Angélica Madeira - Especial para o Estado de Minas

Uma leitura muito prazerosa, muito livre e original da obra-prima de Guimarães Rosa. Assim é “Para ler ‘Grande sertão: veredas”, de Italo Moriconi, lançado pela Autêntica nos 70 anos do lançamento de um dos maiores romances da literatura brasileira. O crítico, curador, ensaísta e professor universitário foi bem astuto ao dividir seu texto em duas partes: um diário de leitura e um resumo-guia de um romance, ele sabe, quase, impossível de resumir, aliás quase ilegível.  Vai entre veredas da obra. Pega outros filões de leitura e obriga o texto a falar daquilo que ele quer. A ênfase à sensualidade, à sexualidade e às emoções, tanto nas cenas de guerra, como nas cenas idílicas de amor, muda o foco e traz uma leitura renovada do clássico de Guimarães Rosa. 

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Para comentar o trabalho, temos que nos deslocar da obra para o leitor, para a experiência. Tanto na tradição barthesiana do “prazer do texto”, quanto nos estudos da Estética da Recepção, o mais importante é o ato de ler e a produção que essa leitura suscita. Roland Barthes nos libertou de muitas amarras dos estudos literários, trouxe muita liberdade ao leitor, trazendo seu foco para aspectos inusitados do texto, praticando uma leitura ativa, produtiva. Italo é um leitor bem barthesiano, que anota, que transcreve, que entra no burburinho das vozes que comenta.  

Todas as excelentes críticas que fazem a fortuna de “Grande sertão” são possíveis apenas porque estamos diante de uma obra literária construída com arte, visando uma experiência estética. Para Barthes, e para Italo, o texto se sustenta pela capacidade de atrair, de seduzir o leitor, seja provocando prazer - um prazer sutil, erotizado -, seja levando a uma fruição mais exigente, intelectualmente mais elaborada, identificando seus novelos intrincados, suas pausas, seus vazios, para que o leitor possa agir junto com a obra, reescrevê-la.  

Uma obra como “Grande sertão” oferece imensos desafios: um estranhamento máximo no léxico, na sintaxe e na prosódia, cheia de armadilhas, uma obra que necessita, pede mediação: o roteiro-guia que o Ítalo nos oferece cumpre esse papel: tornar legível o ilegível.

Não é uma leitura qualquer, mas feita por alguém que teve uma vida inteira dedicada aos estudos literários. Portanto, uma leitura selvagem até certo ponto. Selvagem pela ousadia, pela irreverência, pelo foco novo que traz para o romance. As interpretações, mesmo postas entre parênteses, agem no momento da escrita. 

O diário pessoal dá um grande prazer de ler. Em um tom absolutamente à vontade, que não quer e nem precisa provar nada, o diário está ancorado no presente, traz dúvidas, hesitações, traz o sertão para as periferias urbanas, levanta questões não resolvidas, discute como funcionava, e como funciona, o sistema político do Brasil em plena República, vigorando a política dos coronéis e dos jagunços, talvez não de todo superada. Afinal, “Grande sertão” pode ser lido até mesmo na chave da ciência política. 

Já o resumo-guia-ensaio traz perguntas que atualizam o texto de 1956. O que há de inovador na leitura de ítalo é trazer para primeiro plano o tema do amor entre dois jagunços. Um romance de amor gay enrustido. Entre batalhas e cenas líricas, uma história de paixão e de guerras. Binômio que orienta a narrativa e a leitura de Italo. Traz para primeiro plano as questões de gênero, na releitura de Diadorim/Reinaldo como travesti, trans ou ???rógino, envolvido em um amor proibido com um jagunço cisgênero, Riobaldo, flagrando os momentos de sensualidade, de grande tesão, quando toma consciência que seu encantamento por Diadorim era muito mais do que simples amizade. Traz questões de raça e miscigenação, pelo foco nos quilombos escondidos, nos rituais que lá acontecem. 

