Imagine-se caminhando por trilhas que sobem e descem suavemente no meio de uma grande floresta, com infindáveis espécies da Mata Atlântica e do Cerrado. O cheiro da terra úmida se mistura ao aroma doce de flores e ao perfume amadeirado das árvores. O vento traz o farfalhar das folhas e, de repente, o silêncio é cortado pelo canto de um pássaro ou pelo murmúrio distante de água. Sob os pés, o chão muda de textura: grama macia, pedras lisas, madeira de passarelas.
No meio desse organismo vivo de 140 hectares, a arte contemporânea não está isolada em salas brancas. Ela nasce da paisagem, dialoga com o calor do sol, a umidade do ar e o tempo lento da natureza. Este é o Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), o maior museu a céu aberto da América Latina, que em 2026 completa 20 anos de abertura ao público e foi eleito pelo The New York Times como um dos 52 lugares do mundo para conhecer neste ano.
Em 2025, Inhotim registrou o recorde de público de sua história, com cerca de 361 mil visitantes — crescimento de 8,5% em relação a 2024. Ao completar 20 anos, a expectativa é de novo aumento de visitantes, impulsionado pela programação especial com oito inaugurações, exposição comemorativa e festa de aniversário
Com cerca de 1.800 obras de mais de 280 artistas distribuídas em galerias e ao ar livre, em meio a mais de 4.300 espécies botânicas, um dia não basta. O ideal é reservar dois dias e se permitir caminhar, pausar e sentir. O parque se organiza em três rotas de visitação — Laranja, Amarela e Rosa —, sinalizadas no mapa entregue na entrada e no aplicativo oficial. Elas se cruzam perto da recepção, no centro do complexo.
Dia 1 – Eixos Amarelo e Rosa
A Galeria Praça abriga a exposição Esconjuro, de Paulo Nazareth
Comece cedo pela recepção. Vá direto à Galeria Praça, no cruzamento dos três eixos, perto dos lagos e do Restaurante Oiticica.
A Galeria Praça abriga a exposição Esconjuro, de Paulo Nazareth (desde abril de 2024, com etapa final Verão desde fevereiro de 2026, até início de 2027). A mostra é viva e se transforma a cada estação. Nazareth trabalha relações entre história, território, deslocamentos e ancestralidade afro-brasileira. O título evoca proteção, maldição e exorcismo — um gesto performativo. Na fase Verão, o espaço se torna um ambiente de resguardo, uma “mandinga” arquitetônica branca e rendada, como casa ou oratório. Há pinturas, lambes, vídeos e instalações que sobrepõem ritos e afetos. O ar parece carregado de memórias; o visitante sente o tempo pulsar sob a proteção do branco. Obras externas, como o pedalinho em formato de pato em um dos lagos, se espalham pelo parque.
instalação sonora permanente Forty Part Motet (2001), de Janet Cardiff
Dentro da mesma galeria está a instalação sonora permanente Forty Part Motet (2001), de Janet Cardiff: 40 caixas de som em semicírculo. Cada uma reproduz a voz isolada de um membro do coral da Catedral de Salisbury cantando Spem in alium. Ao se aproximar de um alto-falante, você ouve uma voz isolada com sua respiração e timbre únicos. No centro, todas se fundem em harmonia plena. O som envolve o corpo; o silêncio entre as frases se torna quase físico.
Fora da galeria, os murais em fibra de vidro e tinta automotiva de John Ahearn & Rigoberto Torres:
Abre a porta (2006): representa uma procissão de Congado e Moçambique de Brumadinho, dos artistas John Ahearn &Rigoberto Torres
- Abre a porta (2006): representa uma procissão de Congado e Moçambique de Brumadinho. As figuras em alto-relevo têm textura rugosa e volume; transmitem a força coletiva e o ritmo da tradição.
- Rodoviária de Brumadinho (2005): retrata a estação de ônibus da cidade como espaço de convívio — pessoas conversam, dançam forró, artistas se apresentam.
Instalação True Rouge (1997) reúne recipientes de vidro soprado suspensos em redes irregulares
Siga pelo lago até a True Rouge (Tunga), na conexão entre Eixos Rosa e Amarelo. A instalação True Rouge (1997) reúne recipientes de vidro soprado suspensos em redes irregulares. Dentro de cada um há líquido vermelho que se derrama lentamente conforme a inclinação. O ambiente evoca um laboratório vivo. O som é o gotejar ocasional e o balanço suave das redes. O ar tem leve cheiro metálico. A obra fala de ciclos vitais, alquimia e presença do corpo.
