Menos informação, mais explicação

“A velocidade vertiginosa do tempo se manifesta no cotidiano, no dia a dia. Você não tem tempo para mais nada. Não tem tempo para ler, não tem tempo para isso ou aquilo. Uma das angústias do tempo moderno é realmente essa falta de tempo. Você sai da televisão, da internet ou do rádio sem saber exatamente o que está acontecendo. A gente recebe informação demais, mas não tem explicação. Eu costumo dizer que o melhor jornal hoje seria feito não com informação, mas com explicação. Porque você tem informação demais. Como se tem indigestão comendo muito, a gente está tendo indigestão recebendo informação demais.”

Zuenir Ventura (1931-2026), em conversa com Luis Fernando Verissimo no Sempre um Papo, em 2011, no lançamento do livro “Conversa sobre o tempo”, em co-autoria com Arthur Dapieve. 

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Atenção: ironia!

“O problema de escrever com ironia é que a gente precisa ser lido com ironia também. Se a pessoa não entende ironia, não entende nada. Eu me lembro que uma vez escrevi que o mal do Brasil era o povo brasileiro, que era miserável, desdentado, feio, e que, para o Brasil melhorar, tinha que trocar de povo. Ter um povo mais escandinavo, mais bonito. E teve gente que levou isso a sério e concordou comigo. Outra vez, escrevi uma crônica sobre o Lula, porque alguém tinha reclamado que ele estava tomando um vinho francês muito bom. Eu concordei ironicamente: como é que pode um sujeito como ele tomar vinho francês? Qualquer dia vai querer ser presidente da República! A gente, quando vai escrever com ironia, tem que anunciar: atenção, ironia!”

Luis Fernando Verissimo (1936-2025), em 2011. 

Tribo da sensibilidade

“Descobri há tempos que há no mundo um grupo de pessoas que, sem o saberem, estão juntas. Podem mesmo até não se dar bem, podem até ser inimigos, podem ter problemas de relação, questões de inveja, podem até seguir caminhos diferentes, mas, no fundo, pertencem àquilo a que eu chamo a tribo da sensibilidade. São aqueles para quem a arte, o ser humano, a criação, a invenção, o sonho, a ilusão e o trabalho têm um valor muito maior que o valor material. A tribo da sensibilidade não se compõe só daqueles que fazem, mas também daqueles que usufruem, que desfrutam. São os bailarinos, os cantores, os músicos e também as pessoas que estão sentadas aí. Isto que nos reúne nesta coisa mágica, essa tribo da sensibilidade, vai-se reunindo de cada vez, aplaudindo ou não aplaudindo, protestando, aclamando, sentindo, rindo, chorando. Somos nós.”

José Saramago (1922-2010), em Belo Horizonte, em 1999.

Chico Buarque observa a leitura de Raduan Nassar para o romance “Estorvo”, do cantor e compositorArquivo/Sempre Um Papo

Atenção do olhar sobre as coisas

“O que está acontecendo é que esse mundo nosso, de uma maneira mais aguda e mais perversa, está perdendo a capacidade de atenção. O poeta não tem que ser esforçado, mas atento. E a atenção é a atenção do olhar sobre as coisas. Mas isso, eu acho que seria uma maravilha nós todos termos isso, porque a atenção, a atenção real diante de uma pessoa, diante de um objeto ou diante de algo que eu estou fazendo, é que me dá a possibilidade de conhecimento e de viver minha experiência humana.”

Adélia Prado, em 2014.

Solidão não é isolamento

“Eu acho que você deve aprender a curtir a solidão para poder se relacionar bem consigo e com os outros. Mas solidão não é isolamento, são coisas diferentes. Solidão é aquele momento, aquela fase de parar para pensar, para revisar sua vida, o momento para ficar quieto, para curtir até mesmo uma coisa boa. Nós confundimos muito solidão com coisa negativa. A vida partilhada com uma pessoa legal, seja um amor, seja um amigo, seja uma pessoa da família, é uma vida enriquecida. É quando você divide e aumenta e enriquece.”

Lya Luft (1938-2021), no lançamento do livro “Para não dizer adeus”, em 2005.

O cartunista Ziraldo e a escritora Adriana Falcão com Afonso BorgesArquivo/Sempre Um Papo

Companheiro de intimidade

“Todo mundo pode aprender a gostar de ler, porque não existe nada melhor no mundo do que ouvir uma história. Imagina você ouvir uma história, você mesmo contar para você. Essa coisa maravilhosa do convívio com o livro. O livro você pode levar para a cama, pode levar para o banheiro. O livro é o grande companheiro da intimidade do ser humano. Porque só a palavra gravada é que permitiu que o homem evoluísse. Gutenberg inventou a imprensa, o livro saiu dos conventos e pôde ser disseminado para a população. Em 500 anos, por causa do livro, o homem saiu da charrete para a Lua. O homem só chegou à Lua porque leu.”

Ziraldo (1931-2026), em 2010.

Aprendizado constante

“Qualquer leitura é importante para levar a criança, primeiro, e depois os jovens, para a literatura. Porque a leitura é uma descidinha, é uma rampinha que você chega ali e só pode descer em busca de uma literatura, uma leitura mais sofisticada, mais completa, mais informativa. Então você não para. A leitura e o ensinamento que ela traz são um aprendizado constante, permanente, que te aperfeiçoa na comunicação e também aperfeiçoa o seu aprendizado.”

Mauricio de Sousa, na comemoração de seus 80 anos, em 2016.

