Entrevista aécio neves - Deputado federal e candidato ao senado

"Nós desaprendemos a fazer política ao longo dos últimos anos"

Ex-governador diz que Minas deixou de ser referência na política nacional e defende mais "racionalidade" e mudança no programa de renegociação da dívida com a União

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O deputado federal e ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves (PSDB) disse que resolveu disputar mais uma vez uma vaga no Senado para “colocar um pouco de racionalidade nesse jogo” e defender o estado. E que não é atrelado nem ao petismo nem ao bolsonarismo e pretende ter boas relações como senador, caso seja eleito, com qualquer que seja o novo presidente da República, em nome do interesse dos mineiros.

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Para ele, Minas “desidratou politicamente e perdeu espaço nacionalmente. “Minas deixou de ser uma referência na hora de decidir as grandes questões nacionais. Coloque aí a reforma da Previdência, a reforma tributária. Não há presença mais de Minas. Minas se afastou do centro das grandes decisões. Nós desaprendemos a fazer política ao longo dos últimos anos”, afirmou o candidato ao programa EM Minas, parceria do Estado de Minas, do Portal UAI e da TV Alterosa.


O candidato disse também que recebeu telefonema de José Sarney de apoio à sua candidatura ao Senado e que ouviu do ex-presidente da República questionamentos sobre o que teria acontecido com a representação política de Minas Gerais.


Aécio foi governador de Minas por dois mandatos, entre 2003 e 2010, e senador entre 2011 e 2019. Em 2014, chegou ao segundo turno da corrida presidencial, mas perdeu para Dilma Roussef (PT), que foi reeleita.


Ele decidiu ser candidato ao Senado depois de anunciar publicamente que não disputaria este ano, após quatro décadas exercendo cargos legislativos. Na entrevista, ele ainda defendeu uma mudança no Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) para que o prazo de quitação do débito de cerca de R$ 180 bilhões com a União seja alongado com o objetivo de sobrar recursos para investimentos.


Criticou ainda o governo Romeu Zema (Novo) por não ter adotado, segundo ele, nenhuma política para reestruturar a dívida do estado, mesmo tendo governado sob uma liminar do Supremo Tribunal Federal que permitiu ao estado não pagar a dívida durante seu mandato. Caso seja eleito senador, ele afirmou que tem pronta uma proposta de emenda à Constituição (PEC) para elevar o investimento do governo federal na saúde, diminuindo a pressão desses gastos sobre as prefeituras.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista e assista à íntegra no portal do UAI no YouTube.


Por que o senhor resolveu concorrer novamente a uma vaga no Senado?
Vamos precisar do Propag 2. Se nós, nos próximos quatro anos, não alargarmos o tempo de pagamento dessa dívida, não diminuirmos o impacto dela na nossa receita, Minas corre o risco de não ter recursos para pagar os salários dos servidores. E acho que, com o conhecimento que tenho, com as relações que tenho, consigo constituir uma bancada dos estados devedores. Já conversei com alguns senadores e vamos fazer uma bancada de mais de 20 senadores. E o governo, quando quiser aprovar os seus projetos, qualquer que seja o governo, vai ter que conversar conosco. E nós vamos colocar uma condição: negociar em melhores condições a nossa dívida para sobrar dinheiro para a saúde, para sobrar dinheiro para arrumar as nossas estradas, para a segurança pública. Isso é fazer política. E nós desaprendemos a fazer política, infelizmente, ao longo dos últimos anos.

