Desastres não tem freios no Anel Rodoviário de BH

Carreta com 26 toneladas repete o enredo conhecido no trecho com maior mortalidade na rodovia: com falha mecânica, arrastou caminhões e por um triz não provocou outra tragédia

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postado em 29/11/2012 04:02 / atualizado em 29/11/2012 07:54

Pedro Ferreira

Leandro Couri/EM/D.A Press

Mudam as datas, as vítimas e os protagonistas, mas o histórico de descaso faz o enredo se repetir no Anel Rodoviário Belo Horizonte. No início da tarde de ontem, uma carreta carregada com duas chapas de aço de 26 toneladas perdeu os freios na descida do Bairro Betânia, na Região Oeste, arrastou um caminhão para fora da pista principal e atingiu outros dois parados na marginal. Sete pessoas ficaram feridas, duas em estado grave, ambas socorridas em helicópteros da Polícia Civil e dos bombeiros. Por ironia, os reflexos de desastres anteriores evitaram mais uma tragédia na história da rodovia. Peças de trilhos de ferro instaladas diante de um restaurante exatamente por causa das batidas foram destruídas pelos veículos desgovernados. A barreira impediu que sete pessoas que estavam no estabelecimento fossem atingidas.


O acidente ocorreu no km 6 da rodovia, sentido Vitória, palco de várias tragédias. De janeiro a outubro deste ano, o Anel Rodoviário registrou 2.765 acidentes nos 26,5 quilômetros que cortam a capital, com 927 feridos e 27 mortes. No mesmo período do ano passado, foram 2.512 acidentes, 841 feridos e 30 mortos.

O acidente de ontem ocorreu por volta das 13h50. Segundo a PMRv, uma carreta branca com placa de Bezerros (PE), dirigida por Marlon Júnior Viana de Oliveira, de 42 anos, perdeu os freios na descida do Bairro Betânia. O veículo seguiu desgovernado por dois quilômetros. “O motorista começou a buzinar e a gritar. Os carros que estavam à sua frente foram abrindo caminho para ele passar. Ele disse que os freios ficaram sem ar”, disse o major PM Agnaldo Lima de Barros.

A carreta atingiu a traseira de um caminhão amarelo e o arrastou para fora da pista principal, destruindo a proteção lateral da via. O motorista, João Batista Gomes, de 50 anos, e dois passageiros, Wesley Vicente de Rezende, de 23, e Evandro Júnior Cordeiro, de 21, ficaram feridos, os dois últimos em estado grave. “Parecia uma cena de guerra. Um ocupante do caminhão amarelo estava prensado nas ferragens, com duas fraturas expostas na perna”, contou o sargento PM Afonso Epifânio, primeiro policial a chegar. A pista principal do Anel ficou fechada por duas horas e houve congestionamento. No sentido Rio de Janeiro, o tráfego foi desviado para uma estrada lateral.

O Restaurante Tia Preta, que teve a fachada destruída, já foi atingido duas vezes por veículos de carga que perderam o controle no Anel. Ontem, um caminhão vermelho estava parado diante do estabelecimento, onde o dono almoçava. “A gente só escutou o estrondo e o caminhão sendo levantado pela carreta branca. A poeira era muita”, contou Fagner Henrique Mapa, de 22, filho do dono do ponto comercial.

Para o major Agnaldo, o Anel Rodoviário é inadequado para atender o fluxo misto de veículos rodoviários e urbanos. “Pegamos carreta bitrem circulando no Anel e também motoristas que acabaram de tirar a carteira de habilitação e estão em período de experiência. A polícia já intensificou o policiamento, o Dnit aumentou o número de radares, mas somente obras de grande porte resolverão o problema”, disse o major. O presidente do Sindicato dos Transportadores Autônomos de Carga de Minas Gerais, José Carneiro, cobra a construção de rampas de escape na rodovia.

O comandante de policiamento do Anel, tenente Geraldo Donizete, lembra que a rodovia foi duplicado em 1982. “Em 2001, quando fizeram a primeira contagem, eram 52 mil veículos circulando por dia. Hoje, são 120 mil veículos diariamente, 20% deles de carga”, disse o tenente. Os trevos das avenidas Amazonas, Pedro II, do Viaduto São Francisco e a saída para Brasília são os pontos com maior número de acidentes, segundo o tenente, mas as tragédias com mais mortes estão concentradas na descida do Bairro Betânia.

