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Federais mineiras prometem levantar dados sobre cotistas

Com a falta de estatísticas sobre performance dos cotistas e dois anos depois da criação da Lei das Cotas, federais querem levantar informações

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postado em 19/01/2015 06:00 / atualizado em 19/01/2015 07:08

Junia Oliveira

Jair Amaral/EM/D.A Press

 

Pelo menos cinco instituições estão fazendo ou prometem fazer neste início de ano o levantamento de desempenho dos cotistas: federais de Viçosa (UFV), na Zona da Mata; de Alfenas (Unifal), no Sul de Minas; de Ouro Preto (Ufop), na Região Central; do Triângulo Mineiro (UFTM); e de Uberlândia (UFU), ambas no Triângulo. A maioria aposta que não haverá diferença de desempenho. Presidente da comissão criada em setembro para acompanhar os cotistas, o coordenador do núcleo de estudos afro-brasileiros da UFU, Guimes Rodrigues Filho, afirma que o trabalho vai primeiro identificar a comunidade de cotistas para depois acompanhá-los.

A prioridade é verificar se realmente os beneficiados são os negros e pardos e detectar possíveis casos de fraude, para depois analisar o desempenho acadêmico. Posteriormente, a ideia é identificar como os estudantes de ação afirmativa estão colocados no mercado de trabalho. Numa avaliação inicial, o professor vê avanços sobretudo no ingresso desses alunos. Na medicina, o curso mais concorrido, quem entrou pelas cotas raciais ocupa 25% das vagas, enquanto na ampla concorrência, os negros ou pardos representam apenas 5% dos alunos. “O número mostra avanço no ingresso e que eles podem ter acesso real à universidade. Precisamos nos debruçar sobre os dados para responder à questão do desempenho. Com certeza, teremos uma boa surpresa.”
 
Pró-reitor de Ensino da UFTM, Wagner Roberto Batista participou de encontro nacional de pró-reitores no fim do ano passado, onde a questão foi discutida. “Muitos falaram que os cotistas têm apresentado rendimento superior à média da turma. Eles têm que segurar a vaga, correr atrás”, diz. Segundo ele, não há diferenciação em sala de aula: “Dou aula para 120 alunos das engenharias. Nem sei dizer quem são cotistas
”.
Wille Muriel, diretor-executivo da Carta Consulta, especializada em consultoria educacional, considera grave não haver levantamentos depois de quatro semestres da implantação da Leis de Cotas. Para ele, as universidades deveriam seguir os princípios do processo administrativo: planejar, executar, supervisionar a política e avaliar resultados. “O problema na política pública ocorre quando não há controle sobre ela e não se chega ao seu fim. Com avaliação é que se percebe se foi eficaz ou não e se poderia ser mais eficiente. É temerário que essas instituições não tenham esse controle.”

Para o especialista em educação, os impactos poderão ser vistos diretamente nos índices de evasão, que ele acredita serem altos. “É inconcebível pensar que as universidades não tenham departamentos ou núcleos para cuidar dessas estatísticas, sobretudo essas relacionadas a ações do poder público federal. À medida que não controla os resultados, não gera informações e conhecimento para a gestão da própria universidade.”

Na maior universidade do estado, a Federal de Minas Gerais (UFMG), os resultados da experiência com o bônus sociorracial, implantado entre 2009 e 2012, são aposta para acreditar que o desempenho dos cotistas também será satisfatório ou mesmo de excelência. Por meio dessa política, os inscritos que comprovaram uma trajetória de sete anos na escola pública (últimas séries do ensino fundamental e todo o ensino médio) tiveram direito a um bônus de 10% sobre os pontos alcançados. Os alunos que além de serem provenientes de escola pública se declararam pretos ou pardos tiveram um bônus adicional de 5% (15% no total).

SEMELHANÇA Uma das conclusões de estudo feito na universidade é de que os contemplados pelo bônus tiveram desempenho semelhante aos dos demais alunos. A avaliação do rendimento semestral global mostra que, no primeiro semestre, o dos não bonistas é um pouco superior aos demais. Para estudantes em seu segundo e quarto semestres, ocorre o contrário. “Consideramos várias hipóteses. Isso ocorre porque o pessoal entra na universidade com pique maior e depois se acomoda, ou ainda porque as matérias ficam mais difíceis e as notas diminuem. Mas, de forma geral, bonistas de 15% se empenham mais ao entrar. As notas caem depois, mas não tanto como as de não bonistas, e permanecem maiores que desse grupo”, afirma um dos autores do estudo, Ernesto Amaral, ex-professor do Departamento de Ciência Política da UFMG e atual pesquisador associado da Rand Corporation, na Califórnia (EUA).

Na comparação por cursos, a análise identifica que bonistas tiveram desempenho inferior naqueles curos mais concorridos das áreas de biológicas e agrárias, nas quais havia menos beneficiados. “A principal desvantagem dos bonistas parece ser a de que eles são sub-representados em cursos mais concorridos”, diz Amaral.

Dedicação para vencer barreiras


Para Ernesto Amaral, ex-professor do Departamento de Ciência Política da UFMG e atual pesquisador associado da Rand Corporation, na Califórnia (EUA), a expressiva quantidade de bonistas na universidade é indicador de que a situação não mudará quando os cotistas representarem 50% dos estudantes – em 2010, quase um terço dos alunos (35%) aprovados eram bonistas. “Pensando em hipóteses, os dados sugerem que os cotistas terão desempenho tão bom ou melhor que os não contempladas pela lei.

Exemplo desse bom desempenho é o da estudante Bruna Pereira Fernandes, de 20 anos, do 3º período de engenharia civil na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ela entrou pela modalidade de cotas que leva em conta a renda e a origem escolar. Ex-aluna do pré-vestibular Chromos, foi aprovada em primeiro lugar no curso de engenharia elétrica. No caso do curso que escolheu, se não fossem as cotas não conseguiria a vaga. Mas o benefício nem de longe fez diferença em sala de aula, onde todos são tratados igualmente entre colegas e professores. “Ninguém sabe quem entrou ou não por cotas.” Apesar disso, a jovem diz que precisou correr atrás para driblar a defasagem de aprendizado de matérias como matemática e física. “Isso contribuiu para minha dificuldade inicial, mas nada que não me deixe estar no mesmo nível dos outros. Com dedicação, consegue-se avançar.”

DEFASAGEM Bruna, que sempre foi uma das melhores alunas de suas turmas, agora fica com médias B e C, mas nunca repetiu matéria. Ela garante que essas são as notas da maioria dos colegas, que se deparam nos primeiros períodos com novidades, como cálculo e fundamentos de mecânica, consideradas por ela as mais complicadas. “Acredito que o que diferencia o cotista do não cotista é o fato de quem se beneficiou da ação afirmativa ter que se dedicar. Há um pouco de desafagem, não sabemos uma ou outra matéria que o pessoal da ampla concorrência aprendeu na escola particular. Mas, se dedicando, não há nada que impeça, pois os professores ensinam para todo mundo. E tem monitoria e muita ajuda para quem precisa.” (JO)

Inscrições abertas no Sisu


Serão abertas hoje as inscrições para o Sistema de Seleção Unificada (Sisu). O processo é todo feito pela internet (sisu.mec.gov.br) e os candidatos têm até as 23h59 de quinta-feira para optar por uma das 205.514 vagas, em 5.631 cursos de 128 instituições públicas de educação superior. Em Minas, são 18 estabelecimentos, dos quais 11 universidades federais, com 24,9 mil vagas. Pelo menos 37,5% dessas cadeiras são destinadas a cotistas. Este ano, o Sisu terá apenas uma chamada – nas edições anteriores, foram duas. Os resultados serão divulgados no dia 26. Nesse mesmo dia, quem não for aprovado poderá se inscrever nas listas de espera, abertas pelas próprias instituições de ensino. Cada estudante pode fazer até duas opções de curso, mas, na lista, a universidade leva em conta apenas a primeira delas.

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