'Entre as raças' narra a vida da mãe brasileira da família Mann
Romance de formação do alemão Heinrich Mann, inspirado nas memórias da mãe do escritor, Júlia da Silva Bruhns Mann, conta a história de uma jovem que busca afirmar a identidade e emancipação depois de ser levada do Brasil à Europa
compartilhe
A família Mann, sem qualquer tipo de exagero e sombra de dúvida, traz, em seu seio, um profundo manancial de sabedoria, conflitos, segredos, coragem, rupturas, tragédias, glórias e talento para contar histórias. São homens e mulheres extremamente ligados a palavras, ideias expressas nas páginas, tramas bem urdidas, surpresas a cada linha e, sempre, ao destino de personagens que prendem o leitor do início ao fim de uma obra. Premiado com o Nobel de Literatura (1929), o mais célebre desses alemães, Thomas Mann (1875-1955), se consagrou com “A montanha mágica”, “Os Buddenbrook”, “Morte em Veneza” e tantos outros sucessos de crítica e público.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Mas há outro nome de importância literária na família, Heinrich Mann (1871-1950), irmão mais velho de Thomas, que tem agora relançado o livro “Entre as raças” (Editora Zain), publicado em 1907, e de interesse dos brasileiros por um aspecto muito especial: a protagonista, Lola Gabriel, é inspirada nas memórias de Júlia da Silva Bruhns Mann (1851-1923), mãe dos dois autores e natural de Paraty (RJ). Júlia escreveu “Lembranças da infância de Dodô” sobre seus primeiros anos no Brasil antes de ser levada para a Alemanha por decisão do pai.
Em paralelo, “Entre as raças” conta a história da menina Lola que, “ainda criança, é levada para a Europa onde experimenta um ambiente social rígido, marcado por hierarquias, convenções morais e expectativas sociais estritas”, escreve Paulo Astor Soethe no posfácio da obra agora relançada. Com o tempo, Lola se torna “uma jovem cidadã do mundo em processo de formação e emancipação, que encontra no teatro e na música referências existenciais que lhe servem de lastro e fio condutor nos anos de aprendizagem retratados – da infância no Brasil até o início da vida adulta”.
Autor de romances, contos, ensaios epeçasde teatro, Heinrich foi um dos romancistas alemães mais celebrados das primeiras décadas do século20. De 1930 a 1933, presidiu a seção de poesia da Academia Prussiana de Artes, sendo expulso pelos nazistas no último ano, fato que o levou a emigrar para a França e posteriormente aos Estados Unidos.Influenciado pela tradição do romance francês do século19, foi um escritor atento às contradições sociais, políticas e morais da modernidade europeia, e crítico das estruturas autoritárias.
“MAI” E “KURUBUS”
Em seu livro inspirado nas memórias maternas, Heinrich valoriza palavras em português usadas por Júlia Mann em “Lembranças da infância de Dodô” (“Aus Dodos Kindheit”), entre elas “Mai” (grafia usual de “mãe” no século 19) para se referir à sra. Gabriel, mãe de Lola. De acordo com a “nota à edição”, o autor risca a palavra “Maman”, no manuscrito da obra, e a substitui por “Mai”.
Também a palavra “Pai” é usada no lugar de “Vater” (pai em alemão). Importante destacar que a tradução optou por ser fiel ao original e aos escritos de Júlia. Outro exemplo da “herança intertextual” está na palavra “kurubus”, sendo provável que Júlia estivesse se referindo aos urubus que via na meninice. Ela escreveu o texto aos 53 anos, quando há muito já havia perdido o contato com a língua portuguesa e, claro, poderia estar sendo traída pelas lembranças.
ESTRANHAMENTO
Conforme divulgado pela editora, “Entre as raças”é um romance sobre emancipação, narrando a trajetória da jovem cantora dividida entre mundos, culturas e formas de pertencimento. Sol dos trópicos/inverno europeu, azul do Atlântico/cinza do céu alemão e idioma incompreensível, junto a comportamentos e atitudes completamente distantes da realidade brasileira, se contrapõem nos dias e noites de Lola