Na noite de 13 de abril de 1976, Zuzu Angel deixou um jantar no Rio de Janeiro pouco depois da meia-noite. Não havia sinal de excepcionalidade no trajeto. Dirigia sozinha, como fazia com frequência, pela zona sul da cidade, seguindo em direção à Barra da Tijuca. O percurso incluía o túnel Dois Irmãos, ligação entre a Gávea e São Conrado, uma via sinuosa, de iluminação irregular à época e com histórico de acidentes – ainda que nada semelhante ao que viria a ser registrado naquela madrugada.

Na madrugada de 14 de abril de 1976, às 3h da manhã, Zuzu Angel dirigia pela zona sul do Rio de Janeiro em direção à Barra da Tijuca, passando pelo túnel Dois Irmãos. Foi nesse ponto que o carro saiu da pista. O veículo atravessou a via, colidiu contra o meio-fio do canteiro central e, em seguida, foi projetado com violência contra a mureta de proteção. A partir daí, perdeu completamente o controle, cruzou a pista e ultrapassou a barreira lateral, despencando em direção à parte inferior da via, próxima ao acesso à Rocinha. O impacto foi violento. O resgate, acionado nas primeiras horas da manhã, encontrou o automóvel completamente destruído. O corpo foi retirado das ferragens ainda no local. A versão inicial, registrada pelas autoridades, foi direta: acidente automobilística.

Mas, desde o início, havia estranhamentos. Pessoas próximas afirmaram que Zuzu era uma motorista experiente, habituada àquele trajeto. O jornalista Zuenir Ventura escreveria, anos depois, que “não era uma curva qualquer nem uma motorista imprudente; havia algo que não fechava desde o primeiro momento”. O cantor Chico Buarque também manifestaria desconfiança, dizendo que “era difícil acreditar que aquilo fosse apenas um acidente, considerando tudo o que vinha acontecendo com ela”.


O contexto em que a morte ocorreu pesava. Zuzu vinha, havia anos, denunciando publicamente o desaparecimento e a morte do filho, Stuart Angel. Havia confrontado autoridades, exposto o regime em eventos internacionais e, semanas antes, entregado uma carta diretamente ao secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger. Sua atuação deixara de ser tolerável dentro da lógica da repressão.


Além disso, a própria Zuzu havia registrado, por escrito, o temor de ser assassinada. Em uma carta que circulou entre amigos e interlocutores, afirmou: “Se eu aparecer morta por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho”. A frase, que à época soava como alerta, passou a ser lida como antecipação.


Testemunhos indiretos começaram a surgir nos anos seguintes. Relatos apontavam para a possibilidade de que o carro de Zuzu tivesse sido seguido naquela madrugada. Outros mencionavam a presença de veículos não identificados na região do túnel. Nenhum desses elementos foi formalmente investigado no momento do ocorrido. O caso foi rapidamente encerrado como acidente.

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Durante anos, a morte de Zuzu Angel permaneceu oficialmente classificada como acidente. Não houve investigação independente, nem reabertura do caso durante o período da ditadura. A família seguiu sem respostas formais. Ainda assim, a narrativa alternativa – de que Zuzu havia sido eliminada por sua atuação – continuou a circular.

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