No ringue da Band, guerra de lama: Flávio e Lula fazem um debate à imagem da campanha
No primeiro encontro frente a frente, os dois candidatos do segundo turno presidencial recorreram a acusações mútuas e repetiram argumentos já conhecidos. Sem novidades substanciais, as quase duas horas de programa foram marcadas por provocações, ironias e tentativas de explorar os passivos do adversário
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Enfim, Flávio Bolsonaro e Lula estiveram juntos no mesmo ambiente pela primeira vez nesta campanha presidencial.
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Havia muita expectativa em torno do debate da Band, na noite deste domingo, 18.
Os dois candidatos que chegaram ao segundo turno martelaram, durante quase duas horas, raciocínios já conhecidos dos eleitores.
O debate de propostas, sem novidades, restringiu-se aos momentos em que Flávio e Lula foram questionados pelos mediadores.
De resto, o tempo foi ocupado por aquilo que era esperado: acusações de mentiras, cinismos, sarcasmos e ataques que ilustram por que os dois nomes são, ironicamente, também os mais rejeitados pelos eleitores na disputa pelo Palácio do Planalto em 2026.
Não houve qualquer institucionalidade no tratamento entre os dois. Lula se referia a Flávio como “esse rapaz” e “cara”. Flávio fazia questão de se posicionar em segundo plano enquanto Lula falava, fazendo gestos de negativa com a cabeça ou com as mãos.
As provocações foram uma constante.
Flávio e Lula estavam cientes de que teriam de administrar passivos. Prepararam-se para não responder a perguntas e devolver investidas. O debate foi uma gangorra cansativa e, em alguns lances, maçante.
Do lado de Flávio, estava claro que ele elegeu temas como segurança pública e custo de vida como prioritários.
O candidato do PL disse, mais de uma vez, que, se eleito, defenderá “o direito dos brasileiros, não dos bandidos”. Repetiu a intenção de tratar facções e milícias como narcoterrorismo, criticou o que chamou de “política de desencarceramento” do PT e, em contraponto ao posicionamento recente de Lula, disse que sempre foi a favor da redução da maioridade penal.
Flávio também reforçou que seu campo político quer acabar com as saidinhas de presos. Lula, por sua vez, declarou ser contra o benefício para quem cometeu crimes hediondos, estupros ou assassinatos. Ponderou, porém, que, se o preso tiver comportamento adequado e estiver em processo de recuperação, considera injusto negar-lhe o direito de ver a família. Lula aproveitou para dizer que Flávio queria era dar indulto ao pai, Jair Bolsonaro, que cumpre pena em prisão domiciliar.
Flávio perguntou por que a maioria dos presidiários votou em Lula no primeiro turno. “Eu quero que vote 100%, até teu pai”, reagiu Lula.
Flávio tomou fôlego e lembrou que Lula foi condenado no âmbito da Lava Jato, em processos posteriormente anulados pelo STF. Sergio Moro, ex-juiz da operação e governador eleito do Paraná, e Deltan Dallagnol, ex-procurador e senador eleito pelo mesmo estado, estavam na primeira fileira da plateia, do lado reservado aos apoiadores de Flávio.
O modelo de debate, que permitiu aos dois administrar o próprio tempo e se movimentar pelo estúdio, criou situações mais agressivas.
Em um dos momentos em que ficaram bem próximos um do outro, Flávio chegou a pedir calma a Lula, acrescentando que estava “explicando algumas verdades”. Lula se afastou em dado momento, dizendo que queria “distância de miliciano”. Flávio retrucou que o espaço entre os dois se justificava porque a carteira dele poderia ser roubada.
Na resposta sobre propostas para a saúde, Flávio confirmou a intenção de indicar, se eleito, o médico Claudio Lottenberg para ministro da Saúde. Lula lembrou as mortes na pandemia, durante o governo de Jair Bolsonaro, e disse que pelo menos metade delas poderia ter sido evitada. Flávio fez uma espécie de mea-culpa ao afirmar que “a saúde não foi uma área que a gente teve o melhor resultado” no governo do pai, mas disse que as vacinas contra a Covid foram compradas.
“Você tomou vacina, Lula. Tem Bolsonaro dentro do Lula”, provocou.
O fim da escala 6×1, aprovado pelo Congresso na semana passada, esteve na pauta. Flávio disse que ouviu os trabalhadores e, por isso, votou a favor da mudança na jornada de trabalho. “Sei ouvir, sei escutar e, se for convencido, posso melhorar minha opinião”, alegou. Lula rebateu dizendo que Flávio não entendia do assunto porque nunca trabalhou. “Você conhece um cidadão que nunca trabalhou? É o Flávio Bolsonaro. Trabalhador pra ele é coisa de ficção”, disse.
