'Arquétipo do século XX', Kissinger foi nome central na história dos últimos 100 anos -  (crédito: Quinho/EM/D.A. Press)

'Arquétipo do século XX', Kissinger foi nome central na história dos últimos 100 anos

crédito: Quinho/EM/D.A. Press

Admirado por muitos e odiado por outros tantos, Henry Kissinger viveu 100 anos e entrou para a história como um dos nomes incontornáveis da movimentação geopolítica do século 20. Ligado a momentos controversos de intervencionismo da política externa dos Estados Unidos na Guerra Fria e na década de 1970, o alemão naturalizado norte-americano tem sua trajetória marcada diretamente pela Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, pelos conflitos com aliados soviéticos e pelo apoio - e financiamento - de regimes autoritários ao redor do globo. Pouco antes de sua morte, em novembro de 2023, a Editora Planeta lançou, no Brasil, o primeiro volume da biografia do ex-Secretário de Estado dos EUA. “Kissinger – 1923-1968: o idealista”, o historiador escocês Niall Ferguson traz um olhar pragmático e, por vezes, condescendente sobre a trajetória de um dos homens mais influentes do planeta.

Em entrevista ao Estado de Minas, o autor do livro conta como foi o processo de ser convidado pelo próprio Kissinger para vasculhar milhares de documentos e itens de seu arquivo pessoal e reconstituir a primeira metade da vida do personagem. Em mais de mil páginas, ele traça um retrato do início da vida de Kissinger na Alemanha, a fuga do Holocausto, sua participação na Segunda Guerra ao lado dos americanos e a ascensão até o alto escalão da política do país e o recebimento do Nobel da Paz.

O professor faz um esforço para construir o lado idealista de uma das figuras mais criticadas do último século e busca retratar as ações de política externa como uma ‘busca pela escolha do mal menor’ em um cenário de ideologias maniqueístas da Guerra Fria. “É difícil pensar em outra figura que tenha influenciado tantas partes diferentes do mundo por tanto tempo. Não existe uma parte do mundo que não tenha sido tocada por Kissinger de alguma forma”, acredita.

Ferguson nasceu em Glasgow, na Escócia, em 1964, leciona em Harvard e é pesquisador na Universidade de Stanford, ambas nos EUA. De linha política conservadora, escreveu 16 livros, alguns best-sellers como “Civilização: Ocidente x Oriente” e “A ascensão do dinheiro”. Na entrevista a seguir, o britânico oscila em sua análise dos feitos de Kissinger entre a valorização do pragmatismo de sua atividade pelos interesses americanos na Guerra Fria e o destaque para a postura ‘idealista’ ressaltada no subtítulo do primeiro volume da biografia. Ele atualmente trabalha na segunda parte da história, quando Kissinger se torna peça central no tabuleiro geopolítico nos conflitos em um mundo dividido entre americanos e soviéticos. “O próximo volume terá muito mais sobre o Brasil”, revela. “A visão de Kissinger sobre a América Latina sempre foi a de que o Brasil é o país mais importante e, quando tratam do tema, sempre lembram do Chile.”

 

Você foi convidado pelo próprio Henry Kissinger para escrever a biografia. Como se deu esse convite e por que você topou contar essa história?

Foi realmente ideia dele. Cerca de 20 anos atrás o conheci em Londres, e ele me escreveu sugerindo que eu pudesse considerar escrever sua biografia. Acho que naquela época ele estava muito preocupado com os ataques à sua reputação e esperava que algum estudioso objetivo e respeitável abordasse o assunto. Claramente, Christopher Hitchens (autor de ‘O julgamento de Kissinger’) não era um estudioso. Acho que essa foi a motivação original. Inicialmente eu disse que não, porque pensei que seria, em primeiro lugar, por causa do volume de material e, em segundo lugar, porque é extremamente difícil mudar a opinião das pessoas sobre Henry Kissinger. Ou você pensa que ele era um criminoso de guerra ou um Super-Homem e depois de decidir, você meio que não muda. Então eu disse ‘não’, e ele disse: ‘Bem, isso é uma pena porque acabei de encontrar todos esses meus papéis particulares que pensei ter perdido’. Então pensei que não havia mal algum em dar uma olhada. Vi o material e foi fantástico. Era um material incrível de sua infância e também de seu período após o governo. Cada documento que olhei era mais interessante do que o anterior. Foi quando decidi fazer o livro.


