
O bate-boca descrito acima, entre o diretor de uma faculdade particular de Além Paraíba, na Zona da Mata, e um professor do curso de engenharia civil ocorreu bem diante da equipe do Estado de Minas. O motivo: problemas na infraestrutura e organização acadêmica da instituição. Mas a cena não terminou por aí.
Para apimentar a discussão, estudantes ameaçavam, pelos corredores, cobrar a devolução do dinheiro das mensalidades. Não se trata de episódio isolado na educação superior brasileira. O crescimento vertiginoso na oferta de cursos e vagas – de mais de 400% em 15 anos no Brasil e em Minas – tem ocorrido aos trancos e barrancos, e não vem acompanhado de melhora na qualidade do ensino.
Nada menos que 680 mil universitários estão matriculados em cursos mal-avaliados pelo Ministério da Educação (MEC) em todo o país. Em Minas, 12% das graduações inspecionadas no último Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), de 2009, tiraram nota vermelha na prova, todos elas da iniciativa privada. Para conhecer de perto essa realidade, o EM percorreu seis cidades do interior do estado, visitou 10 instituições e se deparou com laboratórios em condições precárias, bibliotecas desatualizadas, salas de informática ultrapassadas, dezenas de reclamações de alunos sobre a falta de professores e problemas na qualificação do corpo docente, além de denúncias de irregularidades acadêmicas, em um quadro que sugere situação até pior que a avaliada pelo MEC. Descobriu também cenários que podem ser verdadeiras pegadinhas, como superestruturas físicas, mas com ensino condenado por entidades de classe, a exemplo do Conselho Regional de Medicina (CRM) e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
O professor alega que pediu para ser dispensado devido ao atraso nos salários e à falta de estrutura. O diretor apresenta outra versão, mas ela compromete ainda mais a imagem da faculdade. Segundo Antônio Esaú, Pedro Roberto não tem sequer diploma de curso superior e seria tecnólogo em construção civil, não atendendo critérios para ocupar o posto para o qual foi admitido. “Ele foi convidado a ocupar o cargo em julho, por indicação de um ex-professor. Mas agora constatamos que ele não tem a titulação de mestre exigida para ser coordenador do curso, por isso ele foi demitido”, diz o diretor. O professor contesta e garante ter concluído a pós-graduação.
A turma do 9º período de engenharia, que presenciou o fogo cruzado entre o docente e a direção da instituição, questiona o ensino. “Pagamos caro para fazer o curso, mas não temos uma formação de qualidade. Assinamos embaixo tudo o que o professor Pedro denuncia. E, para piorar, não há diálogo com a reitoria. Tenho medo de me formar e ter um diploma só para enfeitar a parede, pois não sei se estou preparado para o mercado de trabalho”, lamenta um estudante, que pede para não ser identificado.
"Boom" afetou qualidade de instituições

“Na década de 1990, houve maior valorização do diploma para a ocupação de postos de trabalho e o estado não conseguiu dar resposta a essa demanda pela via pública. Por isso, a LDB flexibilizou mecanismos de criação de instituições de ensino superior na rede privada. A legislação é minuciosa e rígida para determinar processos de avaliação, mas o governo não tem recursos humanos e administrativos para dar conta da lei, por isso não há consequência legal nos processos. Diante disso, era preciso ser mais rígido na abertura de cursos”, afirma Jamil Cury.
