ENTREVISTA/NEWTON CARDOSO JR.

"Nunca vi em Minas essa verdadeira improvisação"

Parlamentar critica indecisão de partidos nas convenções que formalizaram candidaturas

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“Essa política indecisa que nós vimos em boa parte dos partidos este ano, nunca vi acontecer em Minas Gerais. Nunca vi chegar próximo do período de convenções com vários partidos nem sequer com nomes, nem sequer com acordos feitos. Essa verdadeira improvisação.” A avaliação sobre o atual cenário da política mineira é do presidente do diretório do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) em Minas Gerais, o deputado federal Newton Cardoso Jr.

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“Nós encerramos os prazos para as convenções partidárias recentemente e estamos vendo uma dificuldade até de conseguir vice. Parte da política mineira que escolheu o caminho das eleições majoritárias este ano me lembra novela mexicana de baixo orçamento, bem ruim”, afirmou também o filho do ex-governador Newton Cardoso (1938-2025), em entrevista ao EM Minas, programa do Estado de Minas em parceria com a TV Alterosa e o Portal Uai. Enquanto isso, segundo ele, o MDB atuou com “planejamento, antecedência, clareza e coerência”, “uma novela das oito, do horário nobre, que mostra o verdadeiro compromisso” com Minas Gerais.


Segundo o parlamentar, o lançamento da candidatura de Gabriel Azevedo, ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte, ao governo de Minas, não passou por nenhum acordo em gabinetes de Brasília. “Toda a construção da candidatura própria com o nome do Gabriel Azevedo foi feita de Minas para Minas”, disse. Leia a seguir a entrevista do parlamentar, que defendeu a neutralidade do MDB na disputa presidencial.


Quando você viu que também queria seguir essa trajetória política e não só acompanhar a história da sua família?
Até 2012, eu tinha funções exclusivamente no setor privado. Meu saudoso pai, Newton Cardoso, chegou para mim e falou: “Eu quero que você seja candidato na chapa como vice-prefeito em Contagem”. Eu disse para ele: “Não tem como eu aceitar essa missão”. Ele ficou muito bravo. Procurei e disse: “Pai, eu não posso ser candidato nesse ano, mas em 2014 eu disputo o seu lugar como deputado federal”. Ele olhou para mim e respondeu: “Tá feito.”


O que você traz do lado empresarial que faz a diferença dentro de um mandato?
Eu trago a experiência de quem gera empregos, paga impostos em dia e enfrenta os desafios de empreender no Brasil e em Minas Gerais. A experiência mostra que, ao chegar no Congresso Nacional, nós não temos como olhar um lado só. Você precisa olhar o lado do trabalhador, quem empreende e o lado do governo, como uma máquina pública essencial.


Qual é a sua leitura do cenário político em Minas Gerais atualmente?
Nós encerramos os prazos para as convenções partidárias recentemente e estamos vendo uma dificuldade até de conseguir vice. Nós fizemos o lançamento do Gabriel Azevedo, que tem um plano de governo consolidado para o estado. E foi um dos primeiros a lançar o nome da sua vice, que é uma mulher (a vereadora de Montes Claros Maria Helena Lopes). Estamos com chapa completa, mostrando que quem tem planejamento não só sai na frente como entrega uma solução melhor.


Em termos de nomes de candidatos, quantidades, chapas, você acha que o eleitor vai ter mais dificuldade na hora das urnas esse ano?
A decisão do eleitor é sempre vinculada ao grupo de amizades, às lideranças em quem confia localmente. Mas também o olhar crítico do eleitor passa a ser cada vez mais protagonista no dia a dia. Neste ano, vai acontecer um fato inusitado: iremos oferecer um número menor de candidatos para a escolha do eleitor. Significa que o eleitor terá que ser mais criterioso na sua escolha.


