Por alguns segundos, ‘Grand Theft Auto VI’ parece deixar de ser um videogame. Jason abre a geladeira, circula pela casa, pega uma bebida e interage com objetos enquanto, do lado de fora, Vice City continua funcionando. Há carros passando, pessoas caminhando, animais, barcos, prédios, luzes e reflexos por todos os lados. Tudo acontece ao mesmo tempo.
Então, a ilusão dá uma pequena escorregada: uma garrafa que deveria estar na geladeira desaparece e só surge quando Jason interage com ela. Em outro momento, uma bolsa no chão parece dar um pequeno salto até a mão do personagem. São falhas quase banais diante dos quase 27 minutos apresentados pela Rockstar Games, mas ajudam a explicar por que o Extended Look de 'GTA VI' é tão interessante. O jogo não é perfeito. E talvez ninguém devesse esperar que fosse.
Leia Mais
O tamanho
Leonida será maior e mais diversa, reunindo Vice City, praias, áreas rurais, estradas e regiões naturais.
Divulgado em 27 de agosto, o Extended Look ampliou bastante o que já havia sido apresentado nos trailers de 'GTA VI'. Desta vez, a Rockstar não se limitou a mostrar cenas cinematográficas de Jason e Lucia. O material coloca os protagonistas em perseguições, tiroteios, roubos, deslocamentos e situações cotidianas, além de revelar uma quantidade impressionante de detalhes espalhados pelo mundo de Leonida.
A escala chama atenção antes mesmo de qualquer tecnologia específica. Há trânsito intenso, grandes grupos de pedestres, animais, estabelecimentos, praias, estradas, áreas rurais, clubes e veículos de diferentes tipos. Vice City, que os jogadores conheceram em 2002, agora é apenas uma parte de um território muito maior. A Rockstar já confirmou regiões como Leonida Keys, Port Gellhorn, Ambrosia, Grassrivers e o Mount Kalaga National Park.
O que impressiona, portanto, não é apenas o tamanho do mapa. É o que parece existir dentro dele.
Mundo vivo
NPCs, veículos, animais e atividades ajudam a construir uma cidade que parece funcionar mesmo sem a presença do jogador.
Grandes mapas não são novidade nos videogames. O problema é fazer com que eles pareçam ocupados. É possível construir uma área gigantesca e preenchê-la apenas com estradas, ícones e pontos de interesse. 'GTA VI' parece seguir outro caminho.
No Extended Look, exibido em primeira mão pela Netflix, Jason e Lucia não estão o tempo inteiro cumprindo uma missão. Eles dirigem, conversam, entram em estabelecimentos, passam por áreas movimentadas e voltam para ambientes privados. Enquanto isso, os personagens ao redor continuam realizando atividades. Pessoas aparecem usando celulares, praticando exercícios, frequentando praias, festas e clubes. Há animais espalhados pelos diferentes ambientes e uma série de atividades que vão muito além do crime.
A Rockstar também mostra esportes, academia, corridas, paraquedismo, barcos, jet skis, caiaque, mergulho e exploração de áreas naturais. Nem tudo foi detalhado o suficiente para sabermos qual será a profundidade dessas atividades, mas a mensagem é que Leonida não foi construída apenas para levar o jogador de uma missão a outra.
Tudo junto
Trânsito, pedestres, perseguições, combate e interações acontecem simultaneamente em um mundo aberto mais denso.
É aí que 'GTA VI' começa a parecer diferente. Nenhuma das tecnologias apresentadas pela Rockstar é, isoladamente, inédita. Outros jogos já possuem água realista, iluminação avançada, grandes multidões, física de veículos, NPCs detalhados e mapas extensos.
O que impressiona é a quantidade de coisas que parecem acontecer simultaneamente.
Uma perseguição policial não acontece em uma rua vazia. Há trânsito, pedestres, outros veículos, colisões, policiais e helicópteros. O sistema de procura também parece mais contextual. Antes de a polícia reagir, alguém precisa perceber o crime ou a informação precisa chegar às autoridades. É uma mudança que pode fazer o jogador pensar não apenas em como fugir, mas em como foi descoberto.
O combate segue a mesma lógica. Jason e Lucia utilizam cobertura, mudam de posição, rolam, trocam armas e se movimentam durante os confrontos. Em determinadas situações, os dois trabalham juntos, com um dirigindo enquanto o outro atira. São sistemas que já existem separadamente em outros jogos, mas que ganham outra dimensão quando inseridos em um mundo tão movimentado.
Pequenas falhas
Bugs e transições pouco naturais também aparecem no material e mostram que GTA 6 está longe de ser uma simulação perfeita.
É justamente no meio dessa demonstração de tecnologia que os detalhes mais interessantes aparecem.
Quando Jason pega uma bolsa no chão, a interação não parece completamente natural. É possível perceber a transição entre o objeto que estava no cenário e a animação em que ele passa para as mãos do personagem. O mesmo ocorre com uma garrafa na geladeira. Ela não aparece como seria esperado quando a porta é aberta, mas surge quando Jason realiza a interação.
São pequenas falhas, mas importantes para uma análise mais realista do material. Elas lembram que 'GTA VI' não é uma simulação perfeita. Por trás daquela cidade existe um conjunto gigantesco de animações, físicas, objetos e sistemas tentando funcionar ao mesmo tempo.
A água também merece uma observação menos empolgada. Debaixo dela, o resultado impressiona pela profundidade, pela iluminação e pela representação do ambiente. Na superfície, porém, a tecnologia não parece tão distante do que outros jogos atuais já oferecem. Há evolução na maneira como a água se comporta, mas não necessariamente uma revolução.
E isso não é um problema. Na verdade, ajuda a entender onde está a maior força do jogo.
A Rockstar não precisa inventar cada componente. O que ela parece estar fazendo é combinar uma quantidade enorme deles em uma única experiência.
A escolha dos 30 fps
A Rockstar prioriza 30 fps nos consoles, uma escolha que pode favorecer a complexidade do mundo, mas divide opiniões.
A decisão de trabalhar com 30 quadros por segundo nos consoles também merece atenção. Para parte do público mais entusiasta, acostumado a jogar a 60 fps ou mais, isso representa uma limitação importante. Para a maioria dos jogadores, porém, a diferença pode ter um impacto menor diante da quantidade de elementos que 'GTA VI' parece precisar processar.
Não dá para afirmar que os 30 fps são consequência direta de uma única escolha da Rockstar, porque a empresa não detalhou dessa maneira todos os motivos técnicos. Mas é evidente que um jogo com tantos NPCs, veículos, animações, efeitos de iluminação, física e elementos simultâneos exige muito do hardware.
A discussão também deve continuar quando 'GTA VI' chegar ao PC. Jogadores com máquinas mais potentes certamente vão tentar descobrir até onde esse mundo pode ser levado quando as limitações do console deixarem de existir.
Jason e Lucia
A relação entre os protagonistas ganha espaço, misturando crimes, conflitos e momentos cotidianos fora das missões.
No meio de toda essa grandiosidade, a história continua dependendo de duas pessoas.
Jason e Lucia parecem cada vez mais importantes não apenas como protagonistas, mas como parte da própria estrutura do jogo. Lucia chega à trama depois de passar pela Penitenciária de Leonida, enquanto Jason já possui relações com o crime nos Keys. Os dois acabam formando uma parceria que mistura dinheiro, sobrevivência, violência e relacionamento.
O Extended Look mostra momentos em que essa relação existe fora das missões. Eles conversam, passam tempo juntos e compartilham ambientes. Isso pode parecer um detalhe, mas muda a percepção sobre os personagens. A vida deles não começa quando aparece um objetivo no mapa e termina quando a missão acaba.
Essa tentativa de construir uma rotina para os protagonistas ajuda a explicar por que a Rockstar investiu tanto no mundo ao redor deles.
Um novo padrão
A combinação de escala, densidade e interação pode elevar a régua dos mundos abertos e influenciar outros estúdios.
É aqui que a discussão sobre 'GTA VI' deixa de ser apenas uma comparação com os jogos anteriores da franquia.
Se tudo aquilo que foi mostrado funcionar de maneira consistente no lançamento, a Rockstar pode estabelecer uma referência para os mundos abertos. Não necessariamente por ter o maior mapa ou a maior quantidade de atividades, mas por aproximar elementos que normalmente aparecem separados.
Um jogo pode ter uma cidade enorme. Outro pode ter NPCs muito detalhados. Outro pode apostar em física sofisticada. Outro pode oferecer dezenas de atividades paralelas. 'GTA VI' parece querer colocar tudo isso dentro do mesmo espaço e fazer com que uma coisa influencie a outra.
Se der certo, outros estúdios terão um novo parâmetro para observar. Talvez a próxima pergunta ao desenvolver um mundo aberto não seja apenas “qual será o tamanho do mapa?”, mas “o que estará acontecendo nele quando o jogador não estiver olhando?”.
Pé no chão
O Extended Look aumenta a expectativa, mas ainda representa apenas uma pequena amostra de um jogo que não chegou ao público.
A reação ao Extended Look mostra o tamanho da expectativa. O material foi recebido com entusiasmo principalmente pela qualidade das animações, pela densidade do mundo e pela quantidade de elementos aparecendo simultaneamente. Também houve críticas de jogadores que enxergaram uma evolução de sistemas que já estavam presentes em GTA V e em outros jogos.
As duas percepções podem coexistir.
É preciso lembrar que quase 27 minutos continuam sendo quase 27 minutos. O material foi selecionado pela própria Rockstar e serve para apresentar o jogo da melhor maneira possível. Ainda não sabemos como todos esses sistemas vão funcionar depois de dezenas de horas, quantas atividades terão profundidade, como será o desempenho em situações imprevisíveis ou qual será a quantidade de bugs encontrada pelos jogadores.
Essa cautela não precisa matar a empolgação. Pelo contrário. Ela permite analisar 'GTA VI' pelo que ele realmente mostrou, e não pelo jogo que imaginamos que ele será.
Quase perfeito
GTA 6 tem falhas, mas o conjunto apresentado pela Rockstar pode representar um novo patamar para os mundos abertos.
'GTA VI' não é perfeito. O Extended Look deixou isso claro. A garrafa que aparece de maneira estranha, a bolsa que salta para a mão de Jason, os limites da água na superfície e as discussões sobre os 30 fps mostram que ainda existem imperfeições e escolhas técnicas que serão debatidas.
Mas existe algo muito difícil de ignorar: poucas vezes um jogo mostrou tanta coisa funcionando ao mesmo tempo.
Carros, pedestres, animais, prédios, interiores, iluminação, reflexos, combate, perseguições, atividades, veículos aquáticos, ambientes naturais e personagens com suas próprias histórias aparecem dentro de um mesmo mundo. Não é uma tecnologia isolada que impressiona. É a combinação.
Por isso, talvez seja cedo demais para chamar 'GTA VI' de perfeito. O jogo ainda precisa chegar ao público, sobreviver ao teste das dezenas de horas de campanha e provar que aquilo que a Rockstar mostrou não é apenas uma demonstração cuidadosamente preparada.
Mas também seria injusto fingir que estamos diante de apenas mais um mundo aberto.
Até agora, 'GTA VI' parece ser uma das tentativas mais ambiciosas já feitas de transformar um mapa em um lugar que realmente pareça existir. E, se a Rockstar conseguir entregar no lançamento aquilo que mostrou no Extended Look, o maior legado do jogo pode não estar apenas nas vendas ou nas avaliações da crítica.
Pode estar na mudança da pergunta que a indústria fará depois dele.
Não mais sobre o tamanho de um mundo aberto, mas sobre o quanto de vida é possível colocar dentro dele.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
‘Grand Theft Auto VI’ será lançado para PlayStation 5 e Xbox Series X|S em 19 de novembro de 2026.