Labirinto colorido
No Eixo Amarelo, está a obra Invenção da cor, Penetrável Magic Square #5, De Luxe, de Hélio Oiticica
Na volta, caminhe pelas obras externas do Eixo Amarelo como Invenção da cor, Penetrável Magic Square #5, De Luxe, de Hélio Oiticica – uma das obras a céu aberto mais icônicas do Inhotim, localizada próxima aos lagos e à Galeria Praça. A estrutura foi construída postumamente, a partir de instruções detalhadas deixadas por Hélio Oiticica em textos, plantas, maquetes e amostras de cores. Mede aproximadamente 15 x 15 x 4,5 metros e é composta por nove paredes de alvenaria dispostas de forma irregular sobre um piso de seixos rolados (pedrinhas arredondadas). As paredes são pintadas em cores vibrantes — laranjas, amarelos, magentas, azuis e brancos — com textura característica, aplicada originalmente com vassoura, o que cria superfícies irregulares e táteis. Algumas têm cobertura de metal e vidro; outras são parcialmente abertas com alambrado (tela de arame).
O espaço funciona como um labirinto aberto e uma praça ao mesmo tempo. Você pode caminhar sozinho ou com outras pessoas, parar, se sentar no chão de pedrinhas ou simplesmente circular entre as paredes coloridas.
Exu
Presença de Exu, do artista Jorge dos Anjos — o orixá das encruzilhadas, da comunicação e da abertura de caminhos
Logo ao lado da obra de Oiticica ficam duas esculturas de Jorge dos Anjos, artista mineiro cuja produção é profundamente marcada pela cultura afro-brasileira, pelos orixás e pela materialidade do ferro e do aço trabalhados com fogo. As peças, de formas angulosas e verticalizadas, dialogam diretamente com o espaço aberto e com a presença de Exu — o orixá das encruzilhadas, da comunicação e da abertura de caminhos. Feitas em metal (ferro ou aço), elas têm superfície áspera, marcada pelo processo de forja e pelo fogo. Ao se aproximar, o visitante sente a temperatura do metal (quente sob o sol, fresco na sombra) e a presença densa e vertical das formas. O metal produz um som seco e metálico se for levemente tocado pelo vento ou por objetos próximos.
Juntas, a estrutura colorida e penetrável de Hélio Oiticica e as esculturas metálicas de Jorge dos Anjos criam um campo de forças: cor, luz, pedras sob os pés, metal aquecido pelo sol e a presença simbólica de Exu abrindo caminhos. É um dos trechos mais densos e sensorialmente ricos do Eixo Amarelo.
Esperas dançantes
No Eixo Rosa, sobre o espelho d’água do Centro de Educação e Cultura Burle Marx, está Narcissus Garden (1966/2009), da artista Yayoi Kusama
No Eixo Rosa, sobre o espelho d’água do Centro de Educação e Cultura Burle Marx, está Narcissus Garden (1966/2009), da artista Yayoi Kusama: 750 esferas de aço inoxidável flutuando na água. Elas se movem levemente com o vento e a corrente, batendo umas nas outras com um som metálico suave. Ao se aproximar, o visitante sente o frescor da água e percebe o próprio corpo refletido e fragmentado em centenas de superfícies curvas e brilhantes.
Arte da Fotografia
Inclua a Galeria Claudia Andujar | Maxita Yano (fotografia; "casa de terra" em yanomami)
Inclua a Galeria Claudia Andujar | Maxita Yano (fotografia; “casa de terra” em yanomami). Edifício revestido de tijolos de terra, de textura rugosa e quente ao sol. O interior se divide em módulos temáticos e dialoga com obras de 22 artistas indígenas da América do Sul. Você caminha por salas de diferentes alturas e iluminação. Nas paredes, fotografias de Claudia Andujar registram a vida yanomami — paisagens, retratos, rituais e conflitos. Há também fotografias, desenhos e vídeos de artistas contemporâneos indígenas. Em algumas salas o silêncio é profundo; em outras, sons de vídeos ou o eco dos passos. A temperatura interna é mais amena.
As fotografias e instalações de Miguel Rio Branco exploram cenas de Salvador (especialmente o Pelourinho dos anos 1970-80), com forte carga de cor, sensualidade e violência
Galeria Miguel Rio Branco (fotografia): edifício dividido em bloco suspenso e bloco subterrâneo, aproveitando o declive do terreno. No pavimento inferior, luz natural indireta; no superior, escuridão total com focos direcionados. As fotografias e instalações exploram cenas de Salvador (especialmente o Pelourinho dos anos 1970-80), com forte carga de cor, sensualidade e violência. O contraste entre luz e sombra é intenso; o silêncio das salas escuras faz o visitante prestar atenção à própria respiração e aos passos.