Como a pulverização chega ao eleitor?
O estado de Minas está sendo palco de uma sequência de traições, de acordos, de conchavos. E eu acredito que, no nosso caso, o MDB, que está apresentando uma chapa puro-sangue, vamos oferecer à sociedade mineira uma proposta de fato para recuperar o estado.


Como transformar em prioridade a necessidade de uma Minas Gerais tão diversa?
Em qualquer região hoje do estado, a necessidade de recursos na saúde é imperiosa. Agora, no Norte de Minas, há uma demanda maior por abastecimento de água da população, enquanto no Sul de Minas há uma necessidade maior de ações que promovam o desenvolvimento. Essa diversidade é necessário analisar e responder de acordo com a demanda de cada município.


Sobre essa polarização acirrada, você acha que hoje em dia existe espaço para diálogos e para consensos?
Com certeza. A decisão do nosso partido foi pela neutralidade nas eleições presidenciais. O MDB não vai se coligar com nenhum candidato à disputa presidencial. Nem a esquerda, nem a direita representam a vontade do povo mineiro. Por isso, optamos por fazer um caminho do centro, de oferecer soluções à sociedade sem que qualquer ideologia pressione a direção do nosso trabalho. A polarização não faz bem.


O que o senhor considera ter sido uma decisão difícil de ter sido tomada dentro da vida pública?
O nosso voto é constantemente um desafio em que você precisa pensar o lado de quem produz, o lado de quem trabalha, e o lado, claro, do próprio governo. A privatização, por exemplo, da Eletrobras, foi um voto dificílimo. O próprio voto no impeachment foi um voto desafiador, porque era o rompimento institucional de um mandato presidencial eleito pela urna.


O que seria um caminho viável dentro de uma situação que o Brasil, não só Minas Gerais, vive hoje, com essa necessidade de uma reforma tributária que realmente funcionasse?
O Brasil ainda é um dos países que mais gasta de estrutura das empresas para calcular os seus impostos. O que nós estamos oferecendo à sociedade com a reforma tributária, realizada em 2023 e que vai começar a ser implementada em 2026, é simplificação, enxugamento de despesas, redução de custos, o que vai gerar um crescimento econômico enorme.


Qual a importância do atendimento itinerante da saúde para Minas Gerais?
Foi uma das ações mais recentes que nós desenvolvemos em Brasília. Até hoje, nós tínhamos o hábito de escolher o município de acordo com as demandas que recebemos lá no gabinete, e destinar o recurso na saúde para que fosse para um hospital ou para um município específico cuidar da saúde básica. Mas, desde 2025, nós conseguimos construir um projeto em que a saúde da mulher, assim como a saúde ocular, pudesse chegar em cada município.


Dentro do agronegócio, qual é o desafio de manter preservação ambiental, empregos, crescimento dentro do setor em Minas Gerais?
O setor que mais preserva o meio ambiente é o agronegócio brasileiro. Em Minas Gerais, não é diferente, porque você tem uma área de preservação mínima de 20% e áreas de preservação permanentes que costumam superar 30% das áreas totais das propriedades rurais. Dizer que o agricultor contribui para o desmatamento é uma falácia porque, se você almoçou hoje, foi porque alguém produziu no campo com respeito às regras ambientais.


Seu pai teve um destaque como pecuarista. Você seguiu esses passos do seu pai?
Eu trabalho representando nossa atividade privada, especialmente no agronegócio, desde os 16 anos. A produção pecuária é desafiadora no nosso país. Nós diversificamos para a silvicultura, para plantio de grãos e para o café, e essa diversificação foi mais importante do que concentrar em um único setor. Foi um desafio mostrar para meu pai as vantagens e desvantagens de continuar em uma atividade ou outra, mas sempre seguimos expandindo.


Qual o desafio de conseguir gerir as duas carreiras, de político e a de empreendedor do agronegócio?
Eu sou privilegiado no aspecto de pessoas. Eu tenho boas equipes, uma equipe maravilhosa que trabalha conosco no gabinete e, ao mesmo tempo, uma equipe magnífica nas empresas, pessoas que trabalham conosco há mais de 40 anos. É uma equipe longeva, é uma equipe competente, dedicada, e por isso me permite dividir o tempo de acordo com cada prioridade.


O que Minas Gerais precisa para ter um desenvolvimento mais equilibrado?
Minas Gerais tem uma dívida que beira R$ 200 bi. É impossível Minas Gerais suportar esse endividamento sem crescimento econômico que passa por dois cenários. O primeiro é o fortalecimento da infraestrutura logística. Investir em ferrovia e na melhoria das estradas é fundamental. O segundo cenário é o aproveitamento do potencial energético. Minas Gerais tem um dos maiores parques de geração de energia solar do mundo, mas nós temos o problema da distribuição. A Cemig não consegue absorver toda a energia solar, e por isso nós precisamos fazer o armazenamento dessa energia em baterias. Logística e energia solar são os dois caminhos do futuro de Minas Gerais.


Pensando em Minas do futuro, como o senhor espera ver o estado daqui uns 20 anos?
Eu queria muito ver uma Minas Gerais que pare de exportar matéria-prima e comece a exportar aço ou veículos. Eu queria ver uma Minas Gerais que fosse o centro de tecnologia de baterias e armazenamento de energia do mundo, porque nós temos o lítio aqui e não podemos ficar exportando o lítio in natura. Eu queria que o café produzido em Minas Gerais fosse referência, assim como os vinhos são referência na França.


Como o senhor acompanha o cenário político de Minas Gerais?
Parte da política mineira que escolheu o caminho das eleições majoritárias este ano me lembra novela mexicana de baixo orçamento, bem ruim. Ao passo que a política do MDB — que a gente promoveu com planejamento, antecedência, clareza e coerência — é uma novela das oito, do horário nobre, que mostra o verdadeiro compromisso que temos em melhorar MG.


Já tinha visto essa indefinição isso outras vezes dentro de um cenário político? Ou é um ano atípico dentro do desenrolar dos nomes para a eleição de outubro?
Minas Gerais é vista como o estado que decide a nação. Essa política indecisa que nós vimos em boa parte dos partidos este ano nunca vi acontecer no estado de Minas Gerais. Nunca vi chegar próximo do período de convenções com vários partidos nem sequer com nomes, nem sequer com acordos feitos. Uma verdadeira improvisação.


Isso é uma vantagem para o MDB?
Eu coloco isso em dois pontos. O primeiro ponto é que nós não temos feito nenhum acordo em gabinetes em Brasília. Toda a construção da candidatura própria com o nome do Gabriel Azevedo foi feita de Minas para Minas. E o segundo ponto é a coragem de lançar o nome e ir até o fim com a disputa, porque ter uma candidatura ao governo do estado é um custo elevado de campanha. Sem coragem, ninguém chega lá, não.


O que o senhor considera ser características importantes e fundamentais para um administrador público?
Transparência, ter a vida com a ficha limpa, ter condições de apresentar propostas e comunicar essas propostas para a sociedade, e principalmente saber lidar com as mazelas, as dificuldades do setor público.


A notícia chega muito rápido na palma das nossas mãos. O senhor considera que a rede social hoje ajuda ou ela atrapalha um candidato?
A rede social é um caminho sem volta. As pessoas vão ter as suas notícias diárias a partir dos dispositivos móveis. Nós temos que ser capazes de nos comunicar com essa parcela da sociedade e colocar as informações com transparência, falar a verdade.


Tem algum conselho específico que seu pai tenha te dado, que você carrega até hoje para a vida política?
Apesar de que na minha primeira disputa ele queria que eu entrasse como vice, ele depois falou: “Olha, filho, nunca seja vice.”

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O que você diria para o jovem hoje que quer se aventurar na carreira política?
Defender uma causa é o principal caminho para você participar da política. Você entrar na política por conta do cargo, porque acha legal ser vereador, ser deputado, ser governador, sem uma causa clara, eu não recomendo.

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