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Projeto de mediação de conflitos quebra barreiras e preconceitos em escolas

A ideia melhora convivência entre alunos de escola do ensino fundamental

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postado em 16/06/2014 00:12 / atualizado em 16/06/2014 07:35

Junia Oliveira /

Beto Magalhaes/EM/D.A Press

Um aluno põe o pé e o outro tropeça. O tombo é o estopim para a briga. Professores tentam apartar e usam o diálogo. Na conversa sincera, o menino agredido faz uma revelação: o que mais doeu não foi a queda, mas o fato de ela ter sido causada pelo melhor amigo dele. Quem deu início a tudo se surpreende ainda mais e, quase incrédulo, pede perdão: “Poxa, eu sou seu melhor amigo? Eu não sabia. Bem, na verdade, pus o pé de propósito. Desculpe-me mesmo”. Palavras ditas, amizade selada. O caso é real e ocorreu entre estudantes do 5º ano do ensino fundamental do Centro Pedagógico da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na escola, a meninada tem experimentado um jeito diferente de resolver brigas entre colegas, casos de bullying e desacertos por meio da mediação de conflitos, que saiu do Judiciário para alcançar também a sala de aula.

Rita Andrea Guimarães de Carvalho Pereira é psicanalista. Flávia Resende é advogada e professora de mediação. Alexandre Pimenta é documentarista e jornalista. Beatriz Goulart é psicóloga. Juntos, os quatro coordenadores do projeto quebraram barreiras, preconceitos e a desconfiança de alunos e professores para inovar na maneira de lidar com conflitos no ambiente escolar. A iniciativa surgiu a partir do mestrado que Rita faz em Buenos Aires. Na capital da Argentina, a mediação é rotina nas escolas públicas. “Estamos acostumados com esse recurso, mas sendo usado entre adultos ou entre os adultos e os menores. A ideia é deixar o pequeno com o pequeno”, diz.

No colégio, as conversas são conduzidas da mesma forma que no Judiciário e têm a função de resolver problemas diversos, de brigas entre colegas até mudanças no cardápio das refeições. O projeto começou com um grupo de 20 alunos e completa um ano este mês. É uma turminha bem agitada, mas que hoje é exemplo para a escola inteira. Afinal, ninguém melhor que os causadores de problemas para apontar a melhor maneira de solucioná-los.

O primeiro passo foi fazer os alunos entenderem que eles tinham algo positivo e precisavam pôr isso à mostra. Três semanas depois, o grupo já estava gastando o horário de almoço – eles estudam em tempo integral – com a limpeza da sala para receber a equipe de coordenadores da mediação. A escola proibiu a tarefa, por isso, o novo desafio foi entender os motivos daquele não. “Decidimos trabalhar limites, leis e combinados. Foi a virada de conceito da norma para o entendimento”, diz Rita.

Como bons meninos sapecas, a comida era reclamação geral do grupo, que queria, como toda criança dessa idade, substituir as refeições saudáveis pelas guloseimas. Eles tiveram a iniciativa de chamar os colegas e fazer uma pesquisa para comprovar que o desagrado era geral, mas se surpreenderam ao constatar que nem todos pensavam do mesmo modo. Mas não desistiram e usaram a preciosa técnica da negociação para mudar os rumos daquela rotina.

A nutricionista Alcione Aguiar Souza foi chamada à mesa, ouviu as demandas e apresentou a lei de controle do colesterol para explicar a escolha do menu. O diálogo rendeu frutos e novo cardápio foi construído em conjunto. Depois disso, sempre com dieta balanceada, a garotada já se deliciou com carne de hambúrguer, batata frita e bolo de chocolate. Mas, como toda boa mediação, para conseguir algo é preciso ceder de outro lado e, em se tratando de alimentação, o combinado é não desperdiçar.