Fascínio pelo idioma

“Eu sou uma escritora que devo enaltecer, desde imediato, a minha grande paixão pela literatura. Eu costumo dizer que é um ofício muito difícil, mas, ao mesmo tempo, eu nada tenho a reclamar desse ofício, porque esse ofício me deu tudo, me fez essa pessoa que eu sou. E eu tenho a impressão de que eu vou servir esse ofício até o final da minha vida. E espero, até quando eu estiver indo embora, se tiver tempo, numa despedida, que eu escreva uma fala, eu pense: meu Deus, valeu a pena ter escrito, ter convivido tão intimamente com a criação, tão de perto com a língua portuguesa, que eu acho um tesouro extraordinário. Nada pode ser mais fascinante, mais sedutor que o uso pleno, fecundo da língua portuguesa.”

Nélida Piñon (1937-2022), ao lançar o livro “Vozes do deserto”, em 2004.

Curadoria da própria vida

“O trabalho que a gente faz não é para você fazer uma curadoria do que você lê, mas é fazer a curadoria da sua vida. O que é relevante? Quando me perguntam o que é maturidade de verdade, maturidade talvez sejam três coisas dificílimas. A primeira é saber quem você é. É difícil saber quem você é. A segunda é saber o que você realmente quer na vida. Difícil. E depois a terceira é fundamental: sabendo quem você é, o que você quer, o que você faz com isso? E quando você faz isso, eu acho que pode se despedir da vida assim: pelo menos descobri quem sou eu, descobri o que eu quero e fiz na minha vida um ato criativo do que eu sou e do que eu quero.”

Gilberto Dimenstein (1956-2020), em conversa com Mario Sergio Cortella sobre o livro “A era da curadoria”, em 2019.

Contrabandista de almas

“De repente, eu percebi que ele fazia isto com uma convicção e com um sentido de prazer de ser um outro, de viajar para uma outra identidade. E eu percebi: aqui está a origem do teatro. A gente está sempre a pensar se o teatro nasceu no Japão ou se nasceu na Grécia Antiga. O teatro nasceu conosco, quando nós percebemos que temos que ser um outro, que temos essa necessidade vital de transitarmos de identidade, de não sermos uma só, de não sermos prisioneiros de uma só coisa. Acho que aqui está o nascimento não só desta necessidade de nos representarmos, mas também o nascimento da própria escrita. Porque o escritor é isso: ele é um viajante, é uma espécie de contrabandista de almas e tem esta disponibilidade de deixar de ser ele próprio.”

Mia Couto, em conversa com José Eduardo Agualusa, em 2009.

A pergunta mais difícil do biógrafo

“Todo personagem tem uma variedade de cenários nos quais se move. O biógrafo pode não saber em profundidade sobre cada um, mas ele sabe um pouco de todos. A família sabe muito bem o que se passa ali na sua proximidade. Então, com esse tipo de conhecimento, chega o momento em que você pode se fazer o seguinte desafio: qual é a pergunta mais difícil que eu posso fazer sobre ele e que eu próprio não saiba responder? Aí, quando você não consegue fazer essa pergunta, pode estar na hora de começar a escrever.”

Ruy Castro, no lançamento da biografia “Carmen”, em 2014.

Cultura sem isolamento

“A grande missão da política cultural tem alguns pontos orientadores, e talvez o primeiríssimo de todos seja a questão do acesso, a facilitação, a abertura da porta. A ideia do Sesc Pompeia, é o que eu falo sempre para quem conhece, é uma rua que entra. A cultura tem que lidar com isso. A cultura não pode ser fechada, embotada, enclausurada, isolada. Ela tem que permitir que as pessoas entrem, cheguem. Cheguem para quê? Para ver, para apreciar, primeiramente para constituir a plateia, para ser parte da audiência, para ouvir, para ter acesso. Esse é o primeiro movimento importante, mas não suficiente.”

Danilo Santos Miranda (1943-2023), na palestra “Cultura, Cidadania e Desenvolvimento”, em 2012.

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Jô Soares no lançamento de seu romance de estreia, “O Xangô de Baker Street”, em BHArquivo/Sempre Um Papo

Fábio Lins e Leonardo Padura são as próximas atrações

Próximos convidados do Sempre um Papo, o brasileiro Fábio Lins e o cubano Leonardo Padura relacionam literatura, memória e história em suas obras. Na próxima segunda-feira (9/11), às 13h, Fábio Lins participa do projeto no auditório do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG). Vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026, ele lança “Drummond e a Administração Pública: o encontro da poesia com a burocracia na vida e obra de Carlos Drummond de Andrade” (Editora Fórum, 2025). A pesquisa explora a trajetória do poeta como servidor público e as relações entre sua criação literária e o cotidiano da burocracia. Com base em correspondências, entrevistas, poemas e crônicas, a obra propõe uma leitura de Drummond que também ilumina a história política e institucional brasileira. Procurador do Estado de Alagoas e professor da UFAL e do CESMAC, Fábio é doutor em Direito Administrativo pela Universidade de Salamanca, na Espanha, e estuda as relações entre literatura e administração pública. Já no dia 1º de dezembro, terça-feira, Leonardo Padura vem a Belo Horizonte para apresentar “Ir até Havana” (Boitempo Editorial), viagem pessoal e literária pela capital cubana. O livro combina lembranças, lugares e passagens de sua ficção, revelando a cidade que inspira os personagens de um dos maiores da literatura latino-americana. Nascido em Havana, em 1955, Padura é conhecido pela série de policiais protagonizados pelo detetive Mario Conde e pelo romance “O homem que amava os cachorros”, best seller no Brasil e em outros países.

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