A biografia de Lula, cujo terceiro volume está em preparação, integra uma trajetória em que Fernando Morais fez da reportagem a base de sua produção literária. Ao longo de mais de seis décadas de jornalismo, o escritor mineiro investigou personagens e acontecimentos da história brasileira, publicou livros no exterior e viu suas pesquisas chegarem ao cinema e ao teatro.

Entrevista: Fernando Morais: "Lula é um fenômeno singular"

Nascido em Mariana, em 1946, Morais começou na profissão em 1961. Passou pelo Jornal da Tarde, por Veja, Folha de S.Paulo, Visão e TV Cultura. Nas redações, desenvolveu o método que levaria para os livros: entrevistar, reunir documentos, confrontar versões e reconstruir acontecimentos. A mudança de formato permitiu dedicar mais tempo à pesquisa e à escrita, recuperando detalhes e circunstâncias que nem sempre encontram espaço na cobertura diária.

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“Eu não tenho pretensão de rivalizar com historiadores, levantar tendências, repensar o ideário em torno de uma pessoa ou episódio”, afirma. Seu interesse pelo passado parte desse olhar de repórter, atento às experiências individuais, às contradições dos personagens e aos aspectos de uma história que permaneceram pouco conhecidos.

A passagem do jornal para o livro começou com uma viagem pelo traçado da Transamazônica. Realizada com Ricardo Gontijo para o Jornal da Tarde, a reportagem recebeu o Prêmio Esso de 1970 e foi publicada em volume naquele ano. O trabalho colocou os jornalistas diante da realidade amazônica e das promessas de integração nacional que acompanhavam o projeto da rodovia durante a ditadura militar.

Seis anos depois, uma temporada de três meses em Cuba deu origem a A ilha. O Brasil mantinha rompidas as relações diplomáticas com o país de Fidel Castro, e a reportagem abriu aos leitores uma perspectiva sobre o cotidiano cubano. O sucesso editorial veio acompanhado de controvérsia e da apreensão do livro em dois estados.

A pesquisa de campo e a disposição para ouvir personagens de diferentes ambientes acompanharam o restante da carreira. Morais entrevistou dirigentes políticos, escritores e intelectuais como Fidel Castro, Gabriel García Márquez, José Saramago, Eric Hobsbawm e Yasser Arafat. Essa diversidade também aparece na escolha de seus temas, que passam pela militância política, pela imprensa, pela publicidade e pela cultura.

As biografias de Olga Benário, Assis Chateaubriand e Paulo Coelho deram projeção a essa vertente de seu trabalho. Ao investigar uma vida, Morais procura reconstruir também as relações pessoais e as circunstâncias históricas que ajudam a compreendê-la. A intimidade dos personagens divide espaço com suas decisões públicas, seus conflitos e sua participação nos acontecimentos.

Fernando Morais prepara terceira parte da biografia de Lula Reprodução
Fernando Morais prepara terceira parte da biografia de Lula Reprodução
Fernando Morais prepara terceira parte da biografia de Lula Reprodução
Fernando Morais prepara terceira parte da biografia de Lula Reprodução
Fernando Morais prepara terceira parte da biografia de Lula Reprodução
Fernando Morais prepara terceira parte da biografia de Lula Ricardo Stuckert
Fernando Morais prepara terceira parte da biografia de Lula Reprodução
Fernando Morais prepara terceira parte da biografia de Lula Reprodução
Fernando Morais prepara terceira parte da biografia de Lula Reprodução
Ricardo Stuckert Reprodução
Fernando Morais prepara terceira parte da biografia de Lula Reprodução

Em outras obras, o centro da investigação é um episódio coletivo. Foi o caso da violência entre imigrantes japoneses no Brasil após a Segunda Guerra Mundial, tema de Corações sujos, que recebeu o Jabuti de Livro do Ano em 2001. A pesquisa sobre agentes cubanos infiltrados nos Estados Unidos seguiu outra frente, mostrando a permanência dos conflitos da Guerra Fria na vida de seus participantes.

O alcance dessa produção ultrapassou o país. Seus livros foram publicados em mercados como França, Alemanha, Estados Unidos e Portugal. No cinema, Olga, Chatô e Corações sujos ganharam adaptações brasileiras, enquanto Os últimos soldados da Guerra Fria deu origem a Wasp Network, dirigido por Olivier Assayas. Morais também assina, com Eduardo Bakr, o texto do musical Chatô & os Diários Associados — 100 Anos de Paixão.

