Uma das principais escritoras de ficção científica, a norte-americana Ursula K. Le Guin (1929-2018) também dedicou parte de seu tempo a refletir sobre o ato da escrita, com diversos livros e ensaios sobre o tema. Publicado originalmente em 1986, "A teoria da bolsa de ficção" ganha uma reedição caprichada pela editora Cobogó. O ensaio é um dos textos mais citados – e subversivos – de Le Guin. Em poucas páginas, a autora de "A mão esquerda da escuridão" propõe uma revisão radical da narrativa da evolução humana e da criação de histórias de modo geral.

Le Guin parte de um dado: a imensa maioria da alimentação da humanidade na pré-história era composta por vegetais, raízes, frutas e pequenos animais. Porém, as narrativas que se impuseram são e majoritariamente masculinas e sobre caçadas, lanças, armas e animais enormes como os mamutes.

Dessa constatação nasce o argumento central do ensaio: a forma mais antiga e mais humana de tecnologia não é a arma, mas o recipiente, seja ele a bolsa, a cesta, ou o saco que carrega para casa aquilo que foi colhido. Apoiada na teoria da antropóloga Elizabeth Fisher, Le Guin sugere que, antes de qualquer ferramenta usada para matar, houve a necessidade de um objeto para guardar e transportar. E se o recipiente vem antes da arma, então a narrativa que melhor represente a experiência humana não é a da conquista linear, com começo, conflito, clímax, e herói vitorioso, mas a da bolsa: um espaço onde coisas diferentes convivem, se relacionam, sem que nenhuma precise dominar as outras.

A rejeição da arma surge, ainda, em oposição a um clássico absoluto da ficção científica: "2001: uma odisseia no espaço", escrito por Arthur C. Clarke e dirigido por Stanley Kubrick. Contra esse cânone, e o modelo que batiza de "tecno-heroico", ela reivindica uma literatura que caiba em um recipiente: feita de relações, de processos sem fim, de coisas colocadas lado a lado em vez de coisas que se destroem.

Completam a edição da Cobogó dois outros ensaios: "Quando Le Guin encontra Kubrick", da escritora Carola Saavedra, autora de "Flores azuis" (Cia. das Letras), e "Recebendo três mochilas na Colômbia: bolsas para seguirmos juntos com o problema", da filósofa norte-americana Donna Haraway.

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"A TEORIA DA BOLSA DE FICÇÃO"

De Ursula K. Le Guin | Tradução de Isabel Diegues | Editora Cobogó | 64 páginas | R$ 58,00

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