Teste para a reaproximação: os pontos sensíveis da visita de Lula a Trump
Na viagem a Washington, prevista para março, os dois governos devem tratar de sobretaxa a produtos brasileiros, Venezuela, segurança pública, Conselho de Paz para Gaza e minerais críticos
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A visita do presidente Lula aos Estados Unidos, prevista para março, vai tratar de questões delicadas da relação entre os dois países e será mais um teste na aproximação com Donald Trump, iniciada em rápido encontro na ONU (Organização das Nações Unidas) em setembro do ano passado. Do lado brasileiro, os principais pontos levados a Washington dizem respeito ao tarifaço imposto por Trump, em julho do ano passado a produtos brasileiros. Parte das sobretaxas foi retirada, mas ainda há tarifas excessivas sobre alguns produtos exportados para os americanos.
Outro assunto é a segurança pública e o combate ao crime organizado. O Brasil quer fazer um acordo de cooperação com os Estados Unidos nessa área, visando o combate ao crime transnacional. Na pauta desse acordo, o governo brasileiro espera inserir mecanismos de troca de informações, integração de investigações e ações conjuntas contra facções com atuação internacional.
Além disso, há vários temas que tocam na questão global. O Brasil vai insistir no respeito à soberania dos países na América Latina e pretende tratar do convite feito por Donald Trump para que o país integre o chamado Conselho de Paz, idealizado para formular uma solução para a Faixa de Gaza, destruída pela guerra.
Lula já expressou não ter gostado da fórmula apresentada por Trump para o conselho e o Brasil respondeu ao convite pedindo modificações no texto, com objetivo de tornar mais plural a composição, exigindo a presença da Autoridade Palestina no grupo. Ainda não houve resposta dos Estados Unidos a essa manifestação enviada pelo governo brasileiro.
Além desse tema, há também a questão da Venezuela. O Brasil tem se colocado à disposição, no entanto, apesar da “química” com Trump, Lula não tem encontrado caminhos para interferir na crise, após os Estados Unidos invadirem o país e prenderem o antigo presidente, Nicolás Maduro.
Nesse assunto Lula não foi chamado a intermediar uma solução, nem por Trump nem pela presidente interina, Delcy Rodriguez. Esse contexto é tratado como um ponto delicado e o presidente ainda procura entender se há abertura para avançar na conversa.
O que Trump quer?
Ainda não há uma data acertada para a visita. Lula disse que será em março e, em telefonema com Trump no mês passado, informou que pretende ir após a volta da viagem que fará à Índia e à Coreia do Sul no final deste mês. O governo descarta a possibilidade de Lula seguir direto para os Estados Unidos após visitar esses dois países.
Quanto aos temas de interesse dos americanos, o governo brasileiro prevê que a exploração de minerais raros certamente será levantada por Trump. Os Estados Unidos enxergam o Brasil como um importante parceiro estratégico para o mercado de minerais críticos devido às reservas existentes no país.
O Brasil foi convidado pelos EUA para integrar um conselho para definir as formas de exploração desses recursos. O governo Lula resiste a aceitar pontos que restringem a comercialização com outros parceiros e exige transferência de tecnologia com o objetivo de agregar valor às exportações desses recursos.
Os minerais críticos entraram no radar principalmente diante das manifestações públicas de autoridades do governo americano. Na semana passada, o subsecretário dos Estados Unidos para assuntos econômicos, energéticos e comerciais, Caleb Orr, disse que os Estados Unidos estão interessados em investir em projetos no Brasil nessa área e anunciou a aplicação de recursos em terras raras em Goiás.
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Apesar de não haver interferência do governo brasileiro nesse projeto, intermediado pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), o Planalto enxerga com bons olhos o acordo, fechado no início deste mês para financiar a mineradora brasileira de terras raras Serra Verde com o valor de US$ 565 milhões, cerca de R$ 2,9 bilhões.