Foram mais de mil dias de pesquisa, escrita e imersão em documentos e páginas de jornais para focar em apenas oito – intensos e decisivos – de um período traumático da história do país. Em seu novo livro “A máquina do Golpe – 1964: Como foi desmontada a democracia no Brasil” (Companhia das Letras), a historiadora, cientista política e professora titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Heloisa Murgel Starling, convida o leitor para uma viagem ao tempo em que os militares chegaram ao poder após deposto o presidente João Goulart, o Jango (1919-1976).

Coordenadora do Projeto República, na UFMG, Heloísa diz que a obra interessa a todo mundo, sem didatismo. “É muito diferente, por exemplo, de um texto acadêmico. Neste livro, construí as cenas de forma bem atraente, no ritmo dos acontecimentos. A sequência de fotos, muitas delas com grande conexão com os tempos atuais, não são simplesmente ilustrativas, pois trazem o clima de documentário”, afirma a autora, que lançou o livro na quinta-feira, em Belo Horizonte. Já na capa, está um flagrante registrado pelo fotógrafo da extinta revista “Manchete”, publicada em 25 de abril de 1964, mostrando as tropas de prontidão diante do Congresso Nacional, em Brasília (DF).

Nas fontes pesquisadas durante três anos, nos quais investigação e redação correram paralelas, Heloisa buscou informações em vários arquivos, incluindo o do Estado de Minas. Reportagens do jornal mostraram Juiz de Fora (Zona da Mata) como ponto de partida do golpe, já que em 1º de abril de 64, o general Olímpio Mourão Filho, comandante da 4ª Divisão Militar do Exército, ordenou o deslocamento das suas tropas em direção ao Rio de Janeiro (RJ). “Sempre digo que historiador e jornalista são parceiros. Enquanto o jornalista conta o que está acontecendo, o historiador explica o porquê”, observa Heloisa. Por isso, acrescenta, em cada lançamento de “A máquina do Golpe”, é convidado um jornalista para debater o assunto.

A frase é a deixa para a autora revelar aspectos do processo criativo, para o qual contribuiu sua equipe do Projeto República. “Escrever não é fácil! Acontece de a gente estar produzindo o texto e, de repente, descobrir que precisa de mais informações. Assim, tenho que citar o pesquisador Francis Duarte, que parece ter uma ‘caixa mágica’...bastou eu fazer uma pergunta que ele tem logo a informação necessária”.

A pesquisa contemplou jornais que eram “contra e a favor”, pois uns tratavam o fato como golpe, outros revolução. Assim, “cruzei dados o tempo todo, verificando os dois lados das notícias para extrair a informação mais precisa”.

E como surgiu a ideia de fazer o livro? “Foi do meu editor na Companhia das Letras, Otávio Marques da Costa. Era para ter sido publicado em 2024, nos 60 anos do golpe. Mas, agora, ganha mais importância (no período eleitoral) para que as pessoas reflitam e entendam o que é um golpe e o perigo para a democracia. Na verdade, é fundamental defendermos sempre a democracia”.


ECOS DE 64

Na véspera do segundo turno da eleição presidencial, Heloisa fala da necessidade de se falar da chegada dos militares ao poder, um período que durou até 1985 e foi chamado de “anos de chumbo”. Segundo ela, “os ecos de 64 ainda estão muito fortes, com a presença de grupos reacionários querendo falsificar a história, dizendo que foi uma revolução”. O malsucedido 8 de janeiro (de 2023), ressalta, foi “uma segunda fase do golpe”, uma tentativa de impedir o presidente Lula de exercer o mandato.

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Em resumo, o que a autora quer mesmo é levar o leitor pelo braço e viajar a outros tempos. E contar história. “A universidade produz o conhecimento e é essencial levar esse conhecimento para o mundo real, a sociedade. Então, narro a história num ritmo próprio, reconstruindo os momentos muitas vezes num tom cinematográfico”.

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