(FOLHAPRESS) - A atuação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nos Estados Unidos e no exterior, promovendo reuniões com líderes da direita radical em diversos países desde fevereiro, colocou o governo Lula (PT) em alerta em relação ao que veem como uma tentativa da gestão Donald Trump de influenciar as eleições de outubro.
As recentes movimentações de uma ala do governo americano em relação ao Brasil, inclusive, já são encaradas como interferências no cenário político do país.
Nos últimos dias, o Palácio do Planalto foi pressionado por integrantes radicais do governo Trump, que tem interlocução com bolsonaristas, em ao menos duas frentes. Caso haja a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, o governo mapeia riscos de prejuízos econômicos.
Em outra frente, a visita de Darren Beattie, assessor do Departamento de Estado, ao Brasil para encontros com Flávio com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) deve gerar um constrangimento diplomático para o Executivo.
Como mostrou a Folha de S. Paulo, o conselheiro para relações com o Brasil nos Estados Unidos deve viajar a São Paulo e Brasília na semana que vem para compromissos ligados ao processo eleitoral brasileiro. O objetivo de Beattie, crítico do governo Lula e do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, seria entender o funcionamento do sistema eleitoral brasileiro.
Pré-candidato ao Palácio do Planalto, Flávio vem apostando na agenda internacional antes mesmo de organizar sua pré-campanha no Brasil. Ele viajou nesta terça-feira (10) para acompanhar a posse do direitista José Antonio Kast no Chile, enquanto Lula desistiu de comparecer à solenidade.
No mês passado, o senador foi guiado pelo irmão em viagens ao Oriente Médio, Europa e Estados Unidos, em que se encontrou com políticos do campo conservador para tratar, entre outros temas, de segurança pública e para reclamar da situação do pai, que cumpre pena por tentativa de golpe de Estado.
Durante o périplo, Flávio elogiou Eduardo e chegou a cogitá-lo como ministro das Relações Exteriores caso vencesse a disputa presidencial, mas recuou diante de críticas e da estratégia de buscar uma imagem de moderação. Atualmente, o senador diz que não escolheu nenhum nome de sua eventual equipe ministerial.
Na visão do governo Lula, a discussão da gestão Trump sobre classificar o PCC e o CV como organizações terroristas atende à agenda que Eduardo e Flávio têm buscado construir junto às autoridades estrangeiras, especialmente as americanas.
Integrantes do governo petista temem que haja uma tentativa dessa ala do governo Trump de influenciar as eleições. A hipótese de governistas é a de que o presidente americano não deu aval a essa movimentação, por estar concentrado no conflito com o Irã.
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O Palácio do Planalto e o PT desenham uma reação para neutralizar o discurso bolsonarista em relação às facções. O presidente do PT, Edinho Silva, chegou a divulgar um vídeo, em tom de alerta, afirmando que, com a designação de terrorismo, os EUA poderiam invadir o território nacional e aplicar sanções econômicas. A preocupação é a de que haja uma tentativa de controle do Pix.
Além de identificarem influência bolsonarista na atuação do governo Trump em relação ao Brasil, os governistas afirmam que o objetivo final de Flávio pode ser eleitoral, ou seja, angariar apoio do presidente americano e de outras autoridades de direita em caso de uma eleição apertada, como ocorreu em 2022.
Bolsonaristas que atuam na articulação junto às autoridades dos EUA veem o crescimento de Flávio em pesquisas como uma vantagem para convencer Trump da necessidade de fazer gestos em apoio ao filho de Bolsonaro.
A leitura entre observadores da gestão americana é que Trump não gosta de perdedores e isso teria, por exemplo, o aproximado de Lula. Uma vez que Flávio tem diminuído a distância do presidente brasileiro em pesquisas, o jogo pode ser alterado para que Trump declare apoio ao senador bolsonarista, por exemplo. Ou, em última instância, não reconheça o resultado eleitoral num cenário de reeleição de Lula.
Para o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), Flávio e Eduardo querem que governos estrangeiros executem a agenda bolsonarista.
"O que eles sonharam nesse tempo todo é que tivesse uma intervenção estrangeira em nosso país. Tudo isso é parte da estratégia deles, de se apossar do poder não pela via democrática, mas pela via da força", disse nesta terça-feira (10).
Ainda segundo Randolfe, a classificação das facções como grupos terroristas pelo governo Trump serve a uma intervenção estrangeira, e não ao combate à criminalidade.
O senador Jorge Seif (PL-SC) afirma, por sua vez, que Flávio e Eduardo não têm como objetivo qualquer tipo de intervenção, e defende a classificação do PCC e CV como terroristas.
"O que acontece hoje nos Estados Unidos afeta muito o brasileiro. [Flávio] está buscando uma coalizão, está se apresentando como candidato legítimo da direita, formando alianças. Imaginando uma eleição [dele], isso se converte em parcerias bilaterais, um melhor comércio. É uma agenda propositiva e também buscando apoio internacional, que é importante", disse à reportagem.
"Ele está realmente buscando fortalecer essa imagem dele de líder da direita do Brasil, de substituto do pai dele, e buscando apoio internacional. Quem não quer ser apoiado por um Donald Trump?", completa.
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Na opinião de Seif, a agenda internacional de Flávio, de buscar alianças, é diferente da de Bolsonaro, que buscava avisar "que o sistema eleitoral podia estar comprometido".
