
Alguns especialistas garantem que o livro não ensina o português de forma errada e que mostra para os alunos as distinções entre a norma culta da língua escrita e o modo coloquial da falada. Do outro lado, acadêmicos condenam a distinção e apontam com preocupação o distanciamento, cada vez maior, entre as duas formas de expressão. No entanto, a posição é quase unânime quando o assunto é discutido pelos próprios estudantes: eles preferem ter acesso à norma culta em sala de aula. “Sei que falamos de uma forma bem diferente da maneira que escrevemos, mas quando venho para a aula gostaria de conhecer somente a forma correta do português”, afirma Marcos Ferreira Ribeiro, de 34 anos, fazendo coro com boa parte dos colegas que participaram de debate sobre o tema.
A coleção Viver, aprender foi distribuída para mais de 480 mil alunos em todo o país pelo Programa Nacional do Livro Didático para a Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em Belo Horizonte são 108 escolas municipais que recebem as turmas do EJA, com cerca de 21 mil alunos matriculados em 2011, mas nem todas trabalham com a obra. Para o aluno da 9ª série do Ensino Fundamental Roney Pereira Silva, de 21, a polêmica em torno do livro de português foi importante para trazer à tona detalhes envolvendo a educação pública do país que precisam ser discutidos. “É um tema que precisa sempre ser reavaliado. Temos que escrever corretamente nas provas, vestibulares e concursos. Mesmo com as explicações de que o método é aplicado para estimular as formas populares de falar, acabamos recebendo a informação de que uma coisa errada é aceitável, quando deveríamos ser corrigidos”, considera.
Método
Uma das autoras do livro, a professora Heloísa Ramos, garante que a abordagem não prejudica o aprendizado da forma culta pelos estudantes, mas, por ser uma obra complexa, ela exige dos alunos e dos professores um trabalho de contextualização para que a mensagem sobre as diferentes maneiras de expressão do idioma sejam compreendidas. “Este é um livro didático diferente, criado dentro de um plano de ensino. A polêmica que se criou na parte que trata das variações linguísticas desconsidera o diálogo com o aluno ao longo de toda a obra, que estabelece uma reflexão para chegar às diferenças entre as duas normas”, defende.
A posição da educadora encontra eco em parte dos alunos. Durante as discussões sobre o tema em uma das turmas da EJA, na Escola Municipal Aurélio Pires, alguns estudantes defenderam a valorização das formas populares do português. “Não vejo problema em discutirmos todas as formas de falar nas escolas, por meio dos livros. Com erros de português, sotaque ou qualquer tipo de diferença, acho importante termos acesso aos tipos diferentes. São as maneiras que usamos no dia a dia e não há por que ficarmos presos aos detalhes da norma culta”, afirma José Geraldo de Paula, de 48.