Eu estava me mudando para os Estados Unidos naquela época e esse é um dos temas norte-americanos: a história do imigrante que, nos EUA, começa do nada e chega a ser secretário de Estado. De muitas maneiras, quanto mais eu penso sobre isso, mais ele parece esse arquétipo da figura do século 20. É como se todo o século estivesse em sua vida. Eu sei que há um grande grupo de pessoas que nunca mudariam de ideia sobre Kissinger, não importa o que eu escrevesse, mas ainda vale a pena fazer, eu acho. É difícil pensar em outra figura que tenha influenciado tantas partes diferentes do mundo por tanto tempo. Não existe uma parte do mundo que não tenha sido tocada por Kissinger de alguma forma e essa é outra boa razão para fazer o livro.


Ter sido um judeu na Alemanha Nazista, fugido para os Estados Unidos, lutado contra seus compatriotas na Segunda Guerra moldou, de alguma forma, a personalidade do Kissinger enquanto um estadista?

Acho que, durante a maior parte de sua vida adulta, Kissinger minimizou o impacto de Hitler, do Holocausto e do judaísmo em sua vida. Nos últimos anos ele se tornou mais aberto a essas influências. Embora Kissinger deixe de ser um religioso crédulo, em algum ponto, durante a guerra provavelmente, ele permanece judeu em sua identidade e lealdade e tornou-se mais envolvido com a comunidade judaica em seus últimos anos de vida.

Não creio que você possa entender Henry Kissinger se não se lembrar que pelo menos uma dúzia de membros de sua família morreram no holocausto, que ele chegou aos Estados Unidos como um refugiado e voltou como soldado para lutar contra os alemães. Ele escolheu ser enterrado no cemitério militar em Washington, com um funeral militar. Ele disse que estar no exército foi a experiência formativa de sua vida e eu achei isso muito interessante. Como muitos homens de sua geração, ele foi moldado pela Segunda Guerra Mundial, e como judeu alemão, foi moldado pelo Holocausto. Isso é algo que seus críticos têm sido muito rápidos em esquecer ou minimizar. É um mundo meio estranho em que alguém com essa formação e experiência é casualmente acusado de ser um criminoso de guerra ou ser cúmplice de genocídio.


Essas experiências justificam o subtítulo ‘o idealista’ que você escolheu para o primeiro volume? Porque Kissinger costuma ser representado como um ícone da ‘realpolitik’...

O primeiro volume do livro apresenta argumentos que têm mais a ver com a carreira de Kissinger como intelectual público. Se você ler seus escritos acadêmicos, matérias jornalísticas e outras declarações públicas entre 1950 e 1969, quando ele entrou no governo, não encontrará nenhuma evidência de que Kissinger fosse um realista no sentido que considero correto da palavra: isto é, alguém que baseia a política e a estratégia externas apenas num cálculo completamente frio do interesse nacional.

Kissinger era um idealista filosoficamente porque o filósofo que mais o influenciou foi Immanuel Kant, o idealista definitivo. Mas ele também era um idealista no sentido de que realmente acreditava que a Guerra Fria foi uma luta entre a ideologia da liberdade e a ideologia do comunismo.

E, finalmente, penso que ele era um idealista porque sentia um compromisso moral não apenas para evitar a Terceira Guerra Mundial, mas também para tentar evitar que o Vietnã do Sul perdesse a guerra contra o Vietnã do Norte. Então, eu acho que o livro é realmente bastante convincente nisso. Nixon pode ter sido mais realista e trabalhar para ele significa aceitar alguns de seus princípios.

Mas, no instante que Nixon se foi, é muito interessante ver que o tom de Kissinger muda. Este é um tema para o volume dois da biografia. Por exemplo, Kissinger manifesta-se pública e abertamente contra o domínio da minoria branca na África do Sul e faz uma série de discursos explicando por que isso não era moralmente sustentável. Isso não é realismo. A visão realista diria que os sul-africanos são nossos homens contra os comunistas, então deveríamos voltar atrás, embora seu regime seja uma espécie de regime fascista de apartheid.

Como essas controvérsias e a relação com guerras e governos autoritários ao redor do mundo afetam a percepção do legado de Kissinger?

