LITERATURA

Primeira leitura: ‘Imaginários emergentes e mulheres negras: Representação, visibilidade e formas de gestar o impossível', de Rosane Borges

Pesquisadora e escritora reflete sobre como Carolina Maria de Jesus transformou a vivência marginal em literatura atemporal

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“Imaginação e imaginário: legitimar um lugar apesar de tudo, como fez Carolina Maria de Jesus”

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Deixei o leito para escrever. Enquanto escrevo vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. Que as janelas são de prata e as luzes de brilhantes. Que a minha vista circula no jardim e eu contemplo as flores de todas as qualidades. […] É preciso criar este ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela. 

Carolina Maria de Jesus, “Quarto de despejo” 

Carolina Maria de Jesus fabulou para reinventar a vida para si e para todas nós, fabulou para desenhar novos horizontes para aquelas que, assim como ela, só poderiam se mover no mundo na condição de faltantes (de tão faltantes que poderiam ser tudo, menos gente), fabulou para manufaturar outra forma de existência. No varejo dos dias, compôs seus relatos, em forma de diários, com uma sensibilidade fina, que rasga, tal como vento forte em noite de frio, a crueza do cotidiano. 

Ainda que a denúncia e a indignação sejam matéria-prima elementar de sua obra, Carolina legou-nos uma narrativa que não foi esmagada sob o peso da aspereza que sua existência teve que carregar, mas foi atravessada pela fantasia que sempre apostou no porvir: “É preciso criar este ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela”. 

Nesse anseio e desejo expressos no processo de escrita, que já é um momento prenhe de imaginação, entreveem-se o passado, o presente e o futuro compondo uma aura benfazeja do tempo, capaz de possibilitar avanços no tecido do agora. A uma vida fatigante, pobre materialmente, absolutamente escassa, a bem da verdade, a autora do célebre “Quarto de despejo” contrapõe uma vida plena, preenchida por signos da riqueza e do bem-estar. Na condição de sem-teto, Carolina imaginou, mais do que isso, projetou, ao modo de uma arquiteta bem detalhista, uma casa só sua, uma casa que pudesse abrigar a soberania que dela tinha sido subtraída. 

Deslizando entre as agruras e as glórias de ser, a autora imaginou um lugar — uma casa, ou melhor, um palácio — apesar de tudo. Ela não se cansa de nos prover imagens emancipatórias que a coloquem no lugar da dignidade (lembram do deslocamento de Lélia Gonzalez?). 

O apesar de tudo aqui se aproxima das reflexões de Didi-Huberman. Indo na contramão da indecidibilidade, da irrepresentabilidade, da impossibilidade para o acontecimento traumático, o pensador francês defende: 

Devemos tentar imaginar o que foi o inferno de Auschwitz no verão de 1944. Não invoquemos o inimaginável. Não nos protejamos dizendo que de qualquer forma não o podemos imaginar — o que é verdade —, já que não poderemos imaginá-lo inteiramente. Mas devemos imaginá-lo, esse inimaginável tão pesado. 

Na trilha de Didi-Huberman, “para saber é preciso imaginar--se”, a imaginação impõe-se como um dever. Quando lançarmos um olhar para a política brasileira e mundial, veremos o quanto essa tarefa é obrigatória. 

Sem querer abrir o leque das referências, pois, como disse na introdução, cabe examinar como as vozes aqui solicitadas atestam um rastro que faz traço, podemos convocar Esperança Garcia (Piauí), Harriet Jacobs (Estados Unidos), Maria Firmina dos Reis (Maranhão), Marie Vieux-Chauvet (Haiti), Maryse Condé (Guadalupe), Simone Schwarz-Bart (Guadalupe), mulheres negras da diáspora que ousaram ao imaginar e concretizar outras formas de configuração da nossa existência por meio de relatos fundadores. 

De fato, nossos passos vêm de longe com as marcas do barro que nos constituiu como seres imaginantes, porque acossadas pelo monstro da escravidão, da exploração e da exclusão. A imaginação é a arma com a qual colocamos em marcha a potência da ação, da reação e do resistir, uma espécie de panóplia que nos encoraja a entrar em campo de ação.

Sobre a autora

A maranhense Rosane Borges nasceu em São Luís em 1974. Formou-se em Comunicação Social na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), fez mestrado, doutorado e pós-doutorado em Jornalismo na Universidade de São Paulo (USP). Hoje trabalha como professora convidada do Diversitas (FFLCHUSP) e professora de comunicação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). É líder de raça e gênero e produtora de inteligência na Rede Globo e Coordenadora da Escola Longa – plataforma de ensino online. Organizou os livros “Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro” (Imesp, 2004), “Mídia e racismo” (DP et Alii, 2012) e é autora de “Esboços de um tempo presente” (Malê, 2021).

“Imaginários emergentes e mulheres negras: representação, visibilidade e formas de gestar o impossível”

De Rosane Borges

Ilustrações de Silvana Mendes (Série “Frestas II”, de 2023)

Editora Instante

224 páginas

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