E, ao focalizar a guerra, traz à tona um aspecto entranhado na tradição da cultura brasileira: o uso da violência como solução de conflitos, o mundo feroz do banditismo. O Mal, o Demo, a crueldade, o matar por prazer. Guerra perpétua, terra conflagrada. Guerra como festa. A guerra dos homens em fúria, Hermógenes, o próprio Demo, o Diabo na rua, no meio do redemoinho, uma forte figuração do Mal. 

 Guerra pontuada por momentos de repouso, responsáveis pelas cenas mais belas, jamais escritas antes em língua portuguesa, a lírica amorosa de Diadorim.  Enfim, obra complexa demais, como estrutura narrativa, como prosódia, como léxico. Texto opaco, que põe resistências e que precisa de mediação da crítica, crítica que deve ser clara, transparente para ajudar o leitor a penetrar nesse emaranhado, nesse cipoal de fios narrativos.  O guia de Italo traz um texto claro, sem ser superficial; erudito, sem ser pedante; desenvolto, sem ser tagarela.

 A obra tem que ser capaz de responder ao leitor arguto, tem que manter-se de pé, e sustentar-se como obra de arte que é, no trabalho que impõe à língua (não vamos esquecer que “Grande sertão” é um experimento modernista), nas artimanhas que usa o narrador para seduzir o ouvinte e, por extensão, o leitor, nas múltiplas possibilidades de leitura que é capaz de suscitar.  A obra por mais que contenha saberes, que tenha seus vínculos com o sertão de verdade – sertão que Italo fez questão de visitar e ver de perto, os quilombos, os rios, as veredas de buriti – por mais que seja tudo isso, ela tem que ser capaz de proporcionar ao leitor uma experiência única, de prazer estético. 

Nós aqui, privilegiados, podemos usufruir a leitura que um escritor astuto, um professor sensível nos oferece, devolvendo em seu texto o prazer e a fruição como critérios para continuar a ler “Grande sertão”. O resumo-guia de Italo é uma bússola que permite ao leitor não se perder naquele intrincado de veredas. Daí esse partido feliz de propor os três começos, ajudando a entender a ordem dos acontecimentos narrados, uma das principais dificuldades do texto rosiano, uma narrativa que se dá ao sabor da memória, que embaralha os tempos e pode facilmente confundir o leitor, tempos superpostos, o zig-zag nas veredas da memória, cerne das dificuldades postas ao resumo que Italo resolve com a solução dos três começos. 

A leitura de Italo enfatiza a dimensão dos afetos, das sensações, de tudo o que há de sensorial no corpo do texto. Esmiúça a dimensão afetiva dos personagens principais, Riobaldo e Diadorim, enfatizando as rusgas, os ciúmes, os pactos, as proibições, as paranoias, tudo o que caracteriza uma relação amorosa, desejo, encantamento, medo, culpa.  Culpa do amor ilícito, regatada pela revelação final, culpa das mortes que carrega nas costas e que quer delegar ao Diabo. 

O texto de Italo serve de modelo, como atitude livre para enfrentar essa “monumentalidade totêmica” do clássico. Uma leitura sofisticada de quem vem de estudos aprofundados de literatura, uma percepção original da obra. As perguntas feitas ao texto literário podem se multiplicar, incansavelmente, ao infinito. Italo faz perguntas que interessam à geração dele, questões de gênero, de afetos, de raça, de política e assim pratica uma leitura renovada de “Grande sertão”, e incita o desejo de reler o clássico que ele comenta. Trata o texto literário como um texto desejante. Quer ser desejado, seduzir, provocar desejo, de ler, de escrever.

Gostaria de concluir relembrando a lição de Barthes quando ele fala dos poderes da literatura que nomeia com três conceitos gregos: mathesis, mimesis e semiosis. A literatura comporta sempre uma multiplicidade de saberes (mathesis); persegue o real, que nunca atinge, (seu poder mimético); e possui esta potencialidade de suscita sempre outros discursos. A semiosis, o exercício da leitura produtiva, que incita o desejo de escrita, fazendo girar os signos, em sua produtividade infinita.

ANGÉLICA MADEIRA é professora do Instituto Rio Branco e professora, colaboradora e pesquisadora da Universidade de Brasília

“Para ler Grande sertão: veredas”

De Italo Moriconi

Autêntica

112 páginas

R$ 44,90

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