As polêmicas realmente remontam a jornalistas como Seymour Hersh e Christopher Hitchens, que criaram uma distorção porque atribuíram enorme importância ao que se poderia chamar de países pequenos (Camboja, Chile, Bangladesh, Timor Leste) e ignoraram a grande questão, que foi a Guerra Fria com a União Soviética. Não se quer minimizar o sofrimento das pessoas nesses países. Mas eram lugares relativamente e estrategicamente sem importância em comparação com a União Soviética, que representava uma enorme ameaça à liberdade em todo o mundo. Aliados soviéticos como o Vietnã do Norte também representavam uma ameaça. É claro que coisas ruins aconteceram, sempre acontecem. Há coisas ruins acontecendo agora com Antony Blinken como Secretário de Estado. A política externa não é uma escolha entre o bem e o mal. Geralmente trata-se de escolhas entre males e o tomador de decisão tem de tentar descobrir qual é o mal menor.

Tem que haver uma ordem de prioridades. Não se pode tratar todos os casos e todas as questões como se fossem igualmente importantes. Evitar a Terceira Guerra Mundial, impedir que os soviéticos controlassem mais países, encontrar uma maneira de a China criar algum tipo de divisão no mundo comunista, tirar os soviéticos do Oriente Médio lideravam a escala de importância. O futuro do Chile é algo como o item número 23 da lista; o futuro de Timor Leste é como o item 103. É isso que os críticos não parecem ser capazes de entender: que é preciso ter uma hierarquia de prioridades em qualquer situação estratégica.

Neste volume, você narra a viagem de Kissinger ao Brasil em 1962 e como ele percebeu o cenário anterior ao golpe militar. A influência americana no governo brasileiro durante a ditadura estará mais presente na segunda parte da biografia?

O próximo volume terá mais sobre o Brasil. Muito mais, na verdade. A visão de Kissinger sobre a América Latina sempre foi a de que o Brasil é o país mais importante e, quando tratam sobre o tema, sempre lembram do Chile.

Em 1976, quando os EUA e o Brasil assinam um acordo de cooperação política e econômica, Kissinger volta ao Brasil. Isso foi muito tarde, no final de sua carreira, durante a presidência de Gerald Ford. Estou muito impressionado com o jeito que Kissinger fala sobre o relacionamento dos países naquela época, portanto, a visita de fevereiro de 1976 ao Brasil será um episódio importante no próximo volume. Não direi mais nada porque ainda estou trabalhando nisso.

O fim da Guerra do Vietnã, o golpe no Chile, os bombardeios no Camboja e outros eventos decisivos acontecem depois de 1968. Você acredita que o desafio de escrever o segundo volume da biografia de Kissinger é maior?


É mais desafiador porque depois de 1968 Kissinger faz parte de uma administração em que há muito mais pessoas na tomada de decisão. Às vezes há exagero na atribuição das decisões a Kissinger porque, na verdade, como conselheiro de Segurança Nacional, você é apenas um conselheiro do presidente.

Algumas das questões do Chile, em particular, são muito controversas. Mas na América Latina em geral os EUA estavam a lidar com regimes não-democráticos na Argentina, no Brasil e, por isso, temos o problema fundamental que toda administração teve de lidar desde Franklin Roosevelt: você não consegue lidar apenas com democracias na política externa. Parte do meu papel no segundo volume é mostrar que não há nada de especialmente invulgar no envolvimento de Kissinger com regimes autoritários na sua tentativa de estabelecer uma comunidade pró-Estados Unidos e pró-ocidental, porque a alternativa era deixar os soviéticos ganharem mais terreno.

Era razoável que os líderes políticos norte-americanos não quisessem outra Cuba. Isso acabou acontecendo na Nicarágua, mas foi evitado no Chile e em outros países importantes. Você pode dizer que foi um movimento ruim porque Pinochet (Augusto, ditador chileno) fez coisas ruins, mas talvez coisas piores acontecessem sob o comunismo. Esse é o problema central da política latino-americana da década de 1970.

O interessante é que o Chile se torna uma democracia depois, a Coreia do Sul e Taiwan também, mostrando que não é um fenômeno só latino-americano. Portanto, a estratégia americana de trabalhar com regimes militares foi eficiente em termos de resultados. Olhe para a Coreia do Norte, olhe para Cuba: os resultados para os seus cidadãos foram terríveis economicamente e politicamente, e esses regimes ainda estão lá. 


Serviço

“Kissinger - 1923-1968: o idealista”
De Niall Ferguson
Tradução de Solange Pinheiro, Claudia Santana e Angela Tesheiner.
Editora Planeta Livros
1.008 páginas
R$ 229,90