31 de março - 5h u Juiz de Fora

Leia as primeiras páginas de "A máquina do golpe", de Heloísa Starling

Leia as primeiras páginas do livro "A máquina do golpe", da historiadora mineira Heloisa Murgel Starling, que reconstitui os oito dias decisivos para consolidação do golpe militar em 1964

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Heloisa Starling

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Madrugada, 31 de março de 1964, terça-feira. Até então, tudo são rumores. O golpe de Estado ressoava na cabeça de quase todo mundo; só não se sabia onde e quando iria acontecer, e em qual circunstância específica a operação seria levada a cabo. É o momento mais imprevisível da noite. Por volta das cinco horas dessa madrugada, o pavio foi aceso em Minas Gerais – e o que parecia ruim iria piorar em breve. O general Olympio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar e da 4ª Divisão de Infantaria do i Exército, sediadas em Juiz de Fora, era um oficial aventureiro e arrivista à procura de uma crise que lhe servisse de escada para emplacar suas ambições de poder. E no cenário turbulento dos primeiros anos da década de 1960, quando a instabilidade política nacional ebuliu ganhando novos contornos, o general percebeu que ali estava sua chance.

Leia: Heloísa Starling reconstitui os oito dias decisivos do golpe de 1964

Crises facilitam a mobilização autoritária. Aceleram o processo de desintegração das normas básicas de tolerância democrática, além de acentuar na sociedade uma síndrome de intensa animosidade política. Existem múltiplas saídas para crises, mas com um elemento comum: devem conter a sangria rapidamente. Na conjuntura brasileira, o problema fundamental era: para impedir que o quadro de crise persistisse indefinidamente, alguma decisão precisava ser tomada. Não foi o que se deu. Bem ao contrário, aliás. Estavam acesos havia um bom tempo os sinalizadores-padrão de que algo poderia dar errado, virar força social e ser usado politicamente contra a democracia. Uma situação de polarização ideológica corroía os partidos, inviabilizando negociações e coalizões legislativas. A radicalização se acirrou na sociedade, criando uma atmosfera de medo, desconfiança mútua e intolerância. A contínua troca de ministros e dirigentes de órgãos estatais — a maior taxa de rotatividade de equipe governamental ocorrida no país após 1946 – revelava a condição de desequilíbrio do sistema político. O Poder Executivo tornou-se incapaz de produzir decisões operacionais sobre as questões mais urgentes na época.

Para piorar as coisas, política e economia se empurravam reciprocamente para baixo: aumentou a inflação, caiu a taxa de crescimento econômico, a dívida externa continuava sem solução. E muita gente com orientações distintas e agendas opostas argumentava, à direita e à esquerda, que democracia no Brasil era algo dispensável. Com o país nas voltas de um torvelinho político que girava em curva aberta provocando uma dinâmica de ruptura institucional, a janela de oportunidade se apresentou e, por ela, poderia passar, sem grande dificuldade, um aspirante a ditador.

Àquela altura da madrugada, Mourão se agarrou de vez à sua percepção de oportunidade. Decidiu apertar o passo, virar a mesa e precipitar a intervenção militar. Ele tinha pressa. Estava às portas da aposentadoria compulsória, iria para a reserva de mãos vazias, sem ostentar na farda a cobiçada quarta estrela de fundo dourado indicando a patente de general de Exército — o mais alto posto hierárquico na força terrestre —, e tratou de buscar um atalho capaz de potencializar com folga seu papel na chefia da conspiração golpista. Autonomeou-se “Comandante das Forças em Operações da Defesa da Democracia”, movimentou tropas em direção ao Rio de Janeiro e atropelou a linha de frente da rede de conspiradores meticulosamente organizada para derrubar o governo de João Goulart por meio de um golpe de Estado, com envolvimento direto de altas patentes das Forças Armadas, empresários, lideranças políticas e governadores. A antecipação do levante em Minas surpreen-deu todo mundo e acelerou os acontecimentos.

