Há quem atravesse o Atlântico em busca de sol. Outros chegam ao Ceará atrás do vento. Em Jericoacoara e na Praia do Preá, essa combinação de natureza, mar e condições favoráveis para esportes como kitesurf, wingfoil e windsurf tem atraído cada vez mais visitantes estrangeiros — especialmente franceses.
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A presença do viajante europeu acompanha uma tendência maior do turismo internacional. Em 2025, a Europa concentrou cerca de US$ 835 bilhões em gastos de visitantes internacionais, o maior volume entre as regiões analisadas em levantamento divulgado pelo Visual Capitalist.
No litoral cearense, esse movimento ganha uma característica particular. Nos empreendimentos Vila Kalango, em Jericoacoara, e Rancho do Peixe, no Preá, os estrangeiros representaram cerca de 45% dos hóspedes em 2025. Entre esse público internacional, os franceses responderam por quase 30%.
A explicação começa pelo vento. Conhecida mundialmente pelas condições favoráveis para esportes de vela, a região se tornou ponto de encontro de praticantes de kitesurf e de outras modalidades que dependem das condições naturais.
Mas, para muitos visitantes, a viagem não termina na prancha. Para Paolo Piatti, sócio do Grupo e*, esse conjunto ajuda a diferenciar Preá e Jericoacoara no mercado europeu: “O francês chega muito motivado pelo kite e pelas condições de vento que encontra aqui, mas percebemos que existe também uma identificação forte com a proposta das pousadas. É um público que valoriza natureza, preservação e empreendimentos que procuram reduzir seu impacto. Para ele, sustentabilidade faz parte da experiência de viagem e não fica separada da escolha da hospedagem”, afirma.
É justamente essa combinação que ajuda a explicar a permanência prolongada de alguns estrangeiros. Há hóspedes que ficam até 20 dias, dividindo o tempo entre o esporte, a praia, a gastronomia e experiências pela região.
Para o destino, uma estadia mais longa também significa uma cadeia turística mais movimentada. O dinheiro gasto pelo visitante não fica restrito ao hotel: chega a restaurantes, escolas e instrutores de esportes, transportadores, comércio, passeios e outros serviços locais.
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Quando preservar também é uma estratégia de turismo
Em lugares como Jericoacoara e Preá, natureza não é apenas cenário. É parte essencial do produto turístico.
No Rancho do Peixe, as construções ocupam apenas 8% de uma área superior a 60 mil metros quadrados, mantendo grande parte do terreno preservada. Cerca de 90% dos mais de 100 postos de trabalho são ocupados por moradores da região.
Em Jericoacoara, a Vila Kalango incorporou a própria paisagem ao projeto. Os 59 coqueiros que já existiam no terreno foram preservados e permanecem integrados à pousada.
A preocupação com os impactos ambientais e sociais também ganhou reconhecimento internacional. Vila Kalango e Rancho do Peixe conquistaram a Certificação B Corp, concedida pelo B Lab após uma avaliação que considera aspectos ambientais, sociais, de governança, relação com trabalhadores, comunidade e clientes.
A Vila Kalango alcançou 93,7 pontos e o Rancho do Peixe, 97. As duas são as únicas pousadas do Ceará certificadas como B Corp e fazem parte de um grupo ainda restrito da hotelaria brasileira com o reconhecimento.
“Receber cada vez mais visitantes estrangeiros é importante para a economia da região, mas queremos que esse crescimento aconteça preservando justamente aquilo que faz essas pessoas atravessarem o oceano para chegar até aqui. A Certificação B Corp reconhece uma forma de gestão em que resultado econômico, impacto social e cuidado ambiental precisam caminhar juntos”, afirma Silmara
O Ceará que conquista pelo vento
A temporada de vento no Preá também atrai atletas e referências internacionais do esporte. É o caso de Mitu Monteiro, cabo-verdiano, campeão mundial de kitesurfe
O turista europeu encontra em Jericoacoara e Preá uma combinação difícil de reproduzir: vento constante, temperaturas elevadas, quilômetros de praia e uma paisagem em que dunas, mar e vegetação fazem parte da experiência.
Para os franceses, o kitesurf pode ser a porta de entrada. A natureza e o estilo de vida encontrado no litoral cearense ajudam a prolongar a viagem.
Esse perfil de visitante também interessa à economia local. Quanto mais tempo permanece e mais experiências vivencia, maior tende a ser a distribuição dos gastos por diferentes setores do destino.
No fim, o vento que movimenta as velas também ajuda a movimentar uma cadeia econômica inteira.
Em Jericoacoara e Preá, natureza preservada, esportes de vento e uma hotelaria preocupada com sustentabilidade formam uma combinação que vem conquistando os franceses — e colocando o litoral cearense cada vez mais no radar do turismo europeu.
Voos BH-Jericoacoara
Mitu Monteiro elogia a Pousada Rancho do Peixe: "lá eu consigo unir esporte, descanso e tempo com a família"
Em agosto de 2026, a Azul mantém nove voos mensais entre o Aeroporto Internacional de Belo Horizonte, em Confins, e o Aeroporto Regional de Jericoacoara, em Cruz. As operações acontecem às quartas-feiras e aos sábados, com duração aproximada de 2h50 no trecho sem escala.
A combinação permite sair de Belo Horizonte na quarta-feira e retornar no sábado — ou embarcar no sábado e voltar na quarta. Para os praticantes de kitesurfe, a conexão direta cria uma nova lógica de viagem: menos deslocamento e mais tempo na água. São três ou quatro noites organizadas em torno da previsão do vento.
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O preço das passagens, sujeito a oscilações conforme a antecedência da compra, ainda exige planejamento. Mas a redução do tempo de viagem muda a relação com o destino. O Ceará deixa de ser apenas uma viagem de férias e passa a caber em uma pausa curta na agenda.
