Na agenda da nutricionista Bárbara Starling, de 43 anos, a próxima viagem começa pela previsão do vento. Mãe de dois filhos e moradora de Belo Horizonte, ela concilia trabalho, família e escola para voltar ao litoral cearense, onde pratica kitesurfe há 15 anos. Duas ou três vezes por ano, a rota se repete: Minas Gerais, Ceará e algumas horas de vento sobre o mar.
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“Tem 15 anos que eu sou kitesurfista. Já fiz incontáveis viagens para a região, duas a três vezes por ano. Sempre levo meu próprio equipamento e já levei outros amigos para conhecer e experimentar.”
A rotina ganhou um atalho. Em agosto de 2026, a Azul mantém nove voos mensais entre o Aeroporto Internacional de Belo Horizonte, em Confins, e o Aeroporto Regional de Jericoacoara, em Cruz. As operações acontecem às quartas-feiras e aos sábados, com duração aproximada de 2h50 no trecho sem escala.
A combinação permite sair de Belo Horizonte na quarta-feira e retornar no sábado — ou embarcar no sábado e voltar na quarta. Para os praticantes de kitesurfe, a conexão direta cria uma nova lógica de viagem: menos deslocamento e mais tempo na água. São três ou quatro noites organizadas em torno da previsão do vento.
O preço das passagens, sujeito a oscilações conforme a antecedência da compra, ainda exige planejamento. Mas a redução do tempo de viagem muda a relação com o destino. O Ceará deixa de ser apenas uma viagem de férias e passa a caber em uma pausa curta na agenda.
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A viagem passa a seguir o vento
A empresária mineira Bela Furtado entrou no esporte há 13 anos. Antes do kitesurfe, praticava wakeboard e mountain bike com um grupo de amigos de Belo Horizonte. Quando a turma decidiu viajar para Barra Grande, no Piauí, para aprender a velejar, ela embarcou junto.
Um ano depois, conheceu Jericoacoara por causa do esporte. Hospedou-se na Vila Kalango, depois chegou ao Preá e ao Rancho do Peixe. A frequência aumentou após a pandemia. Em 2026, Bela passa entre quatro e cinco meses por ano no Ceará e transformou a afinidade com o esporte também em negócio, com uma marca voltada à moda para esportes aquáticos e praia.
“Depois que comecei a praticar kitesurf, escolho o destino das férias em função do vento. O vento passou a fazer parte das minhas escolhas de viagem.”
A experiência de Bárbara e Bela ajuda a explicar um comportamento que ganha força entre os praticantes: o turismo de repetição. O visitante retorna à mesma costa, acompanha a temporada, viaja com grupos de amigos e movimenta uma cadeia que envolve hospedagem, alimentação, transfers, aulas, aluguel, manutenção e armazenamento de equipamentos.
Quando o vento também movimenta a economia
Dados da Secretaria do Turismo do Ceará mostram que o turismo esportivo e de aventura levou 350 mil visitantes ao estado em 2025, contra 297.515 em 2024 — alta de 17,6%. A receita turística direta passou de R$ 1,145 bilhão para R$ 1,387 bilhão, crescimento de 21,2%. O gasto médio por turista chegou a R$ 3.965,45.
É importante fazer uma leitura correta desses números: os dados abrangem todo o turismo esportivo e de aventura no Ceará e não representam exclusivamente os praticantes de kitesurfe.
Os esportes de vento, porém, estão entre os motores desse movimento. A temporada mais forte costuma se estender de agosto a janeiro, com pico entre setembro e novembro. Nesse período, os ventos geralmente ficam entre 20 e 30 nós, criando condições especialmente favoráveis para a prática.
Preá e Jericoacoara estão entre os destinos mais procurados, ao lado de Cumbuco, Icaraizinho de Amontada e Ilha do Guajirú.
A conectividade aérea também acompanha esse crescimento. Desde o início das operações da Azul em Jericoacoara, em 2017, a companhia transportou 414,8 mil passageiros em cerca de 6,1 mil voos para o destino. O número considera as operações da empresa em Jeri ao longo do período e não apenas a rota com Belo Horizonte.
Mitu Monteiro: quando o destino também é uma sala de aula
A temporada de vento no Preá também atrai atletas e referências internacionais do esporte. É o caso de Mitu Monteiro, cabo-verdiano, campeão mundial de kitesurfe
A temporada de vento no Preá também atrai atletas e referências internacionais do esporte. É o caso de Mitu Monteiro, cabo-verdiano, campeão mundial de kitesurfe e uma das principais referências internacionais do strapless, modalidade praticada sem o uso de alças para prender os pés à prancha.
Sua trajetória acompanha a evolução do kitesurfe e a crescente projeção internacional da modalidade, que ganhou novo capítulo com a estreia olímpica da Formula Kite nos Jogos de Paris 2024.
Mitu passa agosto no Preá com a família e, nos dias 24 e 25, terá uma agenda reservada de coaching para praticantes interessados em aprimorar a técnica. A presença do atleta acrescenta outra dimensão ao turismo esportivo: além de viajar para velejar, o visitante passa a escolher o destino pela possibilidade de aprender diretamente com grandes nomes da modalidade.
A experiência também reforça a posição do Preá como um lugar de encontro entre diferentes níveis do esporte — do iniciante ao atleta experiente.
Por que o Preá virou endereço certo
Mitu Monteiro elogia a Pousada Rancho do Peixe: "lá eu consigo unir esporte, descanso e tempo com a família"
Para quem viaja repetidamente, a escolha do lugar não depende apenas do vento. Paisagem, estrutura, hospitalidade e a possibilidade de combinar esporte e descanso pesam na decisão.
