"Estou cada vez mais convencido de que, em boa medida, os romancistas são crianças que resistem a crescer", afirma o espanhol Javier Peña. E ilustra sua convicção com histórias de dois gigantes das letras: o sul-africano J.M.Coetzee e o russo Vladimir Nabokov. "O escritor vive num limbo situado no meio do caminho entre o mundo real e o de sua imaginação, um limbo que, mais uma vez, podemos afirmar que compartilha com as crianças", acredita o romancista e professor de escrita criativa, autor de "Tinta invisível: Sobre perda, escrita e o poder transformador das histórias", publicado no Brasil pela editora Instante com tradução de Marina Waquil.

 

Em narrativa fluente e envolvente, Javier Peña une reflexões e reminiscências para compartilhar sua visão do impacto em nossas vidas das histórias que herdamos, vivenciamos e encontramos nos livros, "os melhores amigos da sua alma", na definição de Emily Dickinson, citada em "Tinta invisível". E o faz de uma forma muito peculiar: intercala as análises com relatos das visitas ao pai, gravemente doente, com quem tinha uma relação difícil, mas compartilhava "uma verdadeira" obsessão por histórias. "No quarto dia em que o visitei no hospital, ele me disse que tinha a impressão de que ia deixar muitos livros por ler", conta Peña. "Quando uma pessoa está morrendo, você não fala sobre deus, sobre a morte sobre a ciência ou sobre o além – você conta histórias para fazê-la sorrir."

Em entrevista ao Pensar, Javier Peña explicou a inclusão do pai em seus ensaios. "Era impossível escrever um livro como este, sobre a importância das histórias e de seus criadores, sem a presença do meu pai. Meu contato com os leitores me provou que foi um acerto, porque, para a imensa maioria de nós que amamos os livros, a porta de entrada para esse amor foi o nosso pai ou a nossa mãe", afirma, por e-mail, ao Estado de Minas.

Para Irene Vallejo, autora de "O infinito em um junco", "Tinta invisível" é "um fascinante mosaico de vida de escritores e a crônica do luto de um filho. Puro prazer para todos nós, criaturas literárias". E, entre as criaturas formadas por palavras e páginas, estão as mais infelizes de todas, na visão de Javier Peña: os criadores de expressões artísticas. "Tenho a convicção de que os grandes criadores, não apenas os escritores, mas qualquer tipo de artista, são pessoas extremamente infelizes. São pessoas que não se encaixam no mundo e não se conformam com a vida tal como ela é. E por isso inventam universos paralelos", especula.

Criador, diretor e apresentador do ótimo podcast "Grandes infelices: Luces y sombras de grandes novelistas", que tem um episódio sobre Clarice Lispector, Peña elege Franz Kafka como "o santo padroeiro dos escritores infelizes". "Sempre pensei em Kafka como a quintessência da infelicidade do escritor. Alguém que tem a necessidade de escrever ainda que a literatura só lhe traga dissabores, alguém que fracassa em vida, mas se converte no escritor mais influente do século 20", justifica o espanhol.

Acompanhado por Maya Angelou, Nietzsche, Amós Oz, Shirley Jackson, Kafka aparece no capítulo "Sofrimento", compilação de exemplos de dificuldades que atravancaram a criação de grandes nomes da literatura mundial. "Evito chamar de 'casos' os fragmentos que compõem 'Tinta invisível' porque a ideia de caso tem algo de aleatório, enquanto a versão final do livro, embora possa parecer divertida e obra do acaso, tem por trás uma construção muito laboriosa na qual cada tijolo foi buscado e trabalhado", pontua o autor de "Tinta invisível".

Leia, a seguir, a entrevista de Javier Peña ao Pensar do Estado de Minas.

Quando você começou a compilar histórias de escritores para o podcast? E como selecionou as histórias para o livro?

Quando meu pai estava no hospital em 2021 e já não havia dúvida de que havia chegado a hora de nos despedirmos, me dei conta de que ia perder as histórias que compartilhávamos. A ausência das histórias ia se somar à ausência física e isso era demais para mim. Poucas semanas após seu falecimento, comecei a escrever os primeiros roteiros do podcast. ("Grandes infelices") De algum modo, buscava que os ouvintes preenchessem esse vazio. A partir da pesquisa para o podcast, me dei conta de que queria escrever um livro que organizasse as histórias tematicamente. Me interessava explorar temas como a inveja, o ego, a obsessão, a mentira… através das experiências dos escritores que admiro.