Às 6h40 de 31 de março, o general Mourão pôs em marcha cerca de 2.700 homens, dando início ao que tencionava ser um “gol-pe de autor”— a operação militar planejada para encarar uma pretensa ameaça de interesse nacional capaz de justificar ações de emergência, com um oficial graduado à frente, em posição de força. É bem verdade que o general era bravateiro. Ainda no começo do mês de setembro de 1963, mal se instalou no comando da principal unidade logística e operacional do Exército em Minas, ele expôs seu plano golpista à liderança da conspiração contra o governo de João Goulart que atuava em Belo Horizonte. Seria a “Operação Popeye”, informou – o nome fazia referência ao marinheiro Popeye, personagem popular dos quadrinhos que, como o próprio Mourão, estava sempre acompanhado de um cachimbo. Anunciou a todos que pretendia partir de Juiz de Fora com um efetivo relativamente reduzido, […] de surpresa e à noite, de modo a atingir o Rio entre quatro e seis horas da manhã, em condições de tomar o Quartel-General do Exército, prender no Palácio das Laranjeiras o presidente, o comandante do i Exército e quantas autoridades mais fosse possível segurar.

A sandice saltava aos olhos de paisanos e fardados, mas os integrantes de seu “Estado-Maior Revolucionário” se encarregaram de frear o disparate bélico, bem como ao general que ambicionava comandá-lo. Composto de oito oficiais, o grupo havia sido constituído pelo próprio Mourão em agosto de 1963, com a incumbência de “estudar e preparar as operações [para deflagração do golpe militar], de modo a colocar o comandante em condições de dar a par-tida quando oportuna”.

A palavra “golpe” é polissêmica: alinha diversas camadas de sentido que, no entanto, guardam certa relação entre si. Quer dizer “revés” — alguma coisa inesperada seguiu um percurso oblíquo e se mostrou adversa ou malogrou em determinada situação. Golpes de Estado são movimentos específicos e imprevisíveis de revés: o corpo político é assaltado por uma sequência de ações cujo alvo é a conquista do poder em curto prazo. Por conta disso, são atos táticos potencialmente violentos que se utilizam de meios excepcionais, atentam contra as leis e a Constituição. Compreendem fases distintas de realização – conspiração, execução, con-quista, conservação do poder –, bem como ritmo e dinâmica própria. A ação é desfechada de fora do governo, mas de dentro do Estado para tomada do poder pela coerção ou pela ameaça de seu uso. Na maior parte das vezes, o núcleo golpista provém de alguma área do funcionalismo público permanente, incluindo as Forças Armadas, policiais e de segurança — todos, funcionários do Estado. Golpes eclodem numa dinâmica de crise de que se benefi-ciam seus protagonistas capazes de entender que estão diante de uma circunstância institucional com potencial disruptivo da qual é possível se aproveitar para apossar-se ilegalmente do controle político em benefício de seus interesses particulares ou dos grupos envolvidos na ação.

A deflagração do golpe de Estado planejada em Juiz de Fora apoiava-se numa manobra estritamente militar a ser executada em duas fases conjugadas. A primeira fase da operação acenderia o rastilho, materializando o evento insurrecional. O ataque seria lançado pelo Quartel-General da 4a Região Militar, mas a tropa permaneceria estacionada a certa altura do trajeto para o Rio de Janeiro, em posição de espera. Era uma manobra bem calibrada. Dispararia o levante capaz de provocar a virada de mesa, instalaria a desordem institucional, abriria a porta para as Forças Armadas irromperem declaradamente na cena política – de quebra, ainda fornecia a Mourão a tão sonhada oportunidade de poder. A partir de então, com a adesão de outras unidades militares, a segunda fase da operação teria início e seria consolidada. Sustentadas por um efeito dominó que se sucederia sobre todo o país, as tropas de Juiz de Fora finalmente avançariam em direção ao Rio de Janeiro para tomar de assalto o Ministério da Guerra e destituir, a qualquer preço, o presidente da República.

Sobre a autora

Heloisa Murgel Starling (foto) é historiadora e cientista política, professora titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É autora de “Os senhores das gerais” (1986), “Lembranças do Brasil” (1999), “Brasil: Uma biografia” (2015), com Lilia Moritz Schwarcz, “República e democracia: Impasses do Brasil contemporâneo” (2017) e “Ser republicano no Brasil colônia” (2018), entre outros livros.

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“A máquina do golpe”
• De Heloisa Murgel Starling
• Companhia das Letras
• 304 páginas
• R$ 89,90

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