Bruno Pereira - Exames de sangue que prometem detectar múltiplos tipos de câncer antes mesmo do surgimento de sintomas têm se popularizado nos Estados Unidos, apesar de ainda serem considerados experimentais e não terem a aprovação da Food and Drug Administration (FDA), agência regulatória do país. O mais conhecido deles é o Galleri, disponível no mercado estadunidense desde 2021. Segundo a Grail, empresa de biotecnologia que criou o teste, já foram realizados mais de 400 mil procedimentos do tipo nos EUA. 

O Galleri faz a análise de fragmentos de DNA tumoral circulante no sangue com objetivo de identificar sinais de diversos tipos de câncer. A fabricante afirma que ele pode detectar até 50 tipos de neoplasias, o que poderia ajudar a filtrar quem precisa de um rastreio mais profundo. Na prática, contudo, não é bem assim. 

“O tumor tem assinaturas genéticas que circulam pelo organismo como proteínas, que podem nos ajudar a detectar doenças precocemente. Uma ferramenta de detecção precoce multicâncer, portanto, é uma ótima ideia e adoraríamos tê-la a nossa disposição. Por ora, porém, ainda não há evidências científicas de que ela possa ser usada na rotina”, avalia o oncologista Diogo Sales, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia. 

 

Embora o Galleri não seja o único exame de sangue para detectar câncer em estudo, apenas ele alcançou escala comercial. Para realizar o teste, o paciente deve fazer uma coleta de sangue, que é enviada a um laboratório especializado nos Estados Unidos. O procedimento de triagem custa aproximadamente US$ 950 por pessoa.

Mas é preciso cautela. “Procurar biomarcadores do câncer antes da manifestação da doença poderia reduzir o diagnóstico avançado e, portanto, aumentar a chance de cura, mas há muitas questões em aberto. Os testes estão associados a uma taxa alta de falsos positivos e negativos, além de serem limitados na quantidade de doenças que podem identificar”, observa.

Sem contar que não existe um marcador universal para detectar os diversos tipos de câncer. “Cada tumor produz seu próprio conjunto de proteínas e ainda não sabemos quais são exatamente aquelas para as quais o exame demostrará maior detecção e que estarão associadas a um maior benefício de cura no futuro”, observa o oncologista.

Uma das consequências mais preocupantes desse tipo de promessa é a falsa ilusão de que quem fizer o teste estará protegido, caso o exame afirme que não há câncer. “O Galleri está sendo avaliado em um estudo randomizado na Inglaterra. Até agora, a taxa de detecção foi menor do que esperávamos e, mesmo quando ele encontrou marcadores, o risco de um falso positivo foi alto: só 60% dos testes se comprovaram um verdadeiro positivo em testes seguintes”, relata Diogo Sales. Segundo o oncologista, nem todo tumor libera biomarcadores desde o início, o que pode fazer a pessoa achar que não tem nada e não fazer exames de rastreio, por exemplo.

Outra limitação é que os resultados do Galleri apresentados nos últimos anos, inclusive em revistas prestigiadas como a The Lancet, comparam taxas de detecção, mas o que deveria importar é a capacidade de reduzir mortalidade. “Na maior parte das vezes, a detecção precoce de fato ajuda a salvar vidas, mas isso não é verdade para todos os tumores”, observa.  

Muitas vezes, tentar intervir precocemente pode diminuir a qualidade de vida, sem aumentar significativamente a sobrevida do paciente. Em alguns casos, o melhor é apenas observar o tumor. “É como temos aprendido com a discussão acerca do rastreio universal de câncer de próstata”, lembra o oncologista. “Então, a avaliação deveria ser no impacto que o exame tem na mortalidade associada a doença, e não na capacidade de detectar precocemente.” 

Um resultado fora do esperado pode causar ansiedade e fazer a pessoa passar por exames desnecessários, possivelmente até invasivos. Também merecem atenção os custos financeiros tanto para quem faz o exame quanto para o sistema de saúde como um todo, que sofrerá o impacto de mais pessoas fazendo esses procedimentos sem necessidade.

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Por outro lado, testes como o Galleri podem ter utilidade em alguns cânceres específicos. “Quando se trata de tumores no pâncreas e ovário, para os quais não temos uma rotina de rastreio que permita uma detecção precoce, o teste mostrou bons resultados”, destaca o especialista. “Portanto, no futuro, há possibilidade de usarmos os testes apenas onde eles seriam mais eficientes.”

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