"Escrever não é mais que inventar um jogo no qual você dita as regras." Que regras você estabeleceu para "Tinta invisível"?

Sempre estabeleço muitas regras para mim mesmo, admiro (Georges) Perec e o movimento Oulipo e, como eles fazem, gosto de estabelecer restrições para criar qualquer narração. Quando você começa a escrever um livro como "Tinta invisível", o material de que você dispõe é quase infinito. Sem restrições é impossível navegar em um projeto assim. A principal regra que me impus era que as histórias que eu escolhesse tinham que ajudar a sustentar uma tese. Se eu queria falar do ego dos escritores, por exemplo, tinha que buscar uma série de histórias que sustentassem minhas ideias sobre o ego. Por isso evito chamar de "casos" os fragmentos que compõem "Tinta invisível", porque a ideia de caso tem algo de aleatório, enquanto a versão final do livro, embora possa parecer divertida e obra do acaso, tem por trás uma construção muito laboriosa na qual cada tijolo foi buscado e trabalhado.

Por que você decidiu transformar seu pai em um personagem do livro?

Isso pode soar muito clichê, mas não foi uma decisão minha, foi ele quem se infiltrou no livro. Quando me sentei para escrever "Tinta invisível", a primeira coisa que me veio foi a cena no hospital. Pensei comigo mesmo: bom, talvez seja a maneira de começar, porque foi ele quem te colocou neste universo de histórias. Mas logo percebi que, vez após vez, ele voltava a aparecer, que se infiltrava na vida daquele autor, naquele momento, naquele diálogo, naquela decisão. No final, tive que me render à evidência de que era impossível escrever um livro como este, sobre a importância das histórias e de seus criadores, sem a presença do meu pai. Meu contato com os leitores me provou que foi um acerto, porque, para a imensa maioria de nós que amamos os livros, a porta de entrada para esse amor foi o nosso pai ou a nossa mãe.

De todos os escritores que você incluiu no seu livro e podcast, qual tem a história mais infeliz?

É difícil escolher um só, há histórias muito trágicas, como a de Sylvia Plath e toda a dor que o seu suicídio acarretou, mas eu sempre pensei em Kafka como a quintessência da infelicidade do escritor. Alguém que tem a necessidade de escrever ainda que a literatura só lhe traga dissabores, alguém que fracassa em vida, mas se converte no escritor mais influente do século 20. Sempre vi Kafka como o santo padroeiro dos escritores infelizes.

O podcast 'Grandes infelices' se define como 'a luz e as sombras de grandes romancistas'. O que é mais atraente nesse contraste de luz e sombras?

Tenho a convicção de que os grandes criadores, não apenas os escritores, mas qualquer tipo de artista, são pessoas extremamente infelizes. São pessoas que não se encaixam no mundo e não se conformam com a vida tal como ela é. E por isso inventam universos paralelos. O curioso é que esses universos paralelos são os que fazem com que a vida tenha algum tipo de sentido. Que vazia seria a existência sem as histórias, sem a cultura, sem a arte, sem o pensamento. Sem eles, nossa vida não seria muito diferente da de uma mosca. Por isso me fascina que as pessoas que dão sentido à minha vida tenham tido que sofrer essa infelicidade, essa inadaptação, esse inconformismo, para criá-las.

Qual é a história mais memorável que você ouviu do seu pai?

Um dos autores preferidos do meu pai era Ambrose Bierce e ele costumava me contar o final de sua vida, quando desapareceu e nunca mais o encontraram. Um jornalista e escritor tão conhecido como Bierce se desvanece e começam a circular as histórias de que está combatendo na revolução mexicana com Pancho Villa. Era uma história que meu pai adorava me contar, e eu, de ouvi-la.

"Se algum dia a inteligência artificial puder criar histórias como a nossa, estaremos perdidos", você diz. Esse dia está chegando?

Espero sinceramente que não. O que acontece é que a velocidade com que a tecnologia avança é incompreensível para uma mente simples como a minha. Às vezes tento imaginar o universo, a infinitude do universo, faço um exercício de abstração, calculo distâncias, imagino proporções… e chega um momento em que meu cérebro não consegue entender e trava, pensa em outra coisa, é como um movimento defensivo. O mesmo acontece comigo quando tento imaginar como será a inteligência artificial daqui a quatro ou cinco anos. Tenho medo, porque sinto que ela está roubando a nossa humanidade. Estamos entregando a nossa essência de presente para a tecnologia. Neste exato momento, as IAs continuam criando histórias inertes, sem a personalidade nem a graça de um verdadeiro autor. Espero que nunca sejam capazes de ultrapassar essa barreira porque, se o fizerem, sim, estaremos perdidos.

