O despertar dos gigantes de pedra: uma jornada pelas Dolomitas de Brenta
Entre picos que tocam o céu e lagos de infinito azul, a face Oeste das Dolomitas revela um lugar autêntico nos alpes italianos
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Luana Bastos - Especial para o EM
Imagine-se cercado por muralhas de pedra que mudam de cor conforme o sol caminha, tingindo o horizonte de tons rosados e dourados em um fenômeno mágico. Nas Dolomitas de Brenta, nos Alpes italianos, o cenário não é apenas uma moldura, mas o protagonista de uma experiência sensorial completa.
Patrimônio Mundial da Unesco, a região convida o viajante a desacelerar e trocar o frenesi das cidades pelo som dos riachos, o frescor dos prados floridos e a imponência de maciços rochosos que parecem esculpidos à mão.
Consolidado como a maior área protegida da província de Trento, o Parque Natural Adamello Brenta estende-se por 62 mil hectares de preservação rigorosa. Fundada em 1967, a reserva cumpre um papel ecológico estratégico ao salvaguardar dois gigantes geológicos: o maciço Adamello-Presanella e a cordilheira das Dolomitas de Brenta — esta última reconhecida como Geoparque Mundial pela Unesco.
A biodiversidade da região é de uma riqueza única. O ecossistema abriga populações de ursos-pardos, íbex e marmotas, além de aves que habitam as densas florestas de abetos e faias. Durante o degelo, a natureza se transforma com a floração de rododendros, que colorem os prados alpinos e reforçam o vigor cênico de uma das paisagens mais emblemáticas da Itália.
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Caderzone Terme: história e bem-estar
Aqui, a aventura começa em pequenos vilarejos que preservam o charme de outrora. Caderzone Terme, um refúgio de menos de 700 habitantes a três horas de Milão, serve como portal de entrada para esse território onde a altitude dita as regras.
Localizada no coração do vale, a vila destaca-se como um polo de turismo histórico e relaxamento. É o ponto de partida ideal para quem busca conexão, seja através de uma manhã de yoga sob o ar puro da montanha ou ao se preparar para as trilhas que serpenteiam o parque natural.
O principal expoente da hotelaria local é o Palazzo Lodron-Bertelli, uma estrutura quatro estrelas instalada em um palácio preservado do século 15. O empreendimento combina a preservação arquitetônica com serviços modernos. Na gastronomia, oferece um restaurante especializado na culinária regional do Trentino; já entre os serviços de bem-estar, conta com um centro de spa e águas termais integrados à estrutura, além do posicionamento estratégico para turistas que buscam uma base de apoio central para explorar as redondezas.
Entre trilhas e refúgios
A exploração da região é marcada pela alternância entre o esforço físico e a contemplação. A travessia que liga o Rifugio Cornisello ao Rifugio Segantini é um dos destaques da jornada. Embora o percurso tenha apenas quatro quilômetros, a subida em terreno pedregoso exige respeito e tempo — cerca de quatro horas de caminhada. No caminho, o Lago Nero, situado a 2.200 metros de altitude, funciona como um espelho escuro que reflete a dramaticidade das torres de pedra ao redor.
O Rifugio Cornisello propõe unir o rústico ao acolhedor. Mantendo a tradição local, a hospedaria prioriza a convivência, com dormitórios e banheiros coletivos, além de uma gastronomia de base caseira. Para quem deseja maior privacidade, o estabelecimento dispõe de uma unidade exclusiva para casais, que oferece um nível superior de conforto em meio à atmosfera de camaradagem característica do lugar.
A recompensa chega ao alcançar o Rifugio Segantini, estrategicamente posicionado como um "ninho de águia" a 2.373 metros de altura. Ali, a hospitalidade alpina se manifesta em pratos caseiros e na partilha de histórias entre montanhistas e fotógrafos em busca do nascer e do pôr do sol, tudo acompanhado por uma das vistas mais privilegiadas de todo o maciço de Brenta.
Rota dos lagos glaciais
Há roteiros que desafiam o preparo físico ao mesmo tempo em que revelam paisagens de encher os olhos. Um dos trajetos mais emblemáticos atravessa o Val Nambrone em direção ao Lago Vedretta, situado a 2.600 metros de altitude. O trecho de 11 quilômetros exige cerca de seis horas de caminhada.
Cercado por picos nevados, o corpo d'água é um testemunho geológico do degelo alpino. No local, é possível observar placas de gelo que se desprendem das encostas e flutuam sobre a superfície, que atua como um espelho para o céu. O isolamento geográfico garante um silêncio absoluto, tornando-o um dos pontos mais preservados da cordilheira.
Os espelhos d'Água de Cornisello
Antes do topo, a trilha revela os Lagos di Cornisello, a aproximadamente 2.100 metros de altitude. Localizados em uma bacia montanhosa, os dois lagos apresentam características distintas: o lago superior é mais profundo e possui uma tonalidade leitoso-turquesa (resultado da suspensão de sedimentos glaciais); já o lago inferior, raso e de águas límpidas, facilita a observação do leito rochoso. Ambos são alimentados por águas de degelo e podem ser acessados tanto por trilhas quanto por estradas de terra.
Sabor da tradição
A experiência nas Dolomitas de Brenta reside também nos sabores. A culinária local, uma herança rústica e reconfortante, ensina que cada ingrediente tem sua história. Em oficinas locais, é possível aprender a arte do canederli — tradicionais bolinhos de pão e especiarias, geralmente servidos com manteiga e queijo.
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Ao descer as encostas em direção à Malga d'Amola, a trilha torna-se mais suave, revelando o cotidiano das queijarias de montanha. Entre marmotas que passeiam pelas rochas e o gado que pasta livre, o visitante encerra a viagem com a certeza de que as Dolomitas não são apenas um destino para os sentidos, mas um reencontro com o essencial.