Entrevista/Matheus Dias

"O eleitor valoriza muito a experiência do candidato"

Fundador da Opus Pesquisa e Diagnóstico faz um raio-x do eleitorado e avalia o peso dos prefeitos de pequenas e médias cidades mineiras na definição do voto

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O programa EM Minas, exibido pela TV Alterosa em parceria com o Portal Uai e o jornal Estado de Minas, recebeu nessa semana o economista Matheus Dias, especialista em pesquisas de opinião e fundador da Opus Pesquisa e Diagnóstico, que atua no mercado eleitoral desde 2012. Na conversa, ele fez um raio-x do comportamento do eleitor mineiro e brasileiro às vésperas das eleições de 2026, contrapondo uma disputa presidencial marcada pela polarização a um cenário estadual ainda em aberto, no qual o voto tende a pesar mais sobre entrega de serviços públicos do que sobre ideologia.

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Dias detalhou os fatores que definem a decisão do eleitor – da valorização crescente da experiência política ao peso do apoio de prefeitos nas cidades pequenas e médias, maioria absoluta nos 853 municípios mineiros –, além do papel do chamado eleitor apático, aquele que já não acredita no sistema e pode decidir o pleito pela via da abstenção. Ao explicar por que o embate nacional tende a seguir acirrado, resumiu a lógica que move boa parte do voto no país: “O principal motor de voto desses eleitores, seja de esquerda ou seja de direita, está muito mais em impedir o outro lado de chegar do que necessariamente em uma defesa cega das qualidades do seu próprio candidato”. Confira os principais pontos da entrevista.


Esta será uma eleição diferente das outras? O que as pesquisas já realizadas nos cenários mineiro e nacional têm revelado?
Toda eleição tem o seu próprio contorno, a sua própria conjuntura. E os níveis também têm demandas e expectativas diferentes. Quando a gente olha o cenário nacional, nota uma eleição que vai ser mais polarizada, que vai ser mais acirrada, mas o cenário mineiro ainda é aberto, não sabemos muito bem quem são os candidatos. A gente vem discutindo muito sobre polarização nos últimos anos. No plano nacional, esquerda e a direita rivalizam e vêm rivalizando há muitos anos e há muitos ciclos eleitorais. Mas quando olhamos para os níveis estaduais, vemos que essa polarização não é tão acirrada. Até porque as demandas e expectativas para o eleitor em relação a cada um dos cargos diferem. No nível nacional, o principal motor de voto, seja do eleitor de esquerda ou de direita, é muito mais impedir que o outro lado chegue ao poder do que necessariamente uma certeza cega de que o lado que a pessoa defende é o melhor para o Brasil. É sempre de impedir que o outro lado consiga chegar à Presidência da República.


É quase que uma questão passional.
Totalmente passional. O voto é muito mais passional e é muito mais baseado no sentimento do que na racionalidade. E geralmente o eleitor define o voto com a emoção e depois ele vai buscar elementos racionais para justificar externamente, para os conhecidos, para os amigos, para os familiares, o porquê ele tomou aquela decisão e o porquê ele escolheu aquele candidato. Mas o voto, via de regra, é uma tomada de decisão muito mais emocional do que racional.


E no âmbito estadual, não? Aí não tem paixão? Aí é um voto diferente? Qual o comportamento do eleitorado?
Se a gente trouxer isso para Minas Gerais, notamos que o eleitor está muito mais focado em melhorar os serviços públicos do nosso estado do que necessariamente escolher um lado, seja esquerda ou direita. Nós temos o privilégio de correr todo o estado fazendo pesquisas qualitativas, são pesquisas mais profundas para entender o humor e o sentimento do eleitor, e fica muito claro para a gente que o eleitor tem demandas claras: demandas em relação ao estado de conservação das estradas; em relação à saúde pública; ao avanço das facções criminosas. Na hora de avaliar os candidatos, ele vai avaliar esses candidatos em função de um relacionamento ideológico ali, claro, mas também como que esse candidato tem credibilidade para solucionar esses problemas.


Você está dizendo que o eleitor mineiro, independentemente do partido que ele apoia, vota no candidato que falar, por exemplo, "vou resolver esse trem da segurança"?
A gente fala sempre que não existe "o" eleitor. Existem combinações de eleitores. Então, o eleitor vai definir o voto baseado, claro, em uma visão ideológica, no que vai atendê-lo. A gente sempre fala que cerca de 40% a 60% do eleitorado têm um lado. E o restante não. O restante está muito mais preocupado com um candidato que consegue se conectar com o sentimento, com a conjuntura. Existem vários fatores que vão levar à definição do voto por parte do eleitor. A ideologia é um deles.


Mas não é o primeiro...
Não é o primeiro. O eleitor vai levar vários fatores em consideração. Primeiro, posicionamento ideológico; segundo, qual é a credibilidade e a legitimidade que aquele candidato tem para pleitear o cargo que ele está disputando; qual é a trajetória dele com outros cargos, com outras funções que o legitimam para estar disputando o cargo de governador ou de deputado; qual é a conjuntura eleitoral que se desenha dentro da disputa. Hoje está muito claro para a gente que o eleitor busca nomes que tenham experiência, que tenham como comprovar aquilo que já foi feito.


O que esperar do voto do eleitor que já está sem paciência com essa briga sem fim na política? Em suas pesquisas é possível identificar para onde ele vai?
Esse eleitor, que é um eleitor mais apático, é o grande desafio de todo o processo eleitoral. Ele não acredita mais no sistema eleitoral, ele não acredita mais nos políticos e, acima de tudo, ele não acredita numa solução a curto prazo para os problemas que ele enfrenta hoje.