"Um escritor sem livros é um peixe fora d'água", você diz. Como se formou a sua biblioteca?

Minha biblioteca começou a se formar sozinha, com os livros que meus pais e meu irmão mais velho me davam de presente. Depois chegou o momento da 'independência', que não foi quando fui morar em outra casa, mas sim quando comprei os primeiros livros adultos que meus pais não tinham lido. Lembro-me de ler, na adolescência, contos de Borges que meu pai desconhecia. Nesse momento começou a minha independência. Desde então, minha biblioteca tem dependido do espaço. Neste momento, minha casa tem pilhas de livros por toda parte porque já não há lugar nas estantes.

Você lembra, no livro, que os romances tais como os conhecemos têm 250, 300 anos, "uma partícula na evolução humana". Com o avanço das novas tecnologias e as mudanças no mercado, você acredita que os romances estão em risco de extinção ou de se tornarem seitas porque pertencem ao passado?

Acredito que, em algumas gerações, a literatura tal como a entendemos pode ser algo parecido com a ópera, algo apreciado por um grupo seleto, erudito, porém pouco numeroso, algo que dê prestígio social. É possível que aconteça, mas isso não quer dizer que não continuarão a ser criadas histórias, simplesmente mudarão o meio e o suporte. Talvez os romances sejam ouvidos e não lidos, ou se estruturem em algo parecido a pequenos reels do Instagram. Não sei, acontece comigo um pouco como com o infinito, não sou capaz de vislumbrar o futuro, tudo vai rápido demais. Do que estou convencido é de que haverá histórias, porque acredito que são elas que nos tornam humanos, e de que o formato será muito diferente de um romance clássico, mas isso já está acontecendo agora mesmo.

Rosa Montero teve muito sucesso no Brasil com livros nos quais relaciona os escritores com a instabilidade mental, como "O perigo de estar lúcida" e "A louca da casa". Você vê conexões entre os livros dela e o seu? Quais livros influenciaram a narrativa de 'Tinta Invisível'?

Muitas vezes me mencionam a conexão com "O perigo de estar lúcida", e também com "O infinito em um junco", de Irene Vallejo. São, sem dúvida, referências de prestígio que agradeço, mas acredito que "Tinta invisível" não sofreu influência de nenhum livro em particular, é mais o resultado de quatro décadas de leitura. Um amigo que leu o livro disse: aí está toda a vida de Javi. E sim, acredito que nele estão os milhares de livros que li; me ater a apenas um punhado seria injusto com os outros.

Você diz que gostaria de perguntar ao seu pai se há algum bom livro onde ele está agora. E o que você gostaria de ouvir como resposta? Quando você sente mais a falta dele?

Eu gostaria de ouvir qualquer história que ele tivesse vontade de me contar. É disso que sinto falta, de ouvir suas histórias e poder contar as minhas a ele. Outro dia em Cartagena estive conversando uma hora com Yasmina Reza, a escritora francesa. Eu tinha recomendado ao meu pai o romance dela, "Felizes os felizes". Sofri pensando que não podia contar a ele que tinha falado com ela. Para mim, as relações são as conversas; sofro muito por não poder conversar com ele.

Quais escritores brasileiros despertam sua curiosidade? Alguma vez você guardou histórias de algum deles?

Bom, há um episódio em "Grandes infelices" sobre Clarice Lispector que foi muito celebrado pelos ouvintes. "Memórias póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, é um livro que eu adoro. Entre os contemporâneos, leio com prazer autores como Ana Paula Maia ou Julián Fuks.

SOBRE O AUTOR

Nascido em La Coruña em 1979, Javier Peña mora há mais de vinte anos em Santiago de Compostela. Trabalhou como jornalista no extinto Diario AS, na Galícia, e no Departamento de Cultura da Xunta de Galicia. Em 2015, começou a escrever "Infelices", seu primeiro romance, uma obra sobre expectativas e fracassos. Depois veio "Agnes", considerado um livro mais sombrio. Além de romancista, é professor de escrita criativa. É criador, diretor e apresentador do podcast literário Grandes infelices.

"TINTA INVISÍVEL: SOBRE PERDA, ESCRITA E O PODER TRANSFORMADOR DAS HISTÓRIAS"

De Javier Peña

Tradução de Marina Waquil

256 páginas

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