Chamado da Natureza

Amazônia viva: uma viagem que começa com quem mora na floresta 

No Dia da Amazônia, experiências conduzidas por moradores, comunidades tradicionais e povos indígenas mostram que conhecer a floresta também pode significar contribuir para sua conservação

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Celebrado em 5 de setembro, o Dia da Amazônia é um convite para olhar para a maior floresta tropical do planeta para além de sua grandiosidade. Mais do que um território de biodiversidade exuberante, a Amazônia é também casa, território de pertencimento e fonte de sustento para milhares de pessoas que há gerações conhecem seus rios, matas, sabores e ciclos naturais.

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É nesse contexto que o turismo de base comunitária (TBC) ganha importância. Em vez de transformar a floresta apenas em cenário, o modelo coloca moradores, comunidades tradicionais e povos indígenas no centro da experiência turística. O visitante chega como viajante, mas parte levando uma compreensão diferente sobre o território — e deixando recursos diretamente nas mãos de quem vive e cuida dele.

Presente nos nove estados da Amazônia Legal — Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins —, o turismo comunitário aproxima viajantes de modos de vida que dificilmente aparecem nos roteiros convencionais. O guia é alguém da própria comunidade, a gastronomia valoriza ingredientes locais e conhecimentos ancestrais transformam-se em experiências de hospitalidade.

“A grande força da Amazônia está na sua imensidão e diversidade. Quando apostamos na descentralização e levamos o fluxo turístico para todos os estados e comunidades do interior, ampliamos as oportunidades de renda e permitimos que o visitante vivencie a verdadeira diversidade socioambiental da floresta”, destaca Luiz Del Vigna, diretor executivo da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (Abeta).

Quando preservar também gera renda

Conhecer a Amazônia é também mergulhar na cultura Shanenawa. Uma experiência de imersão que aproxima o viajante dos saberes ancestrais
Conhecer a Amazônia é também mergulhar na cultura Shanenawa. Uma experiência de imersão que aproxima o viajante dos saberes ancestrais Vivalá/Divulgação

A proposta se conecta diretamente à bioeconomia amazônica: gerar oportunidades econômicas a partir da floresta em pé, valorizando conhecimentos, produtos, paisagens e culturas sem depender da exploração predatória dos recursos naturais.

Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro, no Amazonas, um estudo publicado em 2025 sobre a comunidade de Tumbira mostrou a força desse modelo. A pesquisa apontou que a atividade turística envolve uma parcela significativa dos moradores diretamente e alcança ainda mais pessoas quando são consideradas atividades relacionadas, como agricultura, navegação e artesanato.

Na prática, o turismo comunitário cria uma cadeia que vai muito além do passeio. O visitante paga pelo transporte, pela hospedagem, pela alimentação, pelos serviços de condução e pelas experiências culturais. O dinheiro circula no próprio território e ajuda a fortalecer pequenos negócios e conhecimentos que poderiam perder espaço diante de atividades econômicas de maior impacto ambiental.

A lógica é simples: quanto mais valor a floresta gerar preservada, maior o incentivo para mantê-la de pé.

No norte de Mato Grosso, por exemplo, a Rota Agroecológica Guadalupe, organizada pela Raizeira Ecoturismo, reúne iniciativas de turismo de base comunitária em Alta Floresta e combina agricultura familiar, produção orgânica, observação de aves e conhecimentos tradicionais.

Em Roraima, experiências na Terra Indígena Raposa Serra do Sol aproximam visitantes da cultura e da relação dos povos originários com o território. No Pará, roteiros de ecoturismo conectam viajantes às ilhas e comunidades do entorno de Belém, valorizando a presença e os saberes dos moradores ribeirinhos.

No Amazonas, Novo Airão também se destaca por experiências que aproximam o visitante da cultura e da natureza amazônica. Já no Acre, as vivências junto ao povo indígena Shanenawa propõem uma imersão que coloca a cultura, a espiritualidade, os conhecimentos tradicionais e a relação com a floresta no centro da viagem.

Uma floresta que não pode ser apenas cenário

Entre floresta, tradição e ancestralidade, o povo Shanenawa abre caminhos para uma experiência que vai muito além do turismo
Entre floresta, tradição e ancestralidade, o povo Shanenawa abre caminhos para uma experiência que vai muito além do turismo Vivalá/Divulgação

No Dia da Amazônia, discutir turismo também significa discutir quem se beneficia da visitação. Não basta colocar a floresta no roteiro de agências e operadoras. É necessário garantir que parte significativa dos recursos permaneça nas comunidades e contribua para melhorar a qualidade de vida de quem vive no território.

O avanço de políticas públicas voltadas à visitação em territórios indígenas e unidades de conservação representa um passo importante, mas ainda existem desafios. Infraestrutura, conectividade, transporte, capacitação, acesso a crédito e comercialização continuam sendo obstáculos para que pequenos empreendedores amazônicos possam ampliar suas atividades.

“Não basta colocar a Amazônia no mapa das agências de viagens; é preciso garantir que o morador local seja o principal beneficiado”, afirma Del Vigna. Para ele, a preservação precisa estar associada a oportunidades econômicas concretas para quem vive e protege o território.

Mais do que uma viagem de contemplação, o turismo comunitário propõe uma mudança de perspectiva. A Amazônia deixa de ser apenas um destino exótico e passa a ser compreendida como território vivo, habitado e protegido por pessoas que carregam conhecimentos transmitidos entre gerações.

Neste 5 de setembro, celebrar a Amazônia também pode significar escolher conhecê-la de uma maneira diferente: viajando com respeito, valorizando quem vive na floresta e ajudando a transformar conservação em oportunidade.

5 experiências para conhecer a Amazônia pelo olhar de quem vive no território

1. Raizeira Ecoturismo — Mato Grosso
Rota Agroecológica Guadalupe e experiências ligadas ao turismo de conservação, agricultura familiar e observação de aves no norte mato-grossense.

2. Juju Tour — Amazonas
Experiências de turismo de base comunitária em Novo Airão, com contato com a natureza, a cultura e os saberes amazônicos.

3. Roraima Adventures — Roraima
Expedições de aventura e vivências comunitárias que valorizam a cultura indígena e o território da Raposa Serra do Sol.

4. Amazônia Aventura — Pará
Roteiros de ecoturismo e experiências que aproximam os visitantes das comunidades ribeirinhas e da natureza no entorno de Belém.

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5. Vivalá — Acre
Expedições de imersão comunitária junto ao povo indígena Shanenawa, com experiências culturais e contato com os saberes tradicionais.

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