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Estado de Minas

Inspeção revela problemas em universidades mal avaliadas pelo MEC

Laboratórios precários, bibliotecas superadas, professores e alunos insatisfeitos são só alguns dos problemas das faculdades que perderam média. Estado de Minas revela por que 12% das graduações de Minas não resistiram à inspeção federal


postado em 02/10/2011 07:31 / atualizado em 02/10/2011 08:17

 

Professores com salários atrasados e alunos insatisfeitos foram alguns dos problemas encontrados pelos inspetores do MEC(foto: Renato Weil/EM/D.A Press)
Professores com salários atrasados e alunos insatisfeitos foram alguns dos problemas encontrados pelos inspetores do MEC (foto: Renato Weil/EM/D.A Press)

O bate-boca descrito acima, entre o diretor de uma faculdade particular de Além Paraíba, na Zona da Mata, e um professor do curso de engenharia civil ocorreu bem diante da equipe do Estado de Minas. O motivo: problemas na infraestrutura e organização acadêmica da instituição. Mas a cena não terminou por aí.

Para apimentar a discussão, estudantes ameaçavam, pelos corredores, cobrar a devolução do dinheiro das mensalidades. Não se trata de episódio isolado na educação superior brasileira. O crescimento vertiginoso na oferta de cursos e vagas – de mais de 400% em 15 anos no Brasil e em Minas – tem ocorrido aos trancos e barrancos, e não vem acompanhado de melhora na qualidade do ensino.

Nada menos que 680 mil universitários estão matriculados em cursos mal-avaliados pelo Ministério da Educação (MEC) em todo o país. Em Minas, 12% das graduações inspecionadas no último Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), de 2009, tiraram nota vermelha na prova, todos elas da iniciativa privada. Para conhecer de perto essa realidade, o EM percorreu seis cidades do interior do estado, visitou 10 instituições e se deparou com laboratórios em condições precárias, bibliotecas desatualizadas, salas de informática ultrapassadas, dezenas de reclamações de alunos sobre a falta de professores e problemas na qualificação do corpo docente, além de denúncias de irregularidades acadêmicas, em um quadro que sugere situação até pior que a avaliada pelo MEC. Descobriu também cenários que podem ser verdadeiras pegadinhas, como superestruturas físicas, mas com ensino condenado por entidades de classe, a exemplo do Conselho Regional de Medicina (CRM) e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

A pacata cidade de Além Paraíba, com 35 mil habitantes e distante 380 quilômetros de Belo Horizonte, reúne três instituições que retratam a precariedade do ensino superior privado, todas mantidas pela Fundação Educacional Além Paraíba (Feap) . Na Faculdade de Ciências Gerenciais Alves Fortes (Face-Alfor), salta aos olhos a falta de estrutura do único laboratório disponível para os alunos de engenharia civil, que pagam mensalidade de R$ 570,86. Na sala reservada a estudos práticos das disciplinas de elétrica e topografia, apenas uma placa com poucas lâmpadas e algumas caixas de teodolitos (instrumento para medição de terrenos e ângulos) estão espalhadas pelo espaço, ocupado por restos de materiais de construção, escadas e até uma bicicleta. “Trago meus próprios equipamentos, pois não há nada no laboratório. Como formar um aluno sem ensino prático? Que engenheiro vamos pôr no mercado?”, questiona Pedro Roberto da Silva Neto, professor e coordenador do curso até o último dia 22, quando foi demitido pelo diretor da faculdade, Antônio Esaú de Lacerda, no diálogo que abre esta reportagem.

O professor alega que pediu para ser dispensado devido ao atraso nos salários e à falta de estrutura. O diretor apresenta outra versão, mas ela compromete ainda mais a imagem da faculdade. Segundo Antônio Esaú, Pedro Roberto não tem sequer diploma de curso superior e seria tecnólogo em construção civil, não atendendo critérios para ocupar o posto para o qual foi admitido. “Ele foi convidado a ocupar o cargo em julho, por indicação de um ex-professor. Mas agora constatamos que ele não tem a titulação de mestre exigida para ser coordenador do curso, por isso ele foi demitido”, diz o diretor. O professor contesta e garante ter concluído a pós-graduação.

A turma do 9º período de engenharia, que presenciou o fogo cruzado entre o docente e a direção da instituição, questiona o ensino. “Pagamos caro para fazer o curso, mas não temos uma formação de qualidade. Assinamos embaixo tudo o que o professor Pedro denuncia. E, para piorar, não há diálogo com a reitoria. Tenho medo de me formar e ter um diploma só para enfeitar a parede, pois não sei se estou preparado para o mercado de trabalho”, lamenta um estudante, que pede para não ser identificado.

 

"Boom" afetou qualidade de instituições

Na biblioteca, exemplares desatualizados de livros(foto: Renato Weil/EM/D.A Press)
Na biblioteca, exemplares desatualizados de livros (foto: Renato Weil/EM/D.A Press)
A facilidade de abertura de faculdades a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996, é criticada por especialistas como o doutor em ensino Carlos Roberto Jamil Cury, professor-adjunto do Programa de Pós-Graduação em Educação da PUC Minas. Segundo o MEC, o número de vagas no ensino superior saltou de 534 mil em 1992 para 2,8 milhões em 2007 – aumento de 427%. Em Minas, os cursos superiores tiveram um "boom" de 445%, passando de 524 para 2.856 no mesmo período.

“Na década de 1990, houve maior valorização do diploma para a ocupação de postos de trabalho e o estado não conseguiu dar resposta a essa demanda pela via pública. Por isso, a LDB flexibilizou mecanismos de criação de instituições de ensino superior na rede privada. A legislação é minuciosa e rígida para determinar processos de avaliação, mas o governo não tem recursos humanos e administrativos para dar conta da lei, por isso não há consequência legal nos processos. Diante disso, era preciso ser mais rígido na abertura de cursos”, afirma Jamil Cury.


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