O coordenador de Operações do Detran-MG, delegado Ramon Sandoli, começou a investigar o acidente de ontem. Segundo ele, tudo indica que o motorista da carreta branca dirigia em alta velocidade. “Se ele estivesse dirigindo dentro da normalidade, nada disso teria acontecido. Quando o motorista desce o Anel numa velocidade maior, o freio não aguenta”, afirmou o policial.

 

A manhã em que choveu conhaque

“O povo já acordou com o litrão na boca.” Assim o ajudante de carga Carlos Evangelista descreveu a cena que presenciou ontem na Vila da Paz, no Bairro Universitário, Região da Pampulha. Por volta das 5h30, um caminhão carregado de conhaque tombou no km 21 do Anel Rodoviário e pessoas que vivem debaixo do viaduto saquearam parte da mercadoria, obrigando a polícia a agir.

O comandante do policiamento do Anel Rodoviário, tenente Geraldo Donizete, da Polícia Militar Rodoviária (PMRv), alerta que é crime saquear mercadoria e que os responsáveis podem ser presos por furto. Apesar da advertência, na vila o clima era de festa e muita gente deixou de lado a tradicional cachaça para degustar conhaque. O dono de um boteco das proximidades, segundo os vizinhos, pegou mais de 100 garrafas e reforçou o estoque. Ele negou e mostrou apenas cinco litros. “Vendo cada dose por R$ 1,50”, disse o comerciante.

A dona de casa Adriana Edwiges, de 35, conta que as pessoas pegavam duas, até três caixas de bebidas de uma vez. “Era gente correndo com caixas, motoristas e pessoas de moto parando no Anel e enchendo mochilas... Pelo jeito, o Natal de muita gente vai ser farto”, disse. Funcionários de uma fábrica de peças em frente, segundo a dona de um restaurante, deixavam o turno da madrugada e também levaram garrafas. “Até um pastor evangélico pegou 100 garrafas”, garantiu um garoto. Um homem dormia numa carroça atrelada a um burro. O sono pesado era efeito da bebedeira, disseram testemunhas.

O mecânico Alan Barbosa, de 33, conta que consertava um veículo debaixo do viaduto e escutou o barulho do caminhão tombar. “Subi correndo para o Anel e o caminhão ainda estava com o motor ligado e o motorista saindo com arranhões. Metade da Vila da Paz e da Vila São Vicente correu para pegar bebidas”, disse Alan. (PF)

ROTINA PESADA

Acidentes com veículos de carga no Anel no segundo semestre
Novembro
– 15/11 – Desastre com um caminhão e duas motos deixa dois feridos e trânsito lento
– 13/11 – Caminhão tomba e congestiona tráfego
– 10/11 – Caminhão-pipa bate em mureta
Outubro
– 26/10 – Carreta com 31 toneladas desce desgovernada
– 25/10 – Carreta perde o freio, atinge dois veículos e interdita pista
– 20/10 – Acidente entre carreta e veículo de passeio no km 22
– 24/10 – Carreta com gás tomba e causa congestionamento
– 6/10 – Carreta derruba poste e pista é interditada
– 5/10 – Acidente entre carreta e moto deixa trânsito lento
Setembro
– 28/9 – Caminhão fecha alça de acesso ao Anel e complica trânsito
– 27/9 – Carreta desgovernada arrasta veículos
– 21/9 – Carreta tomba e interdita parcialmente o Anel
– 16/9 – Carreta tomba e interdita pistas
Agosto
– 31/8 – Duas motos, um carro e uma carreta se envolveram em acidente. Uma pessoa morre
– 28/8 – Caminhão desgovernado atinge carros
– 13/8 – Carreta de cimento tomba e interdita pistas
– 7/8 – Acidente entre ônibus e caminhão no km 9
– 1/8 – Motociclista morre após bater em carro e ser atropelado por veículo de carga
– 1/8 – Caminhão desgovernado arrasta veículos
Julho
– 12/7 – Caminhão desgovernado atinge oito veículos no Anel e deixa um morto
– 6/7 –  Acidente com carreta no Anel deixa 8 torres de iluminação desligadas
– 5/7 – Carreta bate em mureta de proteção e derruba poste
 

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