Sapucaí vira palanque com desfile militante e culto à imagem de Lula
A escola Acadêmicos de Niterói exaltou a figura do presidente, provocou adversários e deu força ao debate jurídico sobre propaganda antecipada
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A primeira escola do Grupo Especial a entrar na Marquês de Sapucaí abriu o Carnaval do Rio de Janeiro com enredo político-eleitoreiro. A Acadêmicos de Niterói escolheu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como protagonista do enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, criado pelo carnavalesco Tiago Martins e com apoio do enredista Igor Ricardo.
Do início ao fim, o samba exaltou momentos da trajetória do petista, evocou a mãe de Lula, Dona Linda, e a viagem de “13 noites e 13 dias” em um “pau-de-arara” de Garanhuns ao Guarujá. E inseriu na melodia o famoso: “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”, além de duas menções ao número 13. A avenida também ecoou o jingle histórico do político, “Lula, lá” a pouco mais de sete meses antes das eleições presidenciais de outubro.
O desfile no principal Carnaval do país não se limitou à biografia. Incorporou temas que o próprio presidente e o PT destacam como eixo de campanha: soberania e defesa de um Brasil mais popular e contra o domínio da elite. A performance da escola foi organizada por alas que encenavam a migração nordestina, o sindicalismo no ABC Paulista e o protagonismo de Lula na busca pela democracia e a relevância dos pobres e trabalhadores. O combate à fome e a “vitória” do amor também foram representados na avenida.
A obra “Ainda Estou Aqui”, vencedora do Oscar como “melhor filme internacional”, apareceu em destaque no desfile e no samba-enredo em referência ao período da ditadura militar no Brasil. O ator e humorista Paulo Vieira interpretou Lula na avenida, enquanto o presidente assistia a homenagem do camarote da Prefeitura do Rio, ao lado do prefeito Eduardo Paes (PSD). Ele chegou a descer para cumprimentar o casal de mestre-sala e porta-bandeira, além de artistas que o apoiam.
Lula, que assistia ao desfile do camarote da Prefeitura do Rio, desceu à avenida junto com Eduardo Paes para cumprimentar integrantes da escola
As provocações políticas também marcaram o desfile na Marquês de Sapucaí. Antagonista de Lula, Jair Bolsonaro surgiu caricaturado como o palhaço Bozo, em traje listrado típico de presidiário, feição triste e espantada e de tornozeleira eletrônica escangalhada. Na evolução, da escola, conservadores foram retratados como latas de conserva. Na comissão de frente, performance que abre os desfiles, o palhaço Bozo contracenava com um personagem que retratava o ex-presidente Michel Temer, que o entregava a faixa presidencial após tomá-la de Dilma Rousseff (PT). Lula surgia de maneira épica, subindo a rampa do Planalto ao lado de apoiadores, em uma cena que buscava reconstituir sua posse de 2023.
A primeira-dama Janja da Silva era esperada para integrar um dos carros alegóricos, mas desistiu de última hora e foi substituída pela cantora Fafá de Belém. Apesar de ter participado do ensaio, a mulher do presidente e outros integrantes do governo seguiram a orientação da área jurídica do governo sobre o risco eleitoral da homenagem. Em meio às acusações de propaganda antecipada, optou-se pela cautela – muito embora as críticas da oposição tenham tomado conta das redes sociais.
Antes, durante e depois, o desfile da Acadêmicos de Niterói dividiu o Brasil já polarizado. De um lado, aliados de Lula celebraram a homenagem, considerada “espontânea”. De outro, a oposição acionou a Justiça e o Tribunal de Contas da União (TCU) contra a escola.
Apontado hoje como principal adversário do petista em outubro, o senador Flávio Bolsonaro (PL) acusou o rival de usar dinheiro público para autopromoção. “O Brasil vive uma depravação moral generalizada, sem precedentes em sua história. Lula esfola o povo com aumento de impostos e usa esse mesmo dinheiro arrecadado para fazer campanha antecipada pra ele mesmo”, escreveu o senador nas redes. Na manhã desta segunda, 16, ele anunciou que protocolará “rapidamente” no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) uma ação contra “os crimes do PT na Sapucaí”.
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No Carnaval carioca deste ano, o governo federal destinou R$ 12 milhões às escolas do Grupo Especial do Rio. Graças a esse repasse, feito pela Embratur, a Acadêmicos de Niterói deve receber algo em torno de R$ 1 milhão, como incentivo cultural.