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Cortes no orçamento anunciados pelo MEC deixam professores e estudantes apreensivos

Reduções afetam o intercâmbio, processo essencial para internacionalização das universidades

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postado em 16/06/2015 06:00 / atualizado em 16/06/2015 08:07

Márcia Maria Cruz

Paulo Filgueiras/EM/D.A Press

O risco de encolhimento do programa Ciência sem Fronteiras deixa em alerta a comunidade acadêmica. Apesar de o governo federal ter instituído o slogan Pátria Educadora, o ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, em audiência no Senado na última semana, anunciou perdas de R$ 9,4 bilhões no Orçamento da União para a área. O impacto deve ser inevitável no Ciência sem Fronteiras, no Programa Nacional de Ensino Técnico e Acesso ao Emprego (Pronatec) e no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).


Os cortes devem afetar significativamente a política de intercâmbio da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A instituição ocupa o segundo lugar no ranking nacional no número de bolsas concedidas desde o início do programa, em julho de 2011. Foram 3.601 bolsas, quantidade inferior apenas à da Universidade de São Paulo (USP), com 4.874. Na UFMG, a maior parte (85%) é para alunos de graduação, mas o programa também atende a pós-graduação, com destaque para doutorado sanduíche, quando parte do curso é feita em uma instituição do exterior. Outras instituições mineiras também serão atingidas. No estado, já foram concedidas 12.366 bolsas.

O Ciência sem Fronteiras contribui para para o processo de internacionalização das universidades brasileiras, dando oportunidade para que muitos estudantes, principalmente os de baixa renda, façam intercâmbio. Aluno do 3º período de matemática, Leonardo Saud, de 20 anos, planeja fazer intercâmbio nos EUA ou na Inglaterra. No entanto, sem o auxílio do programa, não será possível realizar o sonho. “O programa é muito bom, porque cobre todas as nossas despesas no exterior. Mas não tenho condições de custear um intercâmbio”, diz.

 

Como ele é aluno de iniciação científica, a experiência contribuiria para sua formação como pesquisador na área de mecânica celeste. “Há críticas ao programa direcionadas às pessoas que usam a bolsa para outros fins. Mas muitos estudantes aproveitam bem para ampliar o conhecimento. A possibilidade de cortes é muito ruim, porque tira a oportunidade de quem leva a sério.”

Aluno do curso de física, João Guilherme Lara Condé, de 22, lamenta o fato de que outros colegas possam ter mais dificuldade para conseguir a bolsa. Ele estudou no exterior em 2013 e considerou a experiência fundamental para sua formação. “É importante para vermos como outras universidades funcionam. Vamos sentir os efeitos negativos dos cortes a médio e longo prazo”, disse. Na sua avaliação, a redução no orçamento do MEC já é sentida nas universidades públicas. “Fico insatisfeito, mas, diante da crise, o programa parece uma preciosidade. Nos laboratórios já somos orientados a economizar até papel nas impressões. Fica até difícil falar quando já faltam coisas básicas”, reclama.

PRIORITÁRIOS

As engenharias lideram o ranking entres os cursos apontados como prioritários pelo governo brasileiro para o Ciência sem Fronteiras. Da 78.173 bolsas concedidas no Brasil para todas as áreas, cerca de 34,6 mil foram para as engenharias. A UFMG está na frente quando o assunto é engenharia aeroespacial, sendo a instituição que mais enviou estudantes para o exterior. Dos 373 intercâmbios da área aeroespacial, 71 são de estudantes da instituição mineira, superando outras universidades de referência, como Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), com 37. O diretor da Escola de Engenharia da UFMG, Alessandro Fernandes Moreira, diz que ainda não é possível saber o tamanho do programa frente aos cortes orçamentários.

Segundo ele, a área conta com outros programas que permitem intercâmbio. No entanto, os cortes certamente trazem impactos negativos. “Teremos um número menor de beneficiados. Reconhecemos a importância do intercâmbio e incentivamos os nossos alunos”, afirma. O diretor pontua que, como o ensino e conhecimento são cada vez mais globalizados, não se pode falar da formação dos alunos sem pensar na experiência internacional. “Nas engenharias é fundamental. Trabalhamos com intercâmbio há muito tempo, muito antes do Ciência sem Fronteiras, mas o programa faz muito sucesso.”

Os cortes surpreenderam o estudante do 4º período de engenharia química Daniel Scussel Grippe, de 20. A maior parte de seus colegas de turma está saindo para a experiência internacional. Como a inscrição é feita um ano antes, eles fizeram quando estavam no 2º período. Como estava muito no início do curso, Daniel achou melhor esperar, mas agora teme não conseguir. “Quando ouvi falar dos cortes do MEC, achei que não teria mais o programa. Fica sempre a dúvida no ar. Arrependi demais de não ter feito antes”, lamenta. Quando as novas inscrições para o programa abrirem, ele pretende se candidatar a uma bolsa em uma universidade italiana.

READEQUAÇÃO

Os cortes no programa deverão levar a uma readequação dos critérios de seleção dos alunos e de avaliação. O professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica Marcos Pinotti Barbosa faz uma avaliação sobre a postura do MEC . “Pelo histórico de metodologia adotado pelo MEC e por questões democráticas, deverá ser aplicado um corte linear. O governo afirmou que os cortes são transitórios. É o que esperamos”, ponderou.

Pinotti lembra que os cortes atingem toda a produção acadêmica, pois o programa concede bolsas para a graduação e pós-graduação. Para o professor, o Ciência sem Fronteiras é de grande relevância para universidade, apesar de algumas críticas feitas terem procedência. Entre as objeções estão a falta de acompanhamento do aluno no exterior e a não prestação de contas do aprendizado com a experiência. Segundo ele, os cortes darão oportunidade para melhorar os critérios de seleção e avaliação dos alunos. “O Brasil ganha muito com o programa. Os resultados que estão sendo feitos agora serão percebidos em 10 anos”, diz. Em sua avaliação, como contribui para melhor formação dos alunos, quando eles estiverem empregados, haverá maior produtividade da indústria brasileira.

 

 

DE MINAS PARA O MUNDO

Programa Ciência sem Fronteiras em Minas

Bolsas concedidas - 12.366

UFMG 2º lugar no ranking nacional

As cinco primeiras no estado


Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) - 3.601

Universidade Federal de Viçosa (UFV) - 1.498


Universidade Federal de Itajubá (Unifei) - 1.062


Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) - 789


Universidade Federal de Uberlândia (UFU) - 789

Bolsas por modalidade


Graduação sanduíche - 3.045


Doutorado sanduíche - 327


Doutorado exterior  - 65


Atração de jovens talentos - 13


Pós-doutorado no exterior - 122


Pesquisador visitante especial - 28


Mestrado no exterior - 1

Fonte: Data Mart do Ciência sem Fronteiras (consolida dados de bolsas do CNPq e Capes) - Dados atualizados até março de 2015

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sandro
sandro - 16 de Junho às 08:12
De 9 colegas que eu tenho, e que viajaram pelo ciencia de fronteiras, 6 deles falaram claramente que só ficaram passeando o tempo todo, e "enrolaram" o tempo de estudo la. É um programa caríssimo, que paga pra estudantes fazerem turismo no exterior. O custo é alto. Dar uma ajuda pro aluno ainda vai, mas custear toda a despesa é exagero. Sobra dinheiro pra muita diversão no exterior, e é isso que a maioria faz. Com poucas exceções.
 
Mineiro
Mineiro - 16 de Junho às 08:01
E a pátria educadora? Mais uma prova do estelionato eleitoral