As táticas dos candidatos na corrida eleitoral ganham as ruas
Ao todo, serão 12 postulantes ao cargo máximo da República. Aqueles com maiores chances nas pesquisas de intenção de voto escolheram seus berços eleitorais para lançar, hoje, as campanhas. Lula estará em São Bernardo, e Flávio, em Copacabana
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Os dois candidatos mais bem pontuados nas pesquisas eleitorais — o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro (PL) — colocam suas campanhas nas ruas, hoje, em cenários carregados de significado em suas respectivas carreiras políticas para marcar a largada.
Com o lema "onde tudo começou", Lula estará, a partir das 9 horas, no Estádio Municipal 1º de Maio, na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), onde fez um de seus primeiros discursos como sindicalista, em 1979.
Flávio Bolsonaro fará um ato na orla de Copacabana, no Rio de Janeiro, espaço associado às grandes manifestações de apoio a seu pai, Jair Bolsonaro, nos últimos anos.
A escolha dos palcos traduz, em parte, a estratégia que cada campanha pretende levar para os próximos 49 dias até a votação.
Lula recorre à própria biografia e à imagem de liderança construída ao longo de décadas, enquanto Flávio procura se apresentar como herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro sem ficar restrito ao eleitorado que já se identifica com o bolsonarismo.
A largada ocorre em um cenário ainda aberto. A pesquisa Quaest divulgada na última sexta-feira mostra Lula com 38% das intenções de voto no primeiro turno, ante 31% de Flávio. No segundo turno, a diferença cai para três pontos: 43% a 40%, com margem de erro de dois pontos percentuais.
Os demais levantamentos recentes também apontam Lula na dianteira, mas registram uma distância menor em um eventual segundo turno. Na pesquisa BTG/Nexus, divulgada em 10 de agosto, o petista aparece com 40% contra 35% de Flávio no primeiro turno.
Na simulação de segundo turno, Lula tem 47%, e o senador, 44%. Já o levantamento CNT/MDA, divulgado no dia seguinte, mostra uma diferença maior: 42,4% a 28,7% no primeiro turno e 48% a 39,1% no segundo. Os resultados, portanto, variam de acordo com a metodologia e o momento de cada levantamento, mas convergem em um ponto: Lula começa a campanha à frente, enquanto Flávio aparece como o principal nome de oposição e tenta reduzir a distância.
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Para Lula, a experiência de quem já ocupou o Palácio do Planalto por três mandatos é uma das principais ferramentas eleitorais. Aos 80 anos, o presidente deverá explorar a comparação entre o governo atual e os anos de Jair Bolsonaro, buscando apresentar resultados econômicos e sociais como argumento para a continuidade.
A campanha também pretende aproximá-lo de segmentos que não integram tradicionalmente o eleitorado petista, sobretudo jovens, enquanto a primeira-dama Janja da Silva deve ganhar espaço na comunicação eleitoral depois de críticas à ausência de mulheres na convenção que oficializou a candidatura. Alckmin e o ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, também estão previstos entre os participantes do ato de lançamento em São Bernardo.
A economia deverá ocupar uma posição central nessa narrativa. A campanha petista pretende associar o governo à melhora nos indicadores de emprego, valorização do salário mínimo — que em 2027 será de R$ 1.717, conforme previsto no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias elaborado pela atual equipe econômica — e recuperação da renda.
Outro tema explorado pela campanha petista é a relação do Brasil com os Estados Unidos. O conflito comercial provocado pelo tarifaço do governo de Donald Trump abriu espaço para que Lula reforçasse o discurso de defesa da soberania.
A ideia é associar o discurso bolsonarista à submissão ao governo Trump. "Se o Brasil tem a segunda reserva de metais críticos do mundo, essa riqueza é nossa. Não pode a família Bolsonaro entregar isso para o Trump. O Trump vai fazer o Brasil virar colônia de novo, não exportar", disse, Edinho Silva, presidente do PT, em entrevista na última quinta-feira.
Mas há muitos obstáculos a enfrentar. A avaliação do governo permanece dividida e a eleição se desenha em ambiente de forte polarização. A pesquisa Quaest mostra 48% de desaprovação do governo, enquanto 53% dos entrevistados dizem acreditar que o país está indo na direção errada. A rejeição também é elevada entre os dois principais candidatos: 52% para Lula e 54% para Flávio.
A herança paterna
No campo bolsonarista, o desafio é manter eleitorado independente. Ontem, por exemplo, Flávio comeu pão com leite condensado, marca registrada de Jair Bolsonaro, em sua padaria favorita.
A estratégia preserva temas tradicionais da direita, como segurança pública, críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF), defesa dos condenados pelos atos de 8 de Janeiro, responsabilidade fiscal e redução do tamanho do Estado. Ao mesmo tempo, a campanha tenta abrir novas frentes de diálogo com mulheres, jovens e eleitores de centro-direita.
O programa de governo apresentado por Flávio passou a dedicar mais espaço às mulheres, com propostas voltadas à autonomia financeira e à saúde feminina. A tentativa de ampliar a interlocução com esse eleitorado ganhou importância depois da escolha de Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice.
A campanha havia considerado a possibilidade de uma mulher para ocupar a vaga, em uma tentativa de reduzir resistências à candidatura, mas acabou optando pelo deputado alagoano. A escolha colocou sobre Michelle Bolsonaro e Fernanda Bolsonaro parte da tarefa de construir uma comunicação específica com as eleitoras.
Michelle voltou a aparecer publicamente ao lado de Flávio durante as gravações da campanha depois do período de afastamento entre os dois. A participação da ex-primeira-dama, entretanto, deverá ser conciliada com sua própria agenda política e com os cuidados dedicados a Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar após condenação a 27 anos e três meses de prisão.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, disse ao Correio que Michelle terá papel relevante na campanha, mas ressaltou que ela também está envolvida na organização de sua própria candidatura ao Senado e na estruturação do PL Mulher.
"A Michelle Bolsonaro terá um papel fundamental na campanha. Ela está se organizando para ser candidata ao Senado e estruturou o PL Mulher em todo o país", afirmou Valdemar.
Fernanda Bolsonaro deve aparecer em conteúdos destinados principalmente ao público feminino e na construção de uma imagem mais familiar do candidato. A estratégia é apresentar Flávio como marido e pai, aproximando-o de um eleitorado que não necessariamente se identifica com os embates políticos mais duros associados ao bolsonarismo. A família, ao mesmo tempo, continua sendo um dos principais elementos de identificação do candidato com a base construída pelo ex-presidente.
A campanha também deverá contar com o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) para ampliar a presença de Flávio nas redes sociais. Embora tenha se afastado inicialmente das atividades da campanha e concentrado sua atuação em Minas Gerais, há relatos nos bastidores de que o deputado deverá ajudar na comunicação digital da candidatura e dialogar com o público jovem de todo o país.
Nos últimos meses, Nikolas vinha sendo alvo de críticas de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, que está nos Estados Unidos, sob a avaliação de que o deputado mineiro não estaria suficientemente engajado na campanha presidencial.
Um aliado ouvido pelo Correio sob reserva, contudo, afirma que Nikolas sempre esteve à disposição. "Nikolas sempre esteve à disposição, pois é um deputado que tem muita consideração ao ex-presidente Jair Bolsonaro, mas que esperava o melhor momento para entrar na campanha", disse a fonte. A aproximação acrescenta à candidatura um dos principais nomes da direita nas redes sociais e reforça a tentativa de Flávio de alcançar eleitores jovens.
A comunicação digital será particularmente importante para Flávio porque o candidato precisa alcançar eleitores que não necessariamente participam de atos de rua ou acompanham a propaganda política tradicional.
Na disputa pelo eleitorado, Alfredo Gaspar terá outra função. Ex-secretário de Segurança Pública de Alagoas e deputado federal, ele poderá ser utilizado para reforçar a agenda de combate à criminalidade, mas também para explorar o desgaste do governo Lula em torno das fraudes envolvendo descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A campanha pretende associar o episódio a falhas de fiscalização e gestão do governo petista. O tema permite que Flávio ataque o adversário sem abandonar uma das principais bandeiras de sua própria candidatura: segurança pública.
A escolha de Copacabana para o primeiro ato segue a mesma lógica. A orla foi palco de algumas das maiores mobilizações de apoio a Jair Bolsonaro e tornou-se um dos espaços mais conhecidos de demonstração de força do bolsonarismo no Rio. Ao iniciar a campanha ali, Flávio reforça a conexão com o legado político do pai e tenta produzir uma demonstração de mobilização logo no primeiro dia oficial da corrida. A campanha também avalia agendas em outros locais associados à trajetória de Bolsonaro, como Juiz de Fora (MG), onde o ex-presidente sofreu um atentado a faca durante a campanha de 2018.
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O problema para Flávio é transformar essa capacidade de mobilização em votos suficientes para avançar além do núcleo bolsonarista, tendo em vista a rejeição apontada pela Quaest. O levantamento também indica que ele tem desempenho mais forte entre evangélicos, eleitores com ensino superior e pessoas com renda acima de cinco salários mínimos, enquanto Lula apresenta vantagem entre eleitores de baixa renda, católicos, pessoas negras e de menor escolaridade. Entre os jovens de 16 a 34 anos, os dois aparecem próximos.