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Fim do vestibular e seleção via Sisu elitizam a UFMG

Levantamento da UFMG mostra queda no número de aprovados com rendimento mensal familiar até cinco salários mínimos em 2014, primeiro ano em que a instituição adotou o Sisu. Pró-reitor diz que situação "preocupa"

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postado em 06/06/2015 06:00 / atualizado em 06/06/2015 08:17

Valquiria Lopes

Alexandre Guzanshe/EM/D.A 09/11/2014

A decisão da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) de extinguir o vestibular e promover a entrada de alunos de graduação exclusivamente por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) provocou uma elitização no acesso à instituição. Essa é uma das conclusões do primeiro balanço feito pela universidade sobre os efeitos da nova forma de selecionar estudantes, em vigor desde o ano passado. A avaliação socioeconômica dos aprovados na UFMG em 2014 indica aumento do número de estudantes com renda familiar mensal acima de cinco salários mínimos em relação à média dos três anos anteriores – consequentemente, houve queda no acesso de alunos com menor poder aquisitivo. A Pró-reitoria de Graduação avalia que os resultados são preocupantes para a instituição, uma vez que a universidade tem como um das metas funcionar como instrumento de inclusão.

Dados da UFMG mostram que, até 2013, quando a universidade ainda tinha vestibular próprio, havia equilíbrio maior no acesso entre alunos de maior e menor renda. De 2011 a 2013, por exemplo, os estudantes com renda familiar mensal maior que cinco salários mínimos representaram, em média, 51,3% dos aprovados, contra 48,6% de candidatos com renda abaixo de cinco salários. No ano passado, primeira vez em que a UFMG usou exclusivamente o Sisu, a diferença disparou em favor de alunos com maior poder aquisitivo: 57,5% a 42,3% – uma pequena parte dos universitários não informou dados sobre renda. A característica do Sisu, de permitir que alunos de todo o país disputem vagas nas instituições, é apontada como uma das razões para o resultado.

“Recebemos alunos com faixa de renda maior do que a que existia na UFMG, e isso nos preocupa”, reconheceu o pró-reitor de Graduação, Ricardo Takahashi. “Uma das metas da universidade é justamente funcionar como instrumento de inclusão social, de mobilidade de classes. Com a mudança, estamos cumprindo em menor medida esse objetivo, que vinha sendo alcançado antes”, acrescentou. A expectativa de Takahashi para reverter o movimento é a implantação total do sistema de cotas, prevista para 2016. No ano que vem, 50% das vagas da UFMG serão reservadas. Instituída em 2012, a Lei de Cotas passou a vigorar em 2013 com reserva mínima de vagas de 12,5%, percentual que passou para 25% em 2014. Este ano, na UFMG, o total destinado a cotas é de 37,5%.

“Esperamos que, quando ampliarmos a reserva de vagas para os alunos de escola pública e de baixa renda, possamos retomar os índices socioeconômicos antes registrados na UFMG”, disse o pró-reitor. A lei determina que, dos 50% das vagas reservadas, metade deve ser para estudantes de escolas públicas com renda familiar bruta igual ou inferior a um salário mínimo e meio per capita. A outra metade atende a estudantes de escolas públicas com renda familiar superior a um salário mínimo e meio. Em ambos os casos, também será levado em conta percentual mínimo correspondente ao da soma de pretos, pardos e indígenas no estado, de acordo com o último censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Troca de curso Outro movimento observado pela UFMG com a adoção do Sisu e do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi o aumento da quantidade de alunos que trocam de curso. A possibilidade de usar a nota do Enem para escolher outra área dentro da instituição ampliou a mobilidade dos estudantes dentro da UFMG e entre as federais. O impacto foi tamanho que a instituição estuda mudanças na forma pela qual os alunos escolhem os cursos.

No primeiro semestre de 2011, quando o Enem substituía a 1ª etapa das provas, apenas 0,4% dos estudantes mudaram de curso ou de instituição. O índice passou para 12,15% em 2014. Metade das trocas de cursos ocorreu dentro da própria UFMG, e a outra metade, para outras escolas federais do interior ou de outro estado. O pró-reitor de Graduação destaca efeitos positivos da adoção do Enem e do Sisu, como ampliação da diversidade cultural e troca de experiências na comunidade acadêmica, mas ressalta que os resultados do levantamento sobre o impacto da mudança na UFMG exigem adaptações por parte da instituição.

“Quando o aluno descobre que o curso não é o que ele queria, é importante que ele vá para outro que atenda as suas aspirações. Antes do Sisu, era mais complicado, porque exigia novo vestibular. Mas, na prática, isso gera vagas ociosas, o que interfere na aplicação dos recursos financeiros da universidade e gera atrasos para a formação do estudante”, afirma. Segundo o pró-reitor, o assunto já é debatido pela comunidade acadêmica e há uma proposta para alterar a escolha de cursos. Em vez de se decidir por um curso específico, o candidato escolheria um grupo de áreas. Posteriormente, em uma fase mais avançada, o estudante optaria por um curso. “A expectativa é que isso seja definido até o início de 2016, com possibilidade de implantação no ano seguinte. Mas há opção de manter o modelo atual”, informa.
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação
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Geraldo
Geraldo - 08 de Junho às 16:26
Países outras já adotam o sistema de áreas onde os períodos iniciais são comuns, podendo o acadêmico optar a posteriori pelas matérias especificas, portanto, já não é novidade e poderia ser uma mudança importante para a UFMG, que poderia por sua vez diminuir a própria evasão e abandono de cursos.
 
Bruno
Bruno - 06 de Junho às 18:02
Eu não sei em relação aos outros, mas no meu caso antes era bem mais difícil passar na UFMG, principalmente nos cursos mais clássicos como Medicina, Direito e Engenharia. Agora o acesso ficou mais equilibrado. Qualquer seleção que coloque em concorrência alunos de escola pública e de privadas, vai tender aos alunos que têm maior poder aquisitivo. Eu passei no último vestibular, desisti do curso, e com o Sisu tive a oportunidade de ir para o curso que queria, o Direito. Sisu e ProUni são o paraíso do estudante carente, mas tem de se dedicar, sem comprometimento e estudo não vai passar.
 
Zé
- 06 de Junho às 08:45
Bom que a educação fosse uma só para todos os estudantes, ricos e pobres cursando o mesmo lugar, sem discriminação. Isso melhoraria a educação.
 
Thiago
Thiago - 06 de Junho às 08:44
A UFMG sempre acolheu majoritariamente alunos de alta renda, sobretudo aos cursos de medicina; enquanto isso a grande maioria das faculdades privadas acolhem majoritariamente alunos de baixa renda, sobretudo aqueles que trabalham o dia todo para bancar a aula de noite...
 
Paulo
Paulo - 06 de Junho às 08:39
A reportagem falha na hora que não diz se o percentual de estudantes com renda inferior a 3 salários mínimos diminuiu também no número de candidatos, isso me parece mais uma mudança dos candidatos do que propriamente uma exclusão dos mais pobres. De qualquer modo é importante arrumar um jeito de incluir todos na universidade.