Desconfiança com arcabouço: mercado não crê em cumprimento das metas fiscais até 2030
Um estudo do Bradesco mostra que as projeções do Boletim Focus para as contas públicas ficam abaixo da trajetória oficial em todos os anos
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O mercado financeiro não acredita que o governo federal entregará a trajetória de resultados primários prometida para os próximos anos. Um estudo do economista Thiago Angelis, do Bradesco, mostra que as previsões dos bancos e corretoras reunidas no Boletim Focus do Banco Central ficam abaixo das metas em todos os anos até 2030. A diferença é de 0,3 ponto percentual do PIB (a soma de tudo o que o país produz) em 2026 e chega a 1,3 ponto em 2030.
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Pelas regras atuais, o governo precisa aumentar a economia (superávit primário) entre o que arrecada e o que gasta, sem contar os juros da dívida, de 0,50% do PIB em 2027 para 1,50% em 2030. Para Angelis, o que ocorre agora no país é resultado de uma desconfiança em relação ao cumprimento das metas. A distância entre a previsão do mercado e a meta sobe de 0,34 ponto em 2026 para 1,27 ponto em 2030, e as diferenças entre as previsões dos analistas mais do que triplicam no mesmo período.
O estudo também compara dois momentos para ver o quanto o mercado acreditou nas promessas do governo. Em fevereiro de 2003, quando a meta de economia subiu de 3,75% para 4,25% do PIB, as previsões se ajustaram quase por completo (entre 84% e 100%) em três meses. Já em março de 2023, quando foram anunciadas as novas regras para as contas públicas, o chamado arcabouço fiscal, o governo prometeu passar de um rombo de 0,5% do PIB naquele ano para uma sobra de 1,0% em 2026. Nos três meses seguintes, a previsão do mercado para 2026 quase não se mexeu: andou só 0,02 ponto, ou 1,5% do caminho até a meta.
Segundo o economista, parte do problema são os descontos que o Congresso aprovou, a pedido do governo, para tirar certos gastos da conta da meta. Esses descontos cresceram com o tempo e isso deixa pouco claro qual é, de fato, a meta — e, claro, faz o mercado confiar menos nela. Em 2027, estão previstos descontos de R$ 65,66 bilhões, ou 0,45% do PIB. A proposta do orçamento da União de 2027 prevê uma sobra de R$ 18,6 bilhões contando todos os gastos, e de R$ 83,4 bilhões depois dos descontos.
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O relatório do Bradesco cita ainda um estudo do FMI com 41 países, sem incluir o Brasil. Segundo o trabalho, quando um governo com muita credibilidade anuncia que vai arrumar as contas, o efeito sobre as previsões do mercado alcança os preços de ações, títulos e outros investimentos. Para Angelis, se as decisões do próximo presidente recuperarem a confiança do mercado e a reação for parecida com a de 2003, a previsão para 2030 passaria de perto de zero para 1,15% do PIB. Segundo ele, o ganho pode ser ainda maior se as metas fiscais forem mais ambiciosas.