Havia um país que não respondia, e uma mãe que não parava de perguntar. Quando Zuzu Angel começou a ganhar espaço na moda carioca, no início dos anos 1960, seu trabalho destoava do padrão dominante. Enquanto a elite brasileira ainda consumia referências europeias, sobretudo francesas, ela decidiu construir uma linguagem própria. Usava rendas nordestinas, bordados feitos à mão, tecidos leves e aplicações inspiradas na fauna e na flora do país. Era uma ruptura estética, mas também simbólica: Zuzu afirmava que a moda brasileira podia existir sem copiar ninguém. O jornalista Zuenir Ventura resumiria essa escolha como uma “costura de identidade”, num momento em que o país ainda buscava se reconhecer culturalmente.
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Seu ateliê, no Rio de Janeiro, rapidamente se tornou um espaço de circulação de artistas, intelectuais e clientes que buscavam algo diferente do padrão imposto pelas grandes casas de moda. Esse ambiente ajudou a consolidar seu nome. No fim da década, Zuzu já havia atravessado fronteiras. Passou a desfilar em Nova York, com presença em lojas sofisticadas e em editoriais internacionais, algo raro para estilistas brasileiras naquele período. O cantor Chico Buarque, que frequentava o círculo da família, lembraria que Zuzu era “uma mulher de alegria forte, mas com uma inquietação que foi crescendo com o tempo”. A carreira avançava com consistência, mas o contexto político do país começava a se impor sobre qualquer trajetória individual.
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O desaparecimento que muda tudo
Após o golpe militar de 1964, o Brasil passou por um processo gradual de endurecimento político. Esse processo se intensificou drasticamente em 1968, com a edição do Ato Institucional nº 5, o AI-5. A partir dele, o governo passou a ter poderes para fechar o Congresso, cassar mandatos, suspender direitos civis e ampliar a censura. Na prática, isso significou a institucionalização da repressão. Órgãos como o DOI-Codi passaram a atuar de forma sistemática na prisão, interrogatório e tortura de opositores. O desaparecimento de presos políticos tornou-se uma estratégia deliberada: sem corpo, não havia crime oficialmente reconhecido.
Foi nesse ambiente que cresceu Stuart Edgar Angel Jones. Nascido em 1946, no Rio de Janeiro, ele era estudante de economia da UFRJ e atleta de alto rendimento no remo, defendendo o Flamengo, onde conquistou o bicampeonato carioca. Sua rotina combinava disciplina esportiva e vida universitária – e é importante entender que, naquele período, as universidades eram centros de debate político intenso. Muitos estudantes passaram a se engajar contra o regime. Stuart seguiu esse caminho ao ingressar no MR-8, organização de oposição armada. Ele não era uma liderança, mas participava de ações operacionais, como tantos outros jovens que passaram à clandestinidade diante do fechamento das vias democráticas.
"Amarraram-no a um jipe. Sua boca foi presa ao cano de descarga do veículo. O motor foi ligado", Alex Polari , preso político que viu Stuart ser torturado
No dia 14 de maio de 1971, Stuart Angel Jones foi localizado no bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, durante uma ação atribuída ao grupo ao qual estava ligado, um assalto a banco, segundo investigações posteriores. Baleado, foi preso por agentes da repressão. A partir daquele momento, desapareceu. O Estado brasileiro não registrou oficialmente sua prisão, não comunicou a família e jamais reconheceu sua custódia, um procedimento recorrente nos anos mais duros da ditadura, quando opositores eram retirados do sistema legal e lançados em um limbo institucional.
A reconstrução do que aconteceu depois depende, em grande parte, de testemunhos reunidos posteriormente. Entre eles, o do ex-preso político Alex Polari de Alverga, que, em carta enviada em maio de 1972 à estilista Zuzu Angel, descreveu os últimos momentos de Stuart na Base Aérea do Galeão.
“Na noite de 14 de maio de 1971, fui torturado ao lado de seu filho”, escreveu Polari. Segundo o relato, Stuart já se encontrava em estado grave após sessões de espancamento e o uso do pau-de-arara, método amplamente empregado pelos órgãos de repressão. “Estava muito ferido, mal conseguia se manter em pé”, registrou.
Horas depois, ainda durante a madrugada, o cenário se desloca para o pátio da unidade militar. “Ouvi um alvoroço. Ele foi arrastado, pois já não conseguia caminhar”, relatou. Na sequência, descreve o que viria a se tornar um dos episódios mais emblemáticos da violência de Estado no período: “Amarraram-no a um jipe. Sua boca foi presa ao cano de descarga do veículo. O motor foi ligado.”
De acordo com a carta, Stuart foi forçado a aspirar gases tóxicos. “Seus gritos foram intensos no início, mas foram se tornando cada vez mais fracos, até cessarem completamente”, escreveu Polari. A tosse contínua ouvida por ele, descrita como “de engasgo”, indicaria o efeito direto da asfixia provocada pelos gases.
O relato aponta ainda o brigadeiro João Paulo Burnier como responsável pela sessão de tortura, sugerindo que a ação não foi isolada, mas inserida em uma cadeia de comando. “Depois disso, não o vi mais. Senhora, seu filho foi assassinado”, conclui a carta.
O documento chegou às mãos de Zuzu Angel às vésperas do Dia das Mães de 1972. Até então, ela buscava informações sobre o paradeiro do filho. A partir dali, passou a denunciar publicamente o caso, inclusive no exterior, transformando a dor pessoal em enfrentamento político.
Anos depois, sua filha, Hildegard Angel, relataria que a mãe nunca superou a perda. Durante a noite, em momentos de sono, chamava pelo filho: “Stuart… onde está você…”. O testemunho revela como a violência ultrapassou o momento da morte, prolongando-se na vida da família como ausência permanente.
Como Antígona, Zuzu recusou o silêncio. Não aceitou a versão oficial, não se submeteu à ausência imposta. Sua luta, sintetizada no pedido insistente pelo corpo do filho, carrega a mesma essência trágica: a de quem enfrenta o poder em nome de um direito fundamental, o de enterrar seus mortos e preservar sua memória.
Ditadura negava a prisão
Documento confidencial do SNI, datado de 26 de agosto de 1971, Informação nº 46316/71, revela de forma direta como a ditadura militar estruturava sua narrativa oficial sobre o desaparecimento de Stuart Angel. Classificado como subversivo e ligado a organizações de oposição, ele tem sua prisão negada no registro, que afirma que não está e nem esteve sob custódia. A versão contrasta com provas posteriores que confirmaram sua detenção, tortura e morte por agentes do Estado, evidenciando um padrão sistemático de ocultação de crimes, manipulação de informações e negação de violações de direitos humanos para sustentar a versão oficial do regime.
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Amor interrompido
A companheira de Stuart Angel era Sônia Maria Moraes Angel (foto), também integrante da resistência à ditadura. Tinha 27 anos quando foi presa, em 1973, por agentes do regime. Assim como Stuart, foi levada a centros de repressão, onde sofreu tortura. Nunca mais foi vista. Sua morte jamais foi oficialmente esclarecida à época. Sônia tornou-se símbolo de uma geração de jovens militantes desaparecidos, e sua história, marcada pela violência e pelo silêncio do Estado, se entrelaça à de Stuart e à luta incansável de Zuzu Angel por memória e justiça.