Sua participação no audiovisual inclui o roteiro da minissérie documental Cinco dias que abalaram o Brasil, sobre o suicídio de Getúlio Vargas, e o argumento de Operação Pedro Pan. São trabalhos que ampliam os meios de apresentar ao público histórias pesquisadas pelo jornalista.

A atuação de Morais se estendeu ainda à vida pública. Foi deputado estadual e secretário da Cultura e da Educação de São Paulo. Na carreira jornalística, recebeu três prêmios Esso e, em 2023, foi homenageado com o Prêmio Especial Vladimir Herzog.

Aos 80 anos, mantém novos projetos de pesquisa e escrita. Além da continuidade da biografia de Lula, prepara República de Princesa, sobre o episódio político paraibano ligado à Revolução de 1930. A investigação de documentos e testemunhos permanece no centro de seu trabalho.

Meio século de jornalismo em debate na USP

A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP, e o Centro Brasil Memória promovem, em 9 e 10 de novembro, um seminário sobre as relações entre jornalismo, biografia e escrita da história a partir da obra de Fernando Morais. O encontro celebra os 80 anos do escritor e os 50 anos de publicação de A ilha. A programação terá seis mesas de debates. Morais fará o encerramento, com o tema “Meio século de jornalismo como História e de jornalismo como literatura”.

Quando: 9 e 10 de novembro de 2026, das 10h às 18h.
Onde: Espaço Brasiliana, na Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, São Paulo.
Entrada: gratuita, com inscrição obrigatória e vagas limitadas.
Inscrições: https://forms.gle/4wLjvBFawAXCpQzd9

Outros livros

Transamazônica
Resultado da reportagem premiada de 1970, o livro acompanha a viagem de Morais e Ricardo Gontijo pelo traçado da rodovia. O relato confronta o projeto de integração nacional da ditadura com a realidade amazônica e as promessas de progresso na região.

A ilha
Após três meses em Cuba, Morais retrata o país de Fidel Castro, então distante dos brasileiros pela ruptura diplomática. Lançada em 1976, a reportagem provocou polêmica e virou sucesso editorial ao apresentar o cotidiano cubano durante a Guerra Fria.

Olga
Morais reconstitui a vida de Olga Benário, judia e comunista entregue pelo governo Vargas à Alemanha nazista. Sua relação com Luís Carlos Prestes, a separação da filha e a morte da militante aproximam a violência política de sua experiência familiar.

Chatô
A biografia de Assis Chateaubriand percorre os bastidores da imprensa, da política e dos negócios. Ao narrar a formação dos Diários Associados e a criação do Masp, Morais examina as ambições e contradições dessa figura central da comunicação no país.

Cem quilos de ouro
A coletânea reúne 12 reportagens de Morais, acompanhadas de relatos de sua produção. O texto do título narra um sequestro cujo resgate foi exigido em ouro. Os bastidores da apuração permitem acompanhar as escolhas e desafios do trabalho jornalístico.

Corações sujos
A recusa de parte da comunidade japonesa em aceitar a derrota do Japão, em 1945, provocou perseguições e assassinatos no Brasil. Morais investiga a Shindo Renmei e revela como o fanatismo e a negação dos fatos dividiram imigrantes e destruíram vidas.

Na toca dos leões
As trajetórias de Washington Olivetto, Javier Llussá e Gabriel Zellmeister conduzem a história da W/Brasil. Morais acompanha a formação da agência e os bastidores da publicidade, associando a criação de campanhas às ambições e às disputas do mercado.

Montenegro
A vida de Casimiro Montenegro Filho, idealizador do ITA, ajuda a conhecer a formação da aviação brasileira. Morais retrata o militar que apostou no ensino de engenharia, ligando sua trajetória à pesquisa e ao desenvolvimento da indústria aeronáutica.

O Mago
A partir dos diários de Paulo Coelho, Morais reconstitui a vida até o sucesso internacional. Internações, vivências com o ocultismo e a parceria com Raul Seixas revelam conflitos e escolhas anteriores à consagração literária do autor de O alquimista.

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Os últimos soldados da Guerra Fria
Morais investiga a Rede Vespa, com agentes cubanos infiltrados em organizações anticastristas nos Estados Unidos. A reportagem aproxima espionagem e dramas familiares, mostrando como o conflito entre Havana e Washington atravessou vidas clandestinas.

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