Guilherme Gontijo Flores - Especial para o Estado de Minas

Todo poeta é feito de obsessões que retornam regularmente, exigindo uma eclosão. Ingenuamente, podemos ver nesses retornos algo fantasmáticos uma redundância inútil, um beco sem saída da poesia; e talvez isso seja realmente verdade para muitos casos de artistas que parecem fazer dos ciclos obsessivos verdadeiros charcos estagnados, ou caixas de fazer dinheiro. No entanto, nos casos que realmente importam, todo retorno será espiralado, conterá em si germes de mudança muito mais significativos do que a aparente repetição temática e/ou formal. É precisamente o que acontece com este novo livro de Mônica de Aquino, “Tomar parte no enxame”, que acaba de sair pelo Círculo de Poemas, da editora Fósforo.

Aquino está no quinto livro, depois de “Sístole” (2005), “Fundo falso” (2018), “Continuar a nascer” (2019) e “Linha, labirinto” (2020). Todos esses livros, muito explicitamente, tratavam de uma experiência feminina no mundo contemporâneo, de uma singularidade vivencial nas cidades, do convívio e do esvaziamento em que estamos, por vezes retomando motes míticos, por vezes bebendo em cenas muito cotidianas. Mais especificamente, os dois últimos tinham mergulhado também na experiência da maternidade, em diálogo com outras poéticas e poetas.

Tudo isso comparece novamente em “Tomar parte no enxame”; porém maturado num trabalho poético mais sofisticado, num olhar existencial que comporta uma trama de seres para além do seu lugar próprio no mundo. Aqui a poeta, de fato, toma parte num coletivo estranho e alheio, para de lá retornar com um aprendizado em que formas de vida várias convivem tensionadamente.

É o que percebemos desde o primeiro poema do livro, “Um polvo vê os homens”, em que a perspectiva está dada a esse ser marinho, que de dentro da água observa com seus três corações a estranheza de um mamífero monocardíaco, para num dado momento concluir que “toda linguagem é um curto-circuito” (p. 13). Aqui, o feminino, a maternagem, a própria poesia se tornam instrumentos de autoestranhamento e, talvez, de autoredescoberta.

Para que isso aconteça, Aquino atravessa outros seres, como abelhas, aranhas, arraias, baleias, dinossauros, flores, galinhas, formigas, gatos, peixes, polvos, sementes etc. E cada uma dessas alteridades radicais, por sua vez, altera o mesmo do sujeito da poeta.

Não à toa, esses pontos de vista por vezes de confundem em versos como “Difícil era saber da extinção / da própria espécie” (p. 25, “Antes do longo congelamento da superfície”), em que um dinossauro parece viver um dilema muito mais próximo da humanidade contemporânea. Imagem que se reforça mais adiante, quando lemos no poema “Museu de Ciências Naturais”:

Somos anteriores aos dinossauros

as crianças mesclam diferentes eras

é esta a nossa herança

(p. 37)

Nessa perspectiva de escrita, encontrar outros pontos de vista não é mero exercício especulativo. Trata-se antes de um modo de vida em que especular é alterar-se, abrir-se a outros modos de vida em que formas não-humanas caracterizam também o que há de mais humano. Comparemos dois trechos, um de “Tornar-se abelha”.

Enquanto buscamos o néctar

outra forma de criação

paralela acontece

e diriam mesmo algumas abelhas

que é esta nossa verdadeira arte

para a qual o mel é um treino

(testar regras para no momento

central esquecê-las)

Criar é, afinal, espargir,

sem adicionar quase nada de si

além do movimento.

(p. 65)

E outro de “Parir um enxame”:

Com a minha filha,

também um enxame nasce.

Fui seu casulo, sou agora a colmeia

do que acumulo

faço do seu nascimento

um animal múltiplo.

