Fabio Morábio narra a leitura e a escrita como felicidades clandestinas
"O idioma materno" reúne relatos breves do escritor sobre os atos de ler, escrever e traduzir, com leveza, inteligência e tom autobiográfico
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Stefania Chiarelli - Especial para o Estado de Minas
Vem de Jorge Luis Borges a célebre afirmação de que ler exige mais habilidade do que escrever. Talvez uma das portas de entrada para "O idioma materno", de Fabio Morábito, esteja na fricção criada pelo autor entre leitura e escrita em muitos dos 84 breves relatos deste precioso livro, nascido de colunas semanais assinadas por ele no jornal argentino El Clarín.
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Filho de pais italianos, nascido em 1955 no Egito e radicado no México desde os 15 anos de idade, Morábito explora nos textos o trânsito idiomático de sua existência: "O idioma da minha mulher é um idioma que eu não falo. Ela, por outro lado, fala minha língua materna". Do suposto desencontro amoroso surge o pretexto para refletir sobre solidão linguística e a questão de se estar em língua estrangeira. Um sujeito traduzido é sempre alguém curioso em relação ao malentendido das palavras, ("talvez o último reduto da alma seja o sotaque") e não poderia ser diferente para quem, como ele, se dedica ao ofício de tradutor, tendo vertido ao espanhol a poesia completa do italiano Eugenio Montale.
Morábito lembra outros pensadores que forneceram complexos modelos de leitura sem abrir mão da leveza. Nesse sentido, se avizinha de três mestres da escrita breve; na linhagem da ficção italiana, Italo Calvino, e na latino-americana, Silvia Molloy e Ricardo Piglia. Ler na companhia deles e dela é garantia de viagem saborosa, parando aqui e ali nos acostamentos, inclusive no texto de orelha do volume, assinado por Felipe Charbel, que mantém acesa a verve do autor do livro.
Colocando abaixo hierarquias entre os gêneros literários, a coletânea vai justapondo observações sobre a escolha da nomeação dos personagens em Kafka ou a perfeição de um conto de Jack London a cenas da infância do autor, vivências na escola ou mesmo um comentário saboroso da própria mãe sobre sua obra ficcional.
A escrita como atividade furtiva; a escrita como traição; a escrita como patrulha sigilosa; a escrita como pretexto para seguir lendo. E a escrita como algo muito difícil, que exige de nós, reles mortais, muito esforço, mas rende alguma alegria quando chegamos a um parágrafo (uma frase, vá lá) que satisfaz.
Pensar na escrita é também olhar para a respiração do texto, imagem explorada de forma sedutora pelo autor, que se detém na fisicalidade do corpo para falar da leitura aos soluços (quem nunca?), e a escrita como uma "questão de pulso", algo que cria sulcos no papel, explorando rotas sinuosas. Dentro disso, Morábito também presta atenção no silêncio, tão necessário para produzir e metáfora da função da poesia, espaço em que se baixa o volume das palavras, deixando-as "em surdina ou sob suspeita". Autobiográfico até a medula, o conjunto pratica um exercício meditativo, sempre inteligente e reflexivo, nunca autocomplacente."
Criamos itinerários de leitura ao percorrer "O idioma materno", destacando trechos do nosso exemplar, "porque não há nada como ler os próprios sublinhados para conhecer a si mesmo". Com o lápis na mão e muitas ideias na cabeça, seguimos acesos para o próximo mergulho nas páginas deste inventivo autor, cuja chegada ao público brasileiro na tradução de Mariana Sanchez vem reforçar a ideia da leitura como felicidade clandestina.
TRECHO
"É um osso duro de roer. Quando achamos que finalmente nos libertamos de suas palavras, suas expressões idiomáticas, suas gírias intraduzíveis para outros idiomas, e que depois de tantos anos falando, sonhando, amando e xingando em outra língua, nos emancipamos de suas amarras, acontece que, assim como aquelas calcificações de organismos marinhos que aderem ao corpo das baleias e parecem enormes cistos, o antigo idioma não desapareceu, apenas recuou para certas áreas. Uma delas, talvez a mais resistente, seja o choro. Não choramos de modo neutro, mas no seio de uma língua específica, por isso muitas pessoas que adotam outra língua, quando choram, sentem que ainda estão chorando em seu primeiro idioma. (...) Porque todo escritor, se analisarmos bem, se torna escritor graças a essa traição. Ele se afasta da língua materna para adotar uma língua que não é a sua, uma língua estrangeira, uma língua sem lágrimas. Abdica do idioma materno porque abdica do choro, e abdica do choro porque somente ao parar de chorar é possível escrever". (De "O idioma materno")
STEFANIA CHIARELLI é professora de literatura na Universidade Federal Fluminense e coorganizou o livro "Falando com Estranhos - O Estrangeiro e a Literatura Brasileira"
"O IDIOMA MATERNO"
De Fábio Morábito
Tradução de Mariana Sanchez
Relicário
180 páginas
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