Próximo ciclo não terá um presidente forte, aposta diretor da Fundação FHC
Para o cientista político Sérgio Fausto, as mudanças no presidencialismo de coalizão, a falta de debate sobre temas importantes e os escândalos de parte a parte empobrecem a disputa política no Brasil
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Há uma década, a polarização política no Brasil mudou. Passou da rivalidade entre tucanos e petistas que embalou campanhas por mais de vinte anos para o embate entre lulistas e bolsonaristas. Ao olhar, de fora, o principal embate das eleições deste ano, a disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o cientista político Sérgio Fausto, diretor-geral da Fundação FHC, instituto criado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, vê um completo empobrecimento do debate político.
Para Sérgio Fausto, faltam discussões mais aprofundadas sobre governabilidade e sobre projetos para o país, com ideias para serem postas em prática no longo prazo. Na corrida presidencial deste ano, observa, a tendência é que o debate seja tomado por ataques recíprocos entre os dois principais candidatos. “O espírito é de destruição da figura do adversário, e haverá muita munição, já que é farta a oferta de escândalos de um lado e do outro. Isso não me parece um sinal promissor do ponto de vista da qualidade da governabilidade do país no próximo ciclo presidencial”, afirmou Fausto ao PlatôBR. “Nós sabemos que o presidencialismo de coalizão no Brasil mudou. O Congresso ganhou poder e o presidente e Executivo perderam poder. É muito difícil que tenhamos um presidente forte no próximo mandato presidencial, seja ele quem for”, acrescentou.
Neste momento, dois escândalos envolvendo os candidatos que lideram as pesquisas tomam conta da cena, e um lado usa as suspeitas de malfeitos do outro para se justificar. A campanha petista está às voltas com as suspeitas de tráfico de influência e corrupção que envolvem Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente, além de nomes da antessala do gabinete de Lula. Do lado da campanha do PL, ainda repercutem os áudios nos quais Flávio Bolsonaro aparece cobrando pagamentos ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master. “Se preparem para uma campanha baixa”, alerta Sérgio Fausto.
O cientista político participou nesta quinta-feira, 20, de um encontro com embaixadores do Grulac, formado por representantes de países da América Latia e Caribe. Na conversa com os diplomatas, ele buscou contextualizar as eleições brasileiras diante do cenário internacional. “Isso é um padrão internacional, que se coloca bastante forte aqui na região. Basta olhar o que foi o resultado no Peru, com Keiko Fujimori vencendo a eleição com um percentual baixo de votos. A mesma coisa ocorreu na Colômbia, e aqui no Brasil não será diferente”, afirmou.
Desafios dos polos
Fausto enxerga como maior dificuldade de Lula as desconfianças de agentes econômicos e do mercado financeiro a respeito da política econômica a ser adotada pelo petista, assim como a capacidade do atual presidente de diminuir os gastos. “Ele não terá vida fácil neste tema porque eles são particularmente complicados, e é particularmente complicado para o PT onde não há consenso em relação a isso. O próprio Lula não tem convicção sobre a necessidade do rigor fiscal”, diz.
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No polo oposto, o cientista política acredita que Flávio Bolsonaro “contratou uma crise institucional” ao dizer que pretende conceder um indultar ao pai, condenado no processo da tentativa de golpe. “Ele estará entre governar o país e cumprir a promessa de conceder um indulto, que é inconstitucional”, apontou. “Não figura entre as prerrogativas do presidente da República perdoar um ex-presidente que está condenado criminalmente por crimes contra a democracia. A possibilidade de que isso ocorra depende de uma chantagem sobre a corte, que precisará concordar com uma inconstitucionalidade. Isso só será possível se houver uma faca no pescoço do STF, com o Senado dominado em dois terços pela extrema direita. Parece muito improvável que isso venha acontecer”, aposta.