Sons da terra
Sonic Pavilion, de Doug Aitken: pavilhão circular de vidro e aço no alto do terreno
Inclua o Sonic Pavilion, de Doug Aitken: pavilhão circular de vidro e aço no alto do terreno. No centro, um poço de cerca de 200 metros de profundidade com microfones que captam sons do interior da Terra. Você se senta ou fica em pé e escuta: um zumbido grave, contínuo, quase geotérmico, que vibra no corpo. Bem próximo, se encontra a obra De Lama Lâmina (2009), do artista norte-americano Matthew Barney. A instalação fica dentro de um grande domo geodésico de aço e vidro. Dentro dele, um trator florestal enferrujado ergue em suas garras uma árvore branca inteira em resina, com raízes e galhos. Ferramentas e um rifle atravessam o tronco.
O contraste é forte: o metal pesado e sujo da máquina versus a leveza fantasmagórica da árvore branca. O cheiro de ferro e terra se mistura ao ar da mata. A obra, resultado de uma performance de Barney com Arto Lindsay no Carnaval de Salvador (2004), coloca em tensão natureza e indústria, criação e destruição. O título faz referência aos orixás Ossanha (das plantas) e Ogum (do ferro e da guerra).
Dia 2 – Eixo Laranja
Dedique o segundo dia ao loop laranja, mais extenso. Destaque especial: Yayoi Kusama (1929-2026) . A artista japonesa faleceu em 14 de agosto deste ano, aos 97 anos. Seu legado no Inhotim permanece vivo e profundamente sensorial em um edifício de cerca de 1.437 m² que abriga duas instalações imersivas:
Artista plástico Aluízio Figueiredo foi conferir as obras de Yoyoi Kusamo e o legado deixado como a exposição I’m Here, But Nothing (2000)
- I’m Here, But Nothing (2000): você entra em uma sala que simula um ambiente doméstico comum — mesa, cadeiras, sofá, televisão, estante. Com a luz negra acesa, milhares de pontos fluorescentes coloridos cobrem paredes, objetos, chão e teto. A sensação é de estar dentro de um espaço psicodélico que de repente se dissolve em pontos de luz pulsantes. O ar parece mais denso; o silêncio se torna quase tátil.
Visitando o Inhotim pela sétima vez, o artista plástico mineiro Aluízio Figueiredo foi conferir o legado deixado pela artista japonesa Yayoi Kusama, que possui três obras no instituto. Sobre a instalação I’m Here, But Nothing (2000), ele descreveu a experiência como: "dinâmica, profunda e psicodélica".
Inhotim abriga também a exposição Aftermath of Obliteration of Eternity (2009): uma sala pequena e escura, forrada de espelhos e pontos de luz pendentes. de Yayoi Kusama
- Aftermath of Obliteration of Eternity (2009): uma sala pequena e escura, forrada de espelhos e pontos de luz pendentes. Você entra sozinho ou com no máximo duas pessoas. As luzes se multiplicam infinitamente nos reflexos, criando a impressão de um universo sem fim. O espaço parece expandir e contrair ao mesmo tempo; o corpo sente uma leve vertigem e uma quietude profunda.
Galeria Cosmococa (Hélio Oiticica e Neville D’Almeida): salas com redes, colchões e almofadas no chão
Siga para a Galeria Cosmococa (Hélio Oiticica e Neville D’Almeida): salas com redes, colchões e almofadas no chão. Você se deita ou se acomoda. Há projeções de imagens e trilha sonora. O corpo relaxa na superfície macia; o som envolve; a luz muda lentamente.
Galeria Adriana Varejão: arquitetura que incorpora azulejos, água e formas de ruína
Galeria Adriana Varejão: arquitetura que incorpora azulejos, água e formas de ruína. O chão e as paredes têm texturas variadas — lisas, rugosas, úmidas em alguns pontos. O som da água corrente e o cheiro de umidade criam uma atmosfera densa.
Visite a Galeria Psicoativa Tunga (uma das maiores do parque): edifício de vidro inserido na mata
Galeria Psicoativa Tunga (uma das maiores do parque): edifício de vidro inserido na mata. Percursos fluidos, luz natural e diálogo direto com a vegetação. Abriga um amplo panorama da obra de Tunga — esculturas, instalações com cristais de quartzo, cabos de aço e elementos que evocam corpos, rituais e transformações. O visitante caminha entre volumes pesados e leves; o som dos próprios passos ecoa; a temperatura muda entre zonas de sombra e claridade.
Galeria Nascente: recentemente ocupada pela exposição "Tororoma", de Davi de Jesus do Nascimento, inspirada nas margens do Rio São Francisco
Galeria Nascente: recentemente ocupada pela exposição “Tororoma”, de Davi de Jesus do Nascimento, inspirada nas margens do Rio São Francisco. O ambiente convida a uma experiência imersiva de território, água e ancestralidade. As paredes e o chão dialogam com a luz natural; o som ambiente e a temperatura interna criam uma atmosfera de fluxo e memória.
