Deputado Odair Cunhas (PT-MG) -  (crédito: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados)

Deputado Odair Cunhas (PT-MG)

crédito: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados

A determinação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que o golpe de 1964 não seja lembrado oficialmente não encontra eco entre seus aliados, como a bancada do PT na Câmara, e nem mesmo entre integrantes do governo — caso da Comissão de Anistia, órgão vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania. Para não desagradar aos militares, o Palácio do Planalto vetou atos e manifestações críticas à ditadura militar, como adiantou o Correio Braziliense.

 

Também dirigentes do PT criticaram, em reunião interna, na última terça-feira, a decisão de Lula de silenciar sobre a ditadura. O partido chegou a divulgar uma nota anunciando que vai participar de atos críticos ao regime dos militares. A presidente da legenda, a deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR), disse no encontro que a decisão de Lula causou o esvaziamento dos atos da esquerda, em 23 de março.

 

"O PT apoiará e participará dos atos e manifestações da sociedade previstos para os dias 31 de março e 1º de abril, em diversos pontos do país, além das atividades organizadas por sua fundação, a Perseu Abramo, sobre os 60 anos do golpe. O PT reafirma seu compromisso com a defesa da democracia no país, valor presente no DNA originário do partido desde sua fundação", informou o partido, em nota.

Irritação


Ontem, foi a vez de a bancada na Câmara manifestar sua posição, condenar o golpe e ainda cobrar de Lula a reinstalação da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, extinta nos últimos dias do governo de Jair Bolsonaro. Os parlamentares petistas repudiaram com veemência esse episódio da história do país.

 

"O Congresso Nacional foi fechado quatro vezes — em 1965, 1966, 1968 e 1977 —, com a cassação de mandatos e perseguição a parlamentares, numa onda de truculência que varreu o país sob a égide de atos institucionais. Ao longo de 21 anos, o país foi jogado nas trevas, com violência, repressão a movimentos sociais, censura e perseguição política, tortura e desaparecimento de inúmeras pessoas que lutavam por um Brasil democrático, mais justo e igualitário", lembra a nota assinada pelo líder do PT na Câmara, Odair Cunha (MG).

 

Eneá Stutz e Almeida, presidente da Comissão de Anistia, disse ao Correio que a decisão de Lula e sua declaração de não remoer o passado lhe "causaram espanto". "Me causou estranheza o presidente querer esquecer um evento que ocorreu no Brasil com impacto para sempre na nossa História. E, no entanto, reconhecer a importância de falar e lembrar do Holocausto, que ocorrreu na Alemanha e em outros locais na Europa, há 80 anos. E claro que tem que lembrar do Holocausto. Mas, se falar sobre o Holocausto não é remoer o passado, e não é, por que falar sobre o golpe militar no Brasil é?", indaga Eneá.

 

Ministro participa de ato


O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, confirmou presença em um evento que marca 60 anos do golpe militar de 1964, mesmo depois da orientação de Lula para que ninguém do governo participe de eventos alusivos à data. Apesar de pressionado por sua base de esquerda, o petista desautorizou ações do Poder Executivo que relembrem a data para evitar atritos com as Forças Armadas.

 

A presidente da Comissão da Anistia frisa que "nos dois casos, se trata de um estado de exceção que cometeu crimes contra a humanidade. Temos que lembrar sempre do Holocausto, para que nunca mais se repita. Assim como temos que lembrar das atrocidades da ditadura no Brasil, para que também nunca mais retorne".

 

A agenda foi confirmada pela assessoria do ministro, que preferiu não comentar se a presença pode causar atrito com o presidente. O evento será na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP), cidade que Marinho governou entre 2009 e 2016. O ministro também é ex-presidente da entidade, cargo que ocupou de 1996 a 2003.

 

A Associação Heinrich Plagge, que reúne trabalhadores brasileiros da Volkswagen vítimas de perseguição política na empresa durante a ditadura, também organiza o evento, que ocorre no próximo dia 4 e terá o lançamento de um livro que narra a opressão e prisão de operários no período dos militares. Plagge — que era supervisor de qualidade da fábrica da VW, em São Bernardo do Campo, e militante do Partido Comunista Brasileiro — foi entregue pela direção da empresa ao DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), em 1972. Foi torturado durantes os mais de três meses em que permaneceu sequestrado.

 

No fim de fevereiro, Lula afirmou que não quer ficar "remoendo o passado" e que está mais preocupado com os atos golpistas de 8 de janeiro do ano passado do que com o golpe de 1964. O presidente espera que tanto militares da ativa como seus auxiliares civis deixem de falar do golpe militar para não acirrar ainda mais os ânimos entre a gestão petista e as Forças Armadas.

 

Outro ministro do petista, Silvio Almeida, dos Direitos Humanos, já tinha programado um ato no dia 1º de abril, mas, a pedido de Lula, desfez os preparativos do evento que aconteceria no Museu Nacional da República. Almeida é um dos principais defensores da recriação da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), que desde 1995 reconhece vítimas da ditadura e despacha sobre pedidos de indenização de familiares.

 

O colegiado foi extinto no fim do governo Jair Bolsonaro (PL), a 15 dias de o ex-presidente deixar o Palácio do Planalto.