É o caso do Preá e da Pousada Rancho do Peixe, que se consolidaram entre os endereços procurados por praticantes que retornam ao Ceará temporada após temporada. “Há muitos anos escolhemos o Preá pelas condições para o kitesurf, pela tranquilidade e pela forma acolhedora como somos recebidos. No Rancho do Peixe, consigo unir esporte, descanso e tempo com a família. A pousada é integrada à natureza, com madeira, plantas e uma arquitetura que preserva a paisagem e a circulação dos ventos. A gente se sente realmente no Brasil, conectado com a cultura local e com a natureza. Para nós, é como uma segunda casa.”, admira Mitu Monteiro, campeão mundial de kitesurfe
A localização permite combinar dias de esporte com momentos de descanso. No Preá, a experiência está menos associada à ideia de uma simples hospedagem e mais à permanência em um território moldado pelo vento, pela areia e pela cultura costeira.
O diferencial está na constância do vento
O Ceará reúne condições que ajudam a explicar a fidelidade dos praticantes. Clima quente, água em temperatura agradável, litoral extenso e uma sequência de praias que permite encontrar diferentes condições de navegação fazem do estado um dos principais polos mundiais do esporte.
No Preá, a regularidade do vento é um dos principais atrativos.
É essa previsibilidade que transforma a previsão meteorológica em parte do planejamento turístico. Para quem pratica, não basta escolher uma praia bonita. É preciso escolher a janela certa.
Por que o kite ganhou o apelido de “novo golfe”
A expressão descreve o comportamento de parte do público que aderiu ao esporte. Assim como acontece com o golfe, o kitesurfe passou a reunir executivos, empresários e profissionais liberais em viagens recorrentes, nas quais a convivência ultrapassa o momento da prática.
As relações se formam nas aulas, nos downwinds, nas pousadas e nos encontros depois de um dia na água. Viagens que começam pelo esporte acabam criando redes de amizade e negócios.
Em entrevista à Folha, publicada em julho de 2026, Marco Dalpozzo, um dos sócios do Rancho do Peixe, resumiu essa transformação ao dizer que o kite se tornou “o novo golfe”. A frase funciona como retrato de uma tendência entre determinados grupos de praticantes, e não como uma classificação oficial da modalidade.
A entrada no esporte pode exigir investimento para quem pretende comprar todo o equipamento. Mas quem está começando pode experimentar antes de decidir pela compra. Escolas e centros especializados oferecem aulas, aluguel e acompanhamento profissional.
A bagagem pode ficar no Ceará
Para quem faz viagens curtas, um dos obstáculos é transportar equipamentos. No Preá, o Water Sports Center do Rancho do Peixe reúne aulas, aluguel, coachings, downwinds, reparos e resgates. A guarderia, incluída para hóspedes, permite armazenar o equipamento entre uma viagem e outra.
Em Jericoacoara, a Vila Kalango também oferece estrutura para os praticantes. Os centros trabalham com modalidades como kitesurfe, kitefoil, wingfoil e windsurfe.
A possibilidade de deixar o material no destino simplifica a logística: menos bagagem no aeroporto, menos despacho e mais tempo disponível para velejar. Para iniciantes, as escolas também reduzem o risco de comprar equipamentos antes de descobrir se o esporte realmente fará parte da rotina.
Aulas, material adequado às condições do vento e supervisão profissional são fundamentais para uma entrada segura na modalidade.
Crescimento pede cuidado com o destino
A expansão do turismo esportivo acontece em uma paisagem que precisa permanecer preservada. O Parque Nacional de Jericoacoara tem cerca de 8,8 mil hectares, com dunas, restingas, manguezais e lagoas.
O mesmo território que atrai o visitante é a base da experiência. Por isso, o crescimento da atividade exige atenção à circulação de veículos, ocupação, resíduos, construções e uso das áreas de praia.
O turismo impulsionado pelos esportes de vento distribui renda por diferentes setores: pousadas, hotéis, restaurantes, transfers, instrutores, lojas, oficinas e serviços especializados. O desafio é fazer com que essa expansão acompanhe a conservação ambiental e a qualidade de vida das comunidades que vivem no litoral.
Para Bárbara, a relação com o esporte vai além da atividade física:
“Para mim, o kite representa conexão e integração com as forças da natureza.”
E, para uma parcela crescente de viajantes, o destino não é escolhido apenas pela paisagem. Pode ser também pela qualidade do vento, pela estrutura para praticar e pela oportunidade de aprender com quem transformou o esporte em profissão.
Para quem aprendeu a viajar seguindo o vento, a próxima viagem pode começar não no calendário, mas na previsão meteorológica.
Serviço
Rota Azul: Confins (CNF) – Aeroporto Regional de Jericoacoara (JJD), em Cruz, Ceará.
Tempo de voo: cerca de 2h50 no trecho sem escala.
Frequência informada em agosto de 2026: nove voos mensais, às quartas-feiras e aos sábados.
Temporada de ventos: de agosto a janeiro, com pico entre setembro e novembro.
Estrutura esportiva: aulas, aluguel, guarderia, oficina, resgate, coachings e downwinds no Preá e em Jericoacoara.
Atenção: horários e frequências aéreas podem mudar. Consulte a companhia aérea antes da viagem e confirme as condições do vento diretamente com a escola ou centro esportivo.
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