Qual seria a solução definitiva para a dívida e o que o senhor, caso eleito, faria de diferente do que está sendo feito hoje no Senado?
Dar voz a Minas Gerais. Dar visibilidade política, influenciar nas grandes questões nacionais. Minas sempre foi isso, desde lá atrás, desde Juscelino (Kubitschek), desde Tancredo (Neves). No nosso próprio governo, nós tínhamos presença nacional muito marcante. (...) Eu tenho uma proposta em relação à negociação da dívida. O Propag estendeu o prazo de pagamento da dívida para 30 anos, com impacto em 13% da nossa receita corrente líquida, portanto comprometida com o pagamento. Hoje, nós estamos pagando apenas 20% da dívida (...) Eu defendo um alongamento para 50 anos. Isso obviamente diminui as prestações e causa um impacto apenas de 8% da nossa receita corrente líquida, gerando ali um espaço fiscal para investimentos. (...) E quero apresentar como proposta de negociação para que esses recursos que saem do Tesouro de Minas para pagamento dessa dívida retornem para o estado em investimentos, pactuados com a União. Tenho também pronta uma PEC do financiamento da saúde. Hoje, a União participa com 40%, os estados e municípios com 60%, sendo que os municípios, em média, participam com 35%, 36% do financiamento. Não sobra dinheiro para nada. Minha proposta é, a partir do aumento de receita (...), diminuir em 0,5% a participação dos municípios e aumentar em 0,5% a participação da União pelos próximos 10 anos. Nós vamos equalizar de novo a questão da saúde, tirando dos municípios o ônus, a pressão que eles têm para bancar quase metade dos investimentos em saúde pública.


O cenário político atual, tanto em Minas Gerais quanto no Brasil, continua polarizado. O que mudou desde quando o senhor disputou a Presidência em 2014 para a polarização que a gente vive hoje?
Eu conversava com aqueles partidos mais à esquerda, conversava com os partidos mais à direita e construía consensos. Eu aprendi, minha escola tancrediana me ensinou, que a política é feita para fazer pontes, para construir consensos em torno de projetos que mudem a vida das pessoas. Hoje, não. Hoje o que está prevalecendo é a guerra política. O adversário é inimigo a ser dizimado. Não se olha mais para a frente, olha para o lado para ver quem atropela mais o outro. Essa não é a minha forma de fazer política e acho que isso tem feito muito mal ao Brasil.


O que o senhor considera a principal necessidade de Minas Gerais?
Ter condições de voltar a investir. Minas Gerais passou os últimos oito anos sem pagar o serviço da dívida em razão de uma liminar obtida pelo governo anterior ao atual no Supremo Tribunal Federal e não conseguiu construir nenhum projeto estruturante de verdade que melhorasse a vida dos mineiros. Eu vou dizer que existem duas coisas que convergem, que se encontram ali na frente, mas que estão em falta em Minas Gerais: primeiro, força política. A gente tem que voltar a interferir nas grandes questões nacionais. E também termos um governo que organize as contas públicas, que tenha prioridades claras. (...) A questão da segurança pública está um caos, por isso tenho apoio na segurança pública.


O PSDB perdeu espaço nacionalmente nos últimos anos. O que aconteceu com o partido, que já teve tanta expressividade no cenário nacional?
Perdemos força, perdemos eleições. A minha eleição em 2014, perdida por muito pouco, e o Brasil também perdeu um caminho virtuoso ali, levou ao declínio do partido. (...) E o Brasil se radicalizou: vem Bolsonaro, leva a facada, com uma agenda de polarização com o PT, e ocupou o nosso espaço. Mas o Brasil está cansado dessa polarização e vai reabrir espaço para o centro.


Numa possível vaga novamente no ano que vemao Senado, como é que seria ali a relação com um governo de esquerda, por exemplo, em caso dereeleição de Lula?
Tenho divergências conceituais com o PT, mas somos todos democratas. Então, tivemos uma relação extremamente republicana, e é essa que eu vou ter. Eu não sei quem vai ser o próximo presidente da República, mas qualquer que seja ele, se eu tiver a honra de representar os mineiros mais uma vez no Senado, ele vai me encontrar lá com autoridade política, com articulação política para defender os interesses de Minas Gerais. Seja o presidente Lula, seja um outro presidente, seja Flávio, seja quem for. Portanto, eu serei o senador, se vencer as eleições, de Minas, não de um lado nem de outro.


E quais as promessas, caso o senhor seja eleito, que o mineiro pode te cobrar daqui quatro anos, caso elas não sejam cumpridas?
Primeiro, fazer política com a mesma responsabilidade, com a mesma seriedade que eu fiz ao longo de todos estes anos. E o governo de Minas talvez seja a marca mais clara que os mineiros mais se recordem. Eu quero reverter a curva do financiamento da saúde, quero ampliar a CFEM (Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais). Como senador da República, fui o relator do projeto anterior da CFEM, que mais que triplicou os recursos para os municípios mineradores e, inclusive, para municípios não mineradores, mas que fazem parte da cadeia de escoamento da produção. Foi o último momento no Senado Federal que Minas se articulou. O Marcus Pestana (ex-deputado federal pelo PSDB), meu ex-secretário da Saúde, fez um belíssimo trabalho na Câmara. Fomos para o Senado, conversei com todos os parlamentares do Brasil, negociei com o Nordeste uma pauta que era cara para o a região, para que eles votassem a nossa pauta, e hoje esses municípios vivem numa situação muito melhor.


Sobre a disputa de 2014: o senhor faria alguma coisa diferente naquela eleição?
Faria. Eu, na fase final, fui de estado a estado tentar virar os votos do Nordeste. De forma pragmática, talvez devesse ter me concentrado inclusive mais em Minas Gerais para tentar potencializar os votos que nós tínhamos aqui. Mas não me arrependo de ter pregado o que preguei: um governo diferente de tudo o que nós vimos depois.


O senhor considera que a polarização que começou naquela eleição pode ter instigado uma crise maior que veio depois?
São momentos distintos. Nós tínhamos um confronto com o PT, mas o próprio Lula tem dito aí que tem saudades daquele tempo, porque era dentro da racionalidade, da linha democrática. Eu nasci aprendendo que, na política, são as ideias, não os homens, que brigam. Por isso, tenho uma relação hoje extremamente positiva com muitas lideranças do PT de todo o Brasil, inclusive de Minas Gerais.


Dentro da sua trajetória política, de alguma decisão o senhor se arrepende?
Olha, eu devo ter errado muito. Fui vítima de uma armação extremamente covarde que a Justiça desbaratou, desmascarou, mas tenho muita fé na política. Não acredito que haja solução para a vida das pessoas que não seja através da boa política. Portanto, sou candidato hoje ao Senado para não me arrepender lá na frente de não ter me colocado novamente à disposição dos mineiros.


O senhor acredita que a sua imagem política é mais associada ao governador ou ao candidato de 2014?
É uma soma dos dois, mas estou andando por Minas agora nessa campanha e o que vejo em cada parte, sem exceção, é muito reconhecimento ao que foi feito. Então, acho que o nosso governo ficou marcado com conquistas muito positivas em absolutamente todas as regiões do estado. Então, talvez a minha imagem como governador seja aquela que eu percebo hoje para os mineiros, pelo menos, que será mais forte. 

“A política é feita para fazer pontes, para construir consensos em torno de projetos que mudem a vida das pessoas. Hoje, o que está prevalecendo é a guerra política. O adversário é inimigo a ser dizimado. Não se olha mais para a frente, olha para o lado para ver quem atropela mais o outro”

“Nós tínhamos um confronto com o PT, mas o próprio Lula tem dito aí que tem saudades
daquele tempo, porque era dentro da racionalidade, da linha democrática. Eu nasci
aprendendo que, na política, são as ideias, não os homens, que brigam”

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“Como senador da República, fui o relator do projeto anterior da CFEM, que mais que triplicou os recursos para os municípios mineradores e, inclusive, para municípios não mineradores, mas que fazem parte da cadeia de escoamento da produção. Foi o último momento no Senado que Minas se articulou”

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