O primeiro bloco incluiu 30 minutos de um duelo que resume a campanha presidencial deste ano: chumbo trocado de acusações, em que o objetivo era jogar lama no outro.
A sequência foi assim: Lula perguntou o que Flávio tinha contra as mulheres. Flávio perguntou sobre Roberta Luchsinger, que, na véspera, havia dado entrevista à CNN Brasil prometendo delatar informações que envolveriam Lula e o filho Lulinha no escândalo do INSS. Lula disse que a investigação era “uma questão da PF” e acusou o “careca do INSS” de ser sócio de Flávio.
Lula disse que “nós destruímos a quadrilha”, referindo-se às fraudes em aposentadorias. Flávio afirmou que no governo de Lula havia “muitas quadrilhas” e disse que Lulinha estaria fugindo. Lula retrucou que Eduardo, irmão de Flávio, está fugido nos Estados Unidos, “traindo a pátria”. Lula afirmou que, “no meu mundo, ninguém se esconde, as coisas são apuradas”. Flávio disse que “os seus governos, Lula, são sempre marcados pela corrupção”.
Não parava…
Lula pediu que Flávio explicasse sua relação com Daniel Vorcaro e por que “pegou 134 milhões [de reais]” com o banqueiro. Flávio disse que já deu “as explicações que tinha que dar” e que o dinheiro foi destinado à produção do filme sobre o pai. Acusou ainda “a PF de Lula” de “procurar quem são os alvos pré-determinados” nas investigações sobre o caso Master. Lula disse que o dinheiro não foi para o filme e falou em “desfaçatez do miliciano”. Também lembrou a mansão comprada por Flávio em Brasília.
“Seu pai te conhece e ele sabe que eu sou melhor que você. Ô, Bolsonaro, vota em mim”, foi a vez de Lula provocar.
Flávio quis pontuar que Lula se referia demais ao pai durante o debate.
“Vira a página do passado, Lula. Eu sou Flávio, Flávio.”
E teve mais.
Lula perguntava sobre Javier Milei, presidente da Argentina. Flávio retrucava citando Daniel Ortega, da Nicarágua, e Nicolás Maduro. Lula afirmou que a família Bolsonaro está submetida aos interesses dos Estados Unidos e lembrou o tarifaço. Flávio disse que “ninguém trabalhou para tarifar o Brasil” e chamou Lula de mentiroso. Lula se referiu a Flávio como “malandro carioca”.
Lula perguntou sobre quem iria recair o “tesouraço” prometido por Flávio. O candidato do PL respondeu: “Vou tirar de você e da Janja”, referindo-se à primeira-dama, que acompanhava o debate na plateia. Lula afirmou que Flávio perderia as eleições. Flávio reagiu dizendo que Lula estava “repreendido, em nome de Jesus”.
Se, no debate de 2016, quando disputou a Prefeitura do Rio de Janeiro, Flávio passou mal, desta vez ele transitava pelo estúdio com alguma desenvoltura. Pablo Marçal, seu aliado e ex-coach, acompanhava o debate da plateia.
“Ele treinou, gente. Ele melhorou muito para mentir”, disparou Lula, que usava uma gravata com as cores do Brasil. Flávio, por sua vez, recorreu novamente a um paletó sem gravata. Era um duelo também de forma.
Flávio tentou explorar o fato de o PT ter estado no poder durante tantos anos, elencou “recordes negativos” e prometeu criar o “Ministério da Prosperidade”, tema que tem sido igualmente explorado por Lula. O candidato do PT destacou o resultado das urnas no primeiro turno, quando ficou à frente de Lula: “No primeiro turno, o Brasil já escolheu a mudança. E, no segundo turno, vai escolher de novo”.
No último bloco, Lula disse que tinha um desafio para Flávio: que os dois abrissem as contas bancárias e os sigilos telefônicos e entregassem os documentos aos presidentes do STF e do TSE.
“Eu abro da minha família inteira e você abre o da sua. Para o povo saber quem é ladrão, quem é corrupto. Tenha coragem. Prove que é honesto.”
Flávio disse que não tinha “absolutamente nada a esconder” e emendou: “O problema é que seu dinheiro é por fora”.
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Na próxima sexta-feira, 23, antevéspera da eleição final, haverá um segundo e derradeiro debate entre os dois, na TV Globo. Não esperemos nada muito diferente.