PRÁTICA

Em várias ocasiões, a mediação é sugerida de pronto pelos próprios alunos, que incorporaram a prática ao cotidiano. Durante a visita do Estado de Minas, as amigas Izabelle Félix Utsch, Alice Cota Marques e Gabriella de Souza Silva, todas de 10 anos, protagonizaram uma cena típica. Izabelle e Alice discutiam, quando outro colega entrou no caso, num disse que disse danado. Coube a Gabriella mediar e explicar, individualmente, o que cada um falou para resolver o mal-entendido e deixar tudo às claras. “Eu saí de perto para não dar mais motivo de briga”, contou Alice. “Foi a melhor coisa que você fez para não arrumar mais confusão”, acrescentou. No fim, todos se entenderam e o que começou com briga terminou em brincadeira em uma partida de peteca.

A menina Laura Pedroso Silva, também de 10, já aplicou o método em casa, para apartar uma discussão entre o pai e a mãe. Ele guardou a lâmina de barbear em local inapropriado e a garota, desavisada, cortou a mão. A mãe não gostou do resultado. “Eu disse a ela: ‘Não foi culpa do papai. Humanus passiva errus (do latim, os homens são passivos de erro’”, contou, numa naturalidade de causar inveja.

Uma bola furada foi motivo de briga séria no passado entre Alice e Iami Nair Rodrigues Avelino, de 10. Hoje, elas são grandes amigas. Iami aprendeu direitinho o sentido da nova metodologia e ensina o que é necessário para ser um mediador de primeira: “Se souber que as pessoas são diferentes de você e se respeitá-las, vai poder mediar. Com preconceito, não se consegue resolver problemas”.

Cooperação
na sala de aula


Toda segunda-feira, os alunos selecionados para a mediação têm formação durante uma hora e meia. Em cada fim de aula, fazem um jornal e um diário para deixar marcado por onde se deve recomeçar na semana seguinte. Se o embate é pela liberação do uso de aparelhos eletrônicos, que eles sejam usados então para melhorar a aula. Um fotografa, outro filma e, assim, dentro do processo de aprendizagem, conquistaram o direito de usar seus equipamentos.

A advogada e professora de mediação Flávia Resende alerta: a técnica é a abertura de um espaço de responsabilidades para alunos e professores. “Não significa que tudo pode ou que tudo está liberado. Queremos construir normas que façam sentido e que eles compreendam. A mediação é pedagógica em todos os sentidos.”

Mediação é sinônimo de cooperação. Na sala inaugurada na semana passada, quadros pintados por um dos meninos, o artista da turma, dá vida ao ambiente com mesa e cadeiras. Caio Augusto Gomes, de 10, sente os resultados: “Consigo resolver os conflitos conversando. Ainda perco o controle, mas tenho mais paciência”. A garotada quer mesmo é deixar o lugar bonito. Alice vai levar almofadas. Kyvia Alvarenga Barbosa, de 11, se comprometeu a doar o tapete. E Laura levará as flores.
O documentarista Alexandre Pimenta afirma que a ideia é dar a professores e alunos instrumentos para trabalhar uma questão que está na ordem do dia: “Com tanta informação, os pais trabalhando o dia todo fora, o conflito é premente nas escolas e vai de processos de alunos contra professores até formas graves de violência”.

A psicóloga do Núcleo de Atendimento e Integração Pedagógica (NAE), do Centro Pedagógico, concorda: “A escola assume cada vez mais o papel de transmitir valores, o que é certo ou errado. Antes, a mulher estava em casa e tinha condição de ficar atenta a isso. Agora, pela culpa da ausência, os pais tendem a ceder mais e não impor limites”.

Professora de português do 1º ao 3º ano da escola, Flávia Helena Pontes Carneiro se encantou pelo projeto, embora seus alunos não participem da mediação. Ela faz oficina de formação para aplicar a metodologia em sala de aula. “Isso deve fazer parte da cultura do professor, que tem de fazer mediação todos os dias, porque diariamente há conflitos. Faço intuitivamente, mas quero fazer com técnica.”

O trabalho com essa turma terminará em setembro para continuar com outros professores e crianças. Para Flávia Resende, numa sociedade em crise de valores é escolha de cada um decidir pelo fim do mundo ou abraçar a oportunidade de fazê-lo melhor. “Entre os extremos de autoritarismo e falta de limites há um sem-número de possibilidades que podem ser construídas por meio do diálogo, a maior ferramenta política que temos”.

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