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Estado de Minas

Sinos roubados de igrejas coloniais mineiras são recuperados

Um homem foi preso após um ano de investigação nessa operação conjunta do Ministério Público (MP) estadual e Polícia Militar


postado em 16/05/2012 06:00 / atualizado em 16/05/2012 07:17

(foto: Beto Novaes/EM/D.A Press. Brasil)
(foto: Beto Novaes/EM/D.A Press. Brasil)

Numa operação conjunta do Ministério Público (MP) estadual e Polícia Militar, deflagrada em Brumadinho, na Grande BH, e Ouro Preto, na Região Central, foram apreendidos, na manhã de ontem, três sinos, sendo dois com os suportes de madeira, de igrejas coloniais mineiras; 12 peças de porcelana sem comprovação de origem; um busto de metal de pessoa não identificada com base de mármore; e um telefone celular e máquina fotográfica. O material estava em poder do marceneiro Vicente de Paula Pinto, de 49 anos, conhecido como Paulinho Boiadeiro, dono de uma oficina de móveis no distrito de Casa Branca, a 37 quilômetros da sede de Brumadinho, e com domicílio em Ouro Preto. Guarnição da Rondas Táticas Metropolitanas, em Brumadinho, e da PM, em Ouro Preto, cumpriram o mandado de busca e apreensão expedido pela juíza da comarca de Ouro Preto, Lúcia de Fátima Magalhães Albuquerque e Silva.

Há um ano, Paulinho Boiadeiro vem sendo investigado pelo MP, via coordenadoria das promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais e de Combate ao Crime Organizado. O objetivo ainda é encontrar o sino de 120kg furtado há um ano e meio da centenária Capela de Santo Antônio do Monte, no distrito de Engenheiro Correia, em Ouro Preto. A peça foi arrancada de um compartimento na área externa sem deixar pistas. Segundo o coordenador da promotoria, Marcos Paulo de Souza Miranda, o acusado teria vendido o bem cultural por R$ 3.500. “Não temos dúvidas de que esses sinos encontrados hoje (ontem) pertencem a igrejas e capelas de Minas e vamos continuar a investigação”, afirmou Souza Miranda.

A operação simultânea em Brumadinho e Ouro Preto começou às 8h, e, em ambos os casos, não houve resistência de quem estava nos locais, de acordo com os militares. Na marcenaria, foram encontrados com o suspeito um sino de 45cm de altura e 37cm de diâmetro (na boca), com parte do bronze raspado e gravado o ano de fundição (1958); um sino azul, de 20cm de altura, também com suporte de madeira, todo pintado em azul, uma travessa, dois pratos, três pratinhos de sobremesa, duas tigelas, de fabricação norte-americana, quatro xícaras nacionais, celular e câmera. Na residência em Ouro Preto, foi encontrado um sino menor, de 25cm de altura e 22 de diâmetro na boca, sem suporte.

O delegado de Brumadinho, Otávio Luiz de Carvalho, disse que Paulinho Boiadeiro tem passagens pela polícia, já tendo cumprido penas na década de 1980 por furto, e na de 1990 por tráfico de drogas, em Ouro Preto. Ele instaurou inquérito e disse que todo o material será periciado e avaliado pela equipe de historiadores do Ministério Público. Logo depois de ser ouvido pelo delegado e pelo promotor de Justiça da comarca, William Garcia Pinto Coelho, o marceneiro foi liberado. O delegado explicou que ele não foi preso em flagrante nem autuado, já que, neste caso, não há vítima e nem certeza de que o material é resultado de furto.

Na delegacia, Paulinho Boiadeiro contou que comprou o sino azul na porta da oficina, vendido por dois homens, por R$ 600. O segundo ele teria recebido de um casal para restauração, cuja mulher se chama Elisabete. Nos dois casos, ele não tem qualquer documento ou recibo que comprove sua declaração. Já o busto de metal, teria encontrado no porão da casa de um advogado num condomínio de Nova Lima, na Grande BH. “O sino menor é da minha porta em Ouro Preto, é artesanato comum, e as louças são minhas”, afirmou. Diante das peças, o promotor William lembrou que tudo deve ser feito para acabar com os furtos e o comércio ilegal de antiguidades e peças sacras. “É preciso localizar os intermediários que repassam os bens para os colecionadores e formam, assim, uma rede. Mais grave do que o furto é a aquisição das peças repassadas pelos intermediários”, disse.

Receptação

A investigação chegou a Paulinho Boiadeiro por meio de uma denúncia anônima, depois de matéria publicada pelo Estado de Minas em fevereiro, mostrando o furto do sino de Engenheiro Nogueira. O coordenador da promotoria disse que a pessoa que adquiriu esta peça deve fazer a devolução, antes de responder criminalmente por receptação. Em Minas, conforme o promotor de Justiça, estão sendo procurados seis outros instrumentos (veja o quadro) e qualquer informação pode ser comunicada às instituições responsáveis pelo patrimônio. “Já estamos pedindo todas as fichas de inventário de Ouro Preto referentes aos sinos para darmos início à perícia”, adiantou.

Quase 700 bens sumidos

Em Minas, conforme levantamento da promotoria, há 697 bens desaparecidos, que vão de cálices a imagens do santo padroeiro das comunidades, passando por oratórios e sinos. O período mais vulnerável para os templos católicos e instituições culturais ocorreu entre 1964 e 2012, quando 525 peças sumiram de altares, sacristias, mesas de museus etc. Nova Era, na Região Central, é campeão entre os municípios mais visados pelos bandidos, com registro de 58 peças sacras desaparecidas. Em quase meio século de assaltos, os piores anos para o patrimônio cultural foram 1994 (92 peças sumidas), 2003 (80) e 2008 (55). Nessa época, as quadrilhas atuavam em larga escala.

Desaparecidos

O Ministério Público estadual procura seis peças de cidades mineiras. Saiba de quais igrejas são:

» Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Sabará

» Igreja do Senhor Bom Jesus, em Sabará

» Capela de Santo Antônio do Monte, em Engenheiro Nogueira, Ouro Preto

» Igreja do Brejo do Amparo, uma das mais antigas do estado, em Januária, no Norte de Minas

» Igreja do distrito de Santa Rita Durão, em Mariana, na Região Central

» Igreja de Campo Belo, na Região Centro-Oeste

SERVIÇO

Denúncias devem ser feitas nas seguintes instituições:

» Ministério Público Estadual
pelo e-mail cppc@mp.mg.gov.br ou telefone (31) 3250-4620

» Iphan
Para obter ou dar informações, basta acessar o www.iphan.gov.br e verificar o banco de dados de peças desaparecidas. Denúncias anônimas podem ser feitas pelo telefone (21) 2262-1971, fax (21) 2524-0482, pelo e-mail bcp-emov@iphan.gov.br ou no banco on-line

» Iepha/MG
www.iepha.mg.gov.br ou pelo telefone (31) 3235-2812 ou 2813


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