Éntre réplicas e tréplicas

Do avião à aliança eleitoral

Em 2006, Lula e Alckmin trocaram ataques. Dezesseis anos depois, tornaram-se aliados

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O avião presidencial entrou no debate de 2006. Em 8 de outubro, na Band, Geraldo Alckmin prometia trocar a aeronave por hospitais; Lula considerava absurda a proposta. A discussão sobre gastos públicos acabava de ganhar asas.

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Lula recorreu a uma lembrança de sindicalista: quando o sindicato comprara um Fusca para distribuir panfletos, também houvera críticas. O candidato à reeleição defendia a necessidade do avião; o desafiante apresentava a compra como retrato do desperdício. Entre um jato e um Fusca, nenhum dos dois cogitou oferecer carona ao outro.


Aquele era o primeiro debate entre eles no segundo turno. Lula havia faltado ao último encontro do primeiro turno, e Alckmin chegou disposto a cobrar a conta. O tucano pressionou o adversário sobre corrupção, despesas e a origem do dinheiro apreendido com petistas no caso do dossiê contra adversários. A temperatura subiu muito além da discussão aeronáutica.


Alckmin disparou: “Não minta, Lula”. Em outro momento, cobrado sobre o dinheiro do dossiê, Lula respondeu: “Não sou policial, sou presidente da República”.


A resposta de Lula delimitava a responsabilidade pela investigação, mas não encerrou a ofensiva. Alckmin trouxe uma imagem que dispensava apresentação de slides: os casos do governo formariam “uma lista telefônica de corrupção”.


O objeto ainda era familiar ao público em 2006. Bastava imaginar aquele calhamaço para entender o tamanho da acusação. Lula rejeitava os ataques e acusava o rival de repetir fórmulas decoradas. Entre as cobranças daquela noite, vieram a advertência do presidente, “Não seja leviano, não seja leviano”, e a acusação do tucano: “Quanta mentira”.


A privatização abriu outra frente. Lula associou Alckmin às vendas de estatais nos governos do PSDB e levou o argumento ao limite: “Quando não tiver mais o que vender, vai vender a Amazônia?”. O adversário negava que pretendesse privatizar Petrobras, Caixa ou Correios. A floresta entrara no debate como exagero retórico, não como anúncio de uma proposta tucana.


Foi nesse ambiente que Lula resolveu comentar o temperamento do concorrente: “Ficar bravo não faz teu gênero, Alckmin”. O presidente tentava transformar a agressividade do ataque numa dificuldade do atacante. Alckmin, conhecido pela imagem de comedido, queria mostrar firmeza. Lula procurava devolver-lhe o papel de homem que não combinava com a própria bronca.


A televisão oferecia dois candidatos e várias disputas simultâneas: quem explicava melhor, quem acusava mais, quem parecia tranquilo e quem conseguia provocar o outro. Naquela noite, o inventário passou por avião, carro, lista telefônica e floresta. Nenhum desses objetos substituía o debate sobre o governo, mas todos ajudavam a embalá-lo para a memória do eleitor.


A ironia mais duradoura não seria dita diante dos microfones. Viria dezesseis anos depois, quando Alckmin aceitou ser vice na chapa de Lula. Os adversários de 2006 fizeram campanha juntos em 2022 e venceram. Na eleição deste ano, continuam como companheiros de chapa. Quem guardara o duelo do avião precisou atualizar o álbum: os homens que se acusavam agora dividem novamente o palanque.


Em 29 de outubro de 2006, Lula foi reeleito com 58.295.042 votos, 60,83% dos válidos. Geraldo Alckmin recebeu 37.543.178 votos, 39,17%.


Desavenças históricas

Montoro x Jânio

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“Está aqui o livro”, insistiu então Franco Montoro (foto). Era 1982, num debate pelo governo paulista. Ele cobrava de Jânio Quadros explicações sobre os custos de sua renúncia à Presidência, em 1961, citando uma avaliação atribuída ao ex-ministro Clemente Mariani. Jânio quis saber quem assinava a obra. Ao ouvir o nome de Carlos Lacerda, seu maior adversário político, dispensou a citação e acusou Montoro de “citar as escrituras valendo-se de Asmodeus ou de Satanás”. A resposta desviou a discussão para a credibilidade da fonte e arrancou gargalhadas dos presentes.

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