(p. 66)

No primeiro, o movimento parece partir das abelhas rumo a noções demasiado humanas (e talvez até demasiado ocidentais) como arte e criação; além de dar sua ética quasi monástica de produção distante da subjetivação ou da obsessão da autoria. No segundo, a própria poeta se torna casulo, colmeia e enxame diante da filha, que ao nascer nasce um novo enxame. São ambas, mãe e filha, e a poeta-mãe-que-também-é-filha, animais múltiplos que existem em devires transumanos que as moldam e remoldam num convívio. Nessas cenas a natureza está longe de ser um idílio agradável, ou uma cena perdida da origem para a qual devemos meramente retornar. O que se faz ao longo de “Tomar parte no enxame” é um gesto mais complexo e interminável de abraçar o inumano sem compreendê-lo, reconhecendo a cultura como uma forma possível do natural, para ver na natureza camadas outras de cultura, modos de vida projetáveis dentro e fora das nossas próprias vidas.

Daí talvez a retomada de outro aspecto da poesia de Aquino ao longo de duas décadas: a metapoesia. Se tomar parte no enxame é outrar-se ao mesmo tempo em que se adentra um espaço coletivo pré-existente, as condições para esse movimento devem ser o olhar da alteridade, sim, mas também a construção de uma tradição. Daí a importância das epígrafes e das referências espalhadas por todo o livro, com nomes como Adrienne Rich, Maya Angelou, Sylvia Plath, Vinciane Despret, Paul Preciado, Louise Bourgeois etc. O enxame a ser habitado é também a escuta de obras, artistas e poetas que vieram antes; e isso demanda, mais uma vez, uma reflexão sobre a poesia. No “Museu de Ciências Naturais”, a poeta a um só tempo observa os seres expostos e as crianças que os contemplam com maior ou menor interesse:

As crianças distraem-se na caixa de areia,

paleontólogos à procura de fósseis de brinquedo

em pouco tempo, interessam-se menos

pelos gigantescos animais

do que pelos grãos.

Escrever é escavar, elas já sabem

mas fazem o contrário:

encontram e enterram os ossos.

(p. 33)


Desse choque de temporalidades, emerge uma dupla poética: por um lado o imperativo de escrita como escavação, por outro o movimento inescapável de enterrar sempre os ossos. Os poemas de “Tomar parte no enxame” parecem fazer precisamente isso o tempo inteiro: escavam milênios de temporalidade animal, vegetal e mineral, ao mesmo tempo em que encontram e enterram ossos do presente, da vida cotidiana, numa caixa de areia chamada livro.

A mesma preocupação com o que se enterra reaparece no poema 4 da série “Coreografia”, quando Aquino nos lembra: “Não há texto sem subtexto / não há escrita sem arraias enterradas” (p. 74). Talvez a questão esteja mesmo em como enterrar ossos e arraias, para escavar logo depois abelhas e poemas.

Isso tudo me faz retornar à primeira epígrafe do livro, tirada do filósofo espanhol Paul Preciado: “A poesia é a possibilidade de mudar os nomes de todas as coisas, inclusive os nomes próprios”. Preciado fez sua própria poesia entre livros e apostas no próprio e no próprio corpo, trocando de gênero e substituindo o nome de batismo, Beatriz, pelo novo, Paul, que hoje utiliza publicamente. Aquino aposta verdadeiramente nos poemas, porque deles, e do seu retorno espiralado, os novos nomes que hão de surgir não estão determinados: virão como um enxame, do qual poderemos correr para pular nas águas, ou do qual tomaremos parte.

“Tomar parte no enxame”

De Mônica de Aquino

Coleção Círculo de Poemas

Editora Fósforo

104 páginas

R$ 74,90

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Lançamento neste sábado (12/9), às 11h, na Livraria Quixote (Rua Fernandes Tourinho, 274 – Savassi, BH), em bate-papo com Rachel Cecília de Oliveira e Maria Esther Maciel, seguido de leituras de poemas por Ana Martins Marques, Daniel Arelli, Marcelo Drummond e Lucíola Macêdo.

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