
Um homem de classe média alta inconformado com o fim do relacionamento persegue a mulher que o denunciou à polícia por ameaças consecutivas. O enredo, muito semelhante ao do assassinato da procuradora Ana Alice Moreira de Melo, em um condomínio de Nova Lima, na Grande BH, levou policiais do 1º Batalhão e do Esquadrão Antibombas do Grupamento de Ações Táticas Especiais (Gate) a isolar a Rua Espírito Santo, no Bairro de Lourdes, na Região Centro-Sul da capital, para averiguar uma suspeita de bomba em um Kia Soul.
A professora estacionou o carro e quando voltou foi abordada pelo ex-parceiro, mas entrou no veículo sem dar chance a qualquer diálogo. O auxiliar administrativo L.G.L., de 21, estava na calçada no momento em que o dispositivo foi instalado e alertou a professora que o homem que acabara de sair dali havia colocado alguma coisa debaixo do carro. “Vi quando ela estacionou. Logo depois que ela saiu, o homem, muito bem vestido, passou pelo carro, fingiu que tropeçou e colocou alguma coisa debaixo do veículo. Ele deu algumas voltas no quarteirão e assim que ela voltou para buscar o carro ele se aproximou. Como vi que ela não deu muito papo, decidi avisá-la”, contou o auxiliar administrativo.
A professora acionou a Polícia Militar, que pediu ajuda ao Esquadrão Antibombas do Gate para avaliar o conteúdo da caixa de 15cm presa por imãs no fundo do Kia Soul. O tenente Francis Albert, que coordenou a operação, desmontou a caixa de forma a preservar o conteúdo para perícia. “Não havia explosivos. A polícia científica vai poder dizer com precisão, mas pelo que vi era um rastreador, porque no material há um chip e número de série. Quem o colocou queria seguir os passos da vítima”, afirmou o militar. A ocorrência foi registrada na Delegacia de Mulheres, onde A.L.C. prestou queixas do ex-namorado. Segundo o tenente Elio, do 1º Batalhão da Polícia Militar, foram feitas buscas na casa do suspeito e da família sem sucesso.
Queixas em vão
A professora A.L.C. diz que manteve um relacionamento de seis anos com o consultor financeiro, que, segundo ela, é de uma família de classe média alta de BH e dono de posses. Há dois anos, ela tenta romper o namoro e há cinco meses decidiu pôrr um ponto final no relacionamento. “Desde então, ele telefona sem parar, perturba a minha família falando horrores de mim, me fez até perder o emprego em um colégio tradicional da cidade. Ele procura as pessoas com quem tento me relacionar para denegrir a minha imagem. Já perdi muito por causa da obsessão dele”, contou.
Ela diz que nos últimos quatro meses registrou dois boletins de ocorrência contra S.L.S.L. e, apesar de ter a seu favor uma medida protetiva que determina que o acusado mantenha uma distância de 30 metros, se sente desamparada. “A Lei Maria da Penha precisa sofrer uma reformulação para que o processo não seja tão moroso, porque toda fatalidade cumpre um histórico muito parecido com o meu. Me sinto uma privilegiada de estar aqui contando a minha história, porque poucas vítimas podem falar por si mesmas”, desabafa a professora.
Para ela, além de perder a tranquilidade, uma mulher perseguida por ex-companheiro tem danos psicológicos. “Hoje, vim entregar um pedido de licença à prefeitura, onde trabalho, porque essa situação desencadeia muito medo e baixa autoestima. A gente fica querendo saber quem vai parar esse homem obcecado. Recorri a ex-mulher, filhos, família, pedindo ajuda. Não sei o que ele faria depois de instalar esse rastreador no meu carro”, diz.
