A cartada de bispos na reta final da eleição e o que há por trás desse movimento
Vídeos divulgados por religiosos católicos não são apenas uma manifestação genérica, mas uma operação de mobilização de um segmento da Igreja num momento eleitoral crucial
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O movimento de bispos católicos em favor do que estão chamando de “voto consciente” é parte de uma estratégia político-ideológica às vésperas das eleições de 2026.
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É preciso entender essa cartada religiosa na reta final da campanha que pode, sim, fazer alguma diferença numa disputa tão acirrada a partir da compreensão de que a Igreja Católica também está dividida. E de que mesmo os cardeais, por mais purpurados que sejam, não são porta-vozes do catolicismo.
Os vídeos divulgados nos últimos dias têm como protagonistas os “bispos amazônicos”, que atuam na região amazônica e têm muita força institucional na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). São unidos, identitários e mobilizados. Há quem diga que conseguiram conquistar uma certa autonomia e independência. Não raramente, agem por conta própria, sempre em bloco, sem esperar, necessariamente, a anuência e a bênção dos demais bispos.
Com alguma frequência, divulgam notas oficiais defendendo pontos ligados à proteção da Amazônia, com base, principalmente, em um documento chamado Laudato Si, encíclica publicada pelo papa Francisco em 2015, com um chamado para o cuidado da “casa comum”, ou seja, a Terra.
No Brasil e em outros países latinos, esse grupo se fortaleceu ainda mais após o Sínodo da Amazônia, uma assembleia especial convocada por Francisco em 2019.
Tradicionalmente, são bispos com uma forte identidade com o campo progressista e com as expressões católicas que, no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, serviram de base para movimentos sociais e para o PT do presidente Lula.
Durante décadas, ainda que esse pensamento nunca tivesse sido hegemônico, o grupo mais ligado à esquerda política era o único que tinha voz e espaço na CNBB, que se consolidou como a imagem institucional da Igreja Católica. Não havia muita discussão. E, portanto, o posicionamento durante as eleições era mais explícito, mesmo quando não havia uma recomendação direta de voto.
Os escândalos de corrupção em governos passados do PT, entre outros fatores, mexeram um pouco nessa estrutura. Surgiu uma leva de bispos, inicialmente menos barulhenta, com uma visão crítica em relação à postura dos colegas. De modo que, agora, em 2026, a forma de tornar pública a discussão política precisa ser mais cautelosa.
Todo o clero, porém, entende o recado dos vídeos desta semana.
“Nós conhecemos o posicionamento de cada um dos bispos. Pela expressão deles, pelo tom de voz, pelas palavras que escolheram nessas gravações, tudo fica muito claro. É um posicionamento pró-Lula e/ou anti-Bolsonaro, às vésperas das eleições. Mas eles não se comprometem. Ou melhor, eles se comprometem sem quererem se comprometer. Deixou de ser algo explícito mesmo, porque os tempos são outros. Hoje em dia, se forem muito explícitos, sofrerão críticas não somente dos fiéis, mas no próprio episcopado. Por isso esse cuidado deles em abordar a questão de maneira mais genérica, digamos assim. Mas todo mundo percebe”, comentou com a coluna um sacerdote de Brasília, pedindo reserva para não “instigar pecados”.
Não haverá qualquer repressão pública por parte de outros bispos a esse movimento em curso. Mesmo entre os que não concordam, existe uma espécie de pacto de respeito mútuo. Muitos já são de idade avançada e não querem comprar briga a esta altura da vida.
Se houver alguma fala oficial, dirão, algo nessa linha, que a Igreja não se envolve diretamente na campanha, não indica candidatos, mas não pode renunciar ao dever de contribuir para a formação da consciência ética da cidadania.
Neste caso específico, houve, sim, uma articulação que, no fundo, tem potencial de influenciar votos de fiéis a poucos dias do primeiro turno das eleições. Não à toa, lideranças partidárias do PT e da esquerda estão replicando as gravações nas redes sociais e em grupos de mensagens, e comemorando que os bispos despertaram.
Os “bispos amazônicos” chegaram a discutir a possibilidade de divulgarem mais uma nota longa e com linguagem eclesial. Mas chegaram à conclusão de que poderia ser algo chato, maçante, sem leitura e sem repercussão.
Foi assim que decidiram ligar a câmera, soltar a voz com as vestimentas litúrgicas e, com mãos postas, buscar viralizar a mensagem pelo “voto consciente”.
Os bispos juram que não houve qualquer determinação por parte da campanha de Lula ou do PT. Consideram essa suspeita, inclusive, uma afronta. A assessoria de Edinho Silva, católico, presidente do Partido dos Trabalhadores e homem forte da campanha à reeleição, negou qualquer relação dele com esses vídeos. “Movimento da própria CNBB”, respondeu à coluna.
O timing da divulgação desses vídeos não foi à toa.
As pesquisas indicam uma disputa presidencial bastante apertada. Qualquer observador da cena política sabe que, nesse contexto, detalhes decidirão o pleito de outubro. Os bispos sabem, e não há dúvidas de que essa constatação os levou a gravarem clamando por “efetiva participação política” e “soberania”.
“É muito ruim. Não pega bem. O que os bispos estão dizendo nesses vídeos são coisas importantes, são princípios e valores que, de fato, precisam ser levados em conta na hora da escolha do voto. Não há nada inadequado no conteúdo ou mesmo em desconformidade com a Igreja. O problema é que eles deixaram essa ‘educação política’, propositalmente, para a última hora. São coisas para serem ditas e assimiladas, sim. Mas esta é a pior hora para se fazer isso. Perde-se a mística e se adentra no campo do partidarismo. Isso é óbvio. Eles sabem. Por que não fizeram antes? Porque agora conseguem influenciar mais, interferir mais. É uma forçação de barra mesmo. Falta uma semana para a eleição”, discorreu outro religioso com trânsito na CNBB e enorme conhecimento dos bispos.
Na estratégia dos “bispos amazônicos”, não há uma intenção clara de rivalizar com os evangélicos bolsonaristas. Não é esse o ponto.
Ninguém, realmente, parece disposto a incentivar uma “guerra santa” para defender uma ideologia. Já está posto que a maioria dos católicos é Lula e a maioria dos evangélicos apoia o clã Bolsonaro. O que se pretende, na avaliação de religiosos consultados pela coluna, é “chacoalhar mesmo o nicho católico”, “agitar a própria base, os militantes históricos de dentro da Igreja na reta final”.
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Os vídeos divulgados até aqui servem como munição.