Mas esse eleitor pode definir uma eleição.
Com certeza. E aí se conectar com esse eleitor apático é um grande desafio. Porque é um eleitor desinformado, um eleitor que não acredita mais no sistema político como elemento de mudança social e é um eleitor que tem grandes chances de não comparecer às urnas.


Por falar em abstenção, no Brasil mais ou menos 25% deixam de votar. E essa abstenção vem majoritariamente desse eleitor que não é nem esquerda nem direita. Mas a ausência favorece quem?
Favorece quem tem a maior capacidade de mobilizar. Favorece um candidato que tem uma grande capacidade de mobilizar o eleitor em torno da sua candidatura, de mobilizar, eu falo, o eleitor comum, de fazer com que o eleitor comum vá na rede social, publique, compartilhe os conteúdos daquele candidato.


Nós temos aqueles fenômenos de posicionamento em todas as áreas da política, fenômenos de internet...
Exatamente. E aí quando você consegue se conectar com esse eleitor e fazer com que ele se torne, além de um mero eleitor, um evangelizador da sua mensagem e que induza uma conversação pública com as pessoas de todo o entorno dele, aí você tem um grande ativo político. Então, a campanha é sobre sentimento, é sobre aspirações para o futuro e também é sobre mobilização, é sobre conexão, é sobre como que eu vou chegar e me conectar com o sentimento que você tem e o que você espera para o futuro.


As redes sociais se transformaram no principal caminho de conexão dos candidatos com os eleitores?
É um canal importantíssimo, mas sozinho ele não resolve.


Ele não é o mais importante?
Ele compõe. Eu coloco quatro canais principais para você mudar a percepção e o sentimento do eleitor. Primeiro, eu tenho o que o eleitor enxerga no dia a dia, baseado nos serviços públicos, no sentimento e na conjuntura. Depois eu tenho a mídia. E aí eu falo da TV, do rádio, do jornal, dos portais, porque a mídia conversa com todo mundo ao mesmo tempo, no mesmo tom. E a mídia tradicional, a TV, o rádio, o jornal, impacta mesmo quem não tem acesso a ela. Um eleitor que não tem TV, mas conversa com o que tem TV, ele está sendo impactado indiretamente pela mídia tradicional. A rede social é a primeira tela da grande maioria dos eleitores, ou seja, ele fica mais tempo na rede social e no telefone do que na TV, por exemplo, só que ela é muito fragmentada. Porque a minha rede social é diferente da sua, que é diferente da rede do eleitor, do nosso telespectador. Então, o conteúdo que chega a cada uma dessas pessoas é muito fragmentado, é muito superficial e é muito enviesado. A mídia digital, a mídia social, ela precisa muito, inclusive, da mídia tradicional, da TV, do rádio para trazer mais credibilidade para a própria comunicação. Então, é um conjunto de uma comunicação nos veículos tradicionais, nos meios digitais, que esteja ancorada na conjuntura para que a gente consiga induzir para que o eleitor fale de maneira espontânea sobre o candidato.


E tem candidatos que conseguem abarcar todos esses pontos, falar em todos os canais, os nichos, e onde está esse desinformado e indeciso?
Aí que está a grande magia das campanhas eleitorais, porque às vezes um candidato é muito forte na rede social, mas ele não tem praticamente nenhum respaldo na mídia tradicional. E às vezes eu tenho o oposto: às vezes eu tenho candidatos, por exemplo, que têm um tempo de TV muito grande, mas que não conseguem mobilizar os eleitores nem na rede social, nem no dia a dia. Então, a gente fala que o processo eleitoral é como se fosse uma batalha. E é, de fato, uma batalha na qual só um se sagra vencedor. E aí quem consegue entender os meios, entender o sentimento do eleitor e se conectar com esses recursos, que sempre são limitados, geralmente vai melhor nas urnas.


Você falou um pouco antes que este ano a tendência é o eleitor caminhar para a experiência, para os mais experientes que já têm aquele trabalho comprovado. Os jovens não têm vez?
Hoje o sentimento majoritário do eleitor está valorizando muito a experiência, aquilo que ele já entregou quando teve a oportunidade de servir a população, seja num cargo eletivo, seja num cargo público ou comissionado. Ou seja, o eleitor está valorizando muito a experiência. Não significa que ele vai votar em todos que são os mais experientes, mas o crivo mais relevante que a gente vem observando hoje é o crivo da experiência, do serviço prestado e do legado que ele já deixou para a sociedade. Claro, uma parcela dos eleitores sempre vai querer novidade, mas é uma conjuntura diferente hoje da, por exemplo, da conjuntura de 2018, quando nós tivemos vários outsiders que tiveram uma votação muito expressiva e entraram sem nenhuma experiência pública. Hoje o eleitor valoriza a experiência, o serviço entregue e, principalmente, o legado.


Tem fundamento a máxima de que na cidade pequena o eleitor vota em quem o prefeito manda?
Tem um grande impacto. O prefeito é um líder que tem muito mais proximidade, que conhece muito a demanda. Então, sim, o apoio do prefeito tem um peso muito grande nessas cidades pequenas e médias, principalmente para os cargos legislativos de deputado estadual e federal. No cargo majoritário, o eleitor vai avaliar muito essa conexão do candidato principalmente com essas grandes pautas: saúde, segurança, educação. Mas para o legislativo o apoio do prefeito é um dos principais ativos.


Essa eleição se apresenta mais polarizada que a última ou menos?
No nível nacional, a gente nota que sim, há uma polarização bastante acirrada.

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Pior que na última?
Eu não diria pior, mas diferente. A nossa projeção é que vai ser um processo bastante acirrado, porque o principal objetivo do eleitor à direita ou à esquerda é muito mais impedir o outro lado do que uma defesa séria do seu próprio candidato.

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