A escultura com as vigas de ferro Beam Drop Inhotim (Chris Burden) é uma das mais conhecidas
Não deixe de lado o Jardim Veredas, Beam Drop Inhotim (Chris Burden) e a nova obra Contraplano (2026), de Lais Myrrha — escultura a céu aberto que transforma a arquitetura em paisagem.
Nova obra Contraplano (2026), de Lais Myrrha
Também no Eixo Laranja, não deixe de lado:
Piscina (2009), de Jorge Macchi
Leve roupa de banho e nade na instalação Piscina (2009), de Jorge Macchi
Uma piscina de verdade em formato de agenda telefônica, com o índice alfabético gravado nos degraus submersos. Feita de cimento branco e granito, a obra materializa um desenho do artista argentino. Em dias quentes, o visitante pode entrar na água — a experiência física completa o trabalho.
Casa aberta
A instalação permanente de Robert Irwin é uma das maiores e mais monumentais peças já realizadas pelo artista americano
A instalação permanente de Robert Irwin é uma das maiores e mais monumentais peças já realizadas pelo artista americano. Localizada no ponto mais alto da área de visitação do Instituto Inhotim (próximo ao Beam Drop, de Chris Burden), a escultura mede cerca de 6,3 metros de altura por 14,6 metros de diâmetro. É uma estrutura formada por oito paredes inclinadas de concreto pré-moldado, com elementos de aço inox e vidros triangulares amarelos texturizados no topo de cada parede. A obra é aberta ao céu e parcialmente “desdobrada”, permitindo a entrada da luz solar. Ao longo do dia, a incidência da luz cria jogos de sombra e luz no chão e nas paredes, transformando a experiência de quem caminha por dentro dela.
Programação, horários e celebração dos 20 anos
Horários: quarta a sexta-feira, 9h30 às 16h30; sábados, domingos e feriados, 9h30 às 17h30. Em janeiro e julho também abre às terças-feiras.
Ingressos: R$ 65 (inteira) / R$ 32,50 (meia) para 1 dia; passaportes de 2 dias (R$ 114 / R$ 57). Entrada gratuita todas as quartas-feiras e no último domingo do mês (mediante reserva). Compre com antecedência pela Sympla ou app Inhotim.
A programação dos 20 anos se estende por todo 2026. Já ocorreram ou estão em cartaz exposições de Paulo Nazareth (Esconjuro), Grada Kilomba, Dalton Paula, Davi de Jesus do Nascimento e Lais Myrrha. Em outubro terá a reabertura ampliada da Galeria Cildo Meireles, retorno da instalação sonora The Murder of Crows (Janet Cardiff & George Bures Miller) e a festa de aniversário no dia 18 de outubro, com programação gratuita e show de João Gomes (esgotado).
Carrinhos elétricos
Inhotim disponibiliza carrinhos elétricos. Eles podem ser usados como transporte compartilhado (R$ 45 por pessoa, uso ilimitado durante a visita, com pontos de embarque e desembarque ao longo das rotas)
Para facilitar o deslocamento, o museu disponibiliza carrinhos elétricos. Eles podem ser usados de três formas: transporte compartilhado (R$ 45 por pessoa, uso ilimitado durante a visita, com pontos de embarque e desembarque ao longo das rotas); prioridade e gratuidade para idosos, pessoas com mobilidade reduzida e um acompanhante; e passeio exclusivo (carrinho privativo com motorista, por períodos de 3 horas ou dia todo, com valores a partir de R$ 900, ideal para grupos ou quem quer conforto total). O serviço funciona de 10h às 16h (dias de semana) e até 17h (fins de semana e feriados). Compre com antecedência via Sympla ou na recepção.
Dicas finais
Vista roupas leves e calçados confortáveis. Leve garrafinha d’água (tem bebedouros por todo o museu), protetor solar, roupas de banho para as piscinas e use o aplicativo oficial (mapa interativo + audioguias). Há opções de alimentação ao longo do percurso (Oiticica, Café das Flores e Prato Feito Igrejinha, Pizzaria Fonte entre outros ).
O Inhotim não se esgota. Ele se sente — pelas vozes do coral que envolvem o corpo, pelo líquido vermelho que escorre lentamente, pelas esferas metálicas que flutuam e batem suavemente, pelo esconjuro que protege, pela terra que pulsa sob os pés e pela arte que respira junto com a natureza. Dois dias bem vividos, com as rotas, os carrinhos e a atenção plena às texturas, sons e atmosferas, transformam a visita em uma experiência completa e inesquecível.
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Mais informações e atualizações: (https://www.inhotim.org.br)
