Brasil elege presidente sem debater a economia e quem vencer terá de cortar gasto
Os candidatos prometeram mais despesas e não disseram como conter a alta da dívida pública. Para economistas, o presidente eleito terá de adotar medidas duras omitidas na campanha
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O Brasil decide neste domingo quem governará o país a partir de 2027 sem que os candidatos tenham travado ao longo da campanha um debate consistente sobre os rumos da economia. Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, e Flávio Bolsonaro, do PL, fizeram promessas que ampliam os gastos públicos, mas não detalharam como pretendem reduzir o ritmo de crescimento da dívida pública, apontado por economistas como o principal entrave à queda dos juros. Para analistas ouvidos pelo PlatôBR, o eleito terá de adotar medidas que não foram apresentadas aos eleitores e que terão caminho difícil no Congresso Nacional.
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O economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, tira por menos a falta de ideias na campanha. Ele lembra que a ausência de propostas concretas é a regra nas campanhas presidenciais desde a redemocratização. Compromissos claros de ajustes econômicos, diz, só foram apresentados em duas ocasiões: em 1994, com o Plano Real, e em 2002, quando Lula divulgou a Carta ao Povo Brasileiro. “Nenhuma outra campanha teve programas concretos. Essa, em geral, é a forma como as campanhas acontecem no Brasil”, afirma.
Camargo se diz pessimista com o rumo das contas públicas em caso de reeleição de Lula. Na avaliação dele, o petista tem demonstrado “total desprezo pela questão fiscal” e, sempre que trata do tema, sustenta que o problema não está nos gastos, mas nos juros. “O presidente traz a percepção de que, por alguma razão, as taxas de juros são altas e é por isso que a dívida é grande”, diz. “Não tem dado importância a essa questão, e é pouco provável que mude de direção.”
O economista argumenta que a lógica é inversa. Segundo ele, sempre que o país conseguiu afrouxar ao mesmo tempo a restrição externa, com superávit comercial, e também a restrição fiscal, a economia cresceu com inflação controlada e juros relativamente baixos. Sem ajuste nas contas, o governo fica diante de duas saídas ruins: ampliar o endividamento ou abandonar o controle da inflação.
Como exemplo, Camargo cita o último trimestre de 2024, quando houve uma fuga contra o real e o dólar superou R$ 6. Na ocasião, o Banco Central vendeu cerca de US$ 30 bilhões em reservas e, nos meses seguintes, elevou a Selic até 15% ao ano para conter a inflação.
Em relação a Flávio, o economista afirma que o cenário é de incerteza, já que o candidato do PL não apresentou um programa econômico e tem feito declarações tanto positivas quanto negativas sobre o tema. Ainda assim, ele vê maior probabilidade de uma gestão fiscal mais responsável. “No caso do Lula, a gente tem mais ideia de como vai funcionar. No caso do Flávio, pelo menos existe o benefício da dúvida”, diz.
Camargo destaca um aspecto positivo da campanha: pela primeira vez, a situação as instituições do país, incluindo o Supremo Tribunal Federal, foi discutida em público. “Não houve proposta de solução, mas o problema está lá e todo mundo viu”, afirma. O lado negativo, segundo ele, foi a ausência de discussão sobre a dívida pública e a taxa de juros.
“Tarefa zero”
O economista e sócio da Tendências Consultoria Silvio Campos Neto também classifica o debate econômico como pobre. Segundo ele, os candidatos se concentraram em consequências, como a geração de crescimento e emprego, sem explicar como alcançar esses objetivos, e deixaram de lado temas como o equilíbrio das contas públicas e a produtividade. “A economia foi quase um não tema”, diz.
Para o economista, a questão fiscal é a “tarefa zero” do próximo governo. A trajetória dos gastos e da dívida mantém elevada a percepção de risco e impede a queda dos juros, o que afeta também empresas e famílias, pressionadas por endividamento alto e crédito caro. “O setor privado está no mesmo barco”, afirma.
Ele lembra que a campanha foi marcada por promessas e que, do lado do governo, foram apresentadas medidas que criam novos gastos. “O que a gente espera é que qualquer um dos lados, além da dificuldade natural, vá ter que cometer uma espécie de estelionato eleitoral, com medidas duras que não foram discutidas nem apresentadas durante a campanha”, diz.
O principal obstáculo, segundo Campos Neto, está nas regras que elevam automaticamente as despesas obrigatórias, como a política de reajuste real do salário mínimo e a vinculação dos gastos com saúde e educação à arrecadação: “Ninguém quis se comprometer, muito pelo contrário. As indicações foram de que as políticas continuam. Quem vencer vai ter dificuldade de fazer o ajuste”.
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Ainda assim, Silvio Campos Neto avalia que o próximo governo não terá como escapar das mudanças. Com os juros em patamar elevado, será necessário reverter o quadro, seja logo no início do mandato, seja no ano seguinte. “Muitas dessas medidas são politicamente bem difíceis, mas não tem como evitar esse tipo de mudança.”