz que as aulas de artesanato são as preferidas. Ele garante mandar bem na capoeira e avalia que, por influência desse tempo a mais na escola, melhorou não só o comportamento como também o aprendizado. “Não perco mais nota e elas melhoraram bastante. Tinha dificuldade com raiz quadrada e potência e isso acabou. Fico estimulado a estudar”, relata.

A menina Maria Eduarda Marques Ferreira, de 8, aluna do 3º ano do fundamental, entrou no projeto em 2011 e participa de oficinas de dança, pintura e jogos. Ela não pensa duas vezes para responder sobre seus avanços: “Eu era muito agressiva e batia nos outros, estou melhorando a cada dia”, afirma.
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