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Estado de Minas

Produtores rurais trocam montarias por motocicletas

Apologia ao jumento (O jumento é nosso irmão) O jumento sempre foi / O maior desenvolvimentista Do sertão... / Ajudou o homem na vida diária Ajudou o homem... / Ajudou o Brasil a se desenvolver


postado em 14/12/2012 07:23 / atualizado em 14/12/2012 10:27

(foto: Alexandre Guzanshe)
(foto: Alexandre Guzanshe)
Ouricuri (PE), Flores (PE) e Juazeiro do Norte – Juscilene Alves, de 37 anos, tinha um jumento, “que atendia pelo nome de Jumento mesmo e morreu de velho”. Era um animal obediente e trabalhador. Ajudava a dona tanto a buscar água em açudes, na área rural de Ouricuri, quanto nas tarefas voltadas a pequena plantação da família. A morte do bicho causou tristeza na agricultora e, embora o animal seja importante para o dia a dia de quem mora no semiárido do Brasil, ela preferiu financiar uma motocicleta a comprar outro jumento. “Agora vou buscar água é sobre a moto”, disse Juscilene. Nos quatro cantos do país, devido ao aumento do poder aquisitivo do brasileiro, muitos produtores rurais trocam as montarias – cavalos, jegues, burros – pelo veículo de duas rodas.

A queda de juro nos financiamentos de longo prazo e o aumento da concorrência no setor de motocicletas também ajudaram a explodir a venda desse tipo de veículo no Brasil. Em Minas Gerais, por exemplo, balanço do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) revelou que, ao fim do primeiro trimestre de 2012, a frota de motos em 256 cidades (30% das 853 localidades) era maior do que a de automóveis. Há 10 anos, esse total era de 95 municípios (11% do total de 853). Em Belo Horizonte, esse tipo de frota saltou 207% em 10 anos, de 61.079 unidades, em 2002, para 187.886 em outubro passado.

Já o total de carros na capital mineira cresceu num ritmo bem menor (91%) no mesmo período, de 548 mil automóveis para 1 milhão. O crescimento expressivo na venda de motos, porém, ocorreu com muito mais fôlego no Nordeste brasileiro. A ascensão social que a indústria presencia naquela região, desde os anos 2000, transformou a área numa espécie de oásis para as montadoras de veículos de duas rodas. A participação nordestina nos emplacamentos no Brasil saiu de 20,3% do total em 2005 para 34,2% em 2010, melhor posição nacional. Ultrapassou, inclusive, a locomotiva da economia brasileira, o Sudeste, que responde por 34,1% dos registros de motocicletas.

Os dados despertaram a atenção de montadoras, que planejam investir fortuna no Nordeste. A chinesa Shaanxi Automobill Group (SAG) e a Man, detentora da marca Volkswagen Caminhões e Ônibus, acertaram com o governo pernambucano, em setembro, a construção de uma fábrica em Caruaru para produzir caminhões da marca Sagman. Bahia e Paraíba também apostam na disputa pelos projetos do grupo SHC, que representa a chinesa Jac Motors, e Caoa, representante da Hyndai no Brasil.

“A desconcentração da indústria automotiva brasileira em direção ao Nordeste acompanha o caminho da desconcentração de renda no Brasil, afirma Cledorvino Belini, presidente da Fiat/Chrysler para a América Latina e da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). “Regiões de desenvolvimento tardio, como o Nordeste, representam hoje um enorme potencial de crescimento, uma vez que mais e mais habitantes dessas áreas se inserem no mercado consumidor, gerando demanda e crescimento econômico. Muitas empresas perceberam esta tendência e enxergam aí uma oportunidade de crescimento”.

Apesar do aumento da frota de duas rodas, o jumento ainda é o grande desenvolvimentista do sertão, como cantou Luiz Gonzaga. Em muitas cidades do sertão, o animal ajuda a movimentar a economia - seja transportando mandacarus usados como ração do gado, seja auxiliando o dono no transporte de material reciclado recolhido das ruas. A família de José de Lima Oliveira, de 42, ganha a vida na reciclagem. O jumento dele se chama Rodrigo, tem oito anos e foi comprado por R$ 100. “É um animal bom. Não o vendo por nada”, elogia o homem enquanto recolhe pelas ruas de Juazeiro do Norte, na companhia da esposa, Sandra Moura, de 39, e do filho, Leandro, de 13, materiais que serão reciclados.

Seu Pedro Luiz dos Anjos, de 78, também conta com a ajuda de jumentos para sobreviver no sertão. Morador da área rural de Flores, ele tem dois animais. “Uso eles para carregar água (buscada no açude) e ração para o gado”, conta Pedro, que já teve uma moto, mas não se adaptou ao veículo. Vendeu a motocicleta, no ano passado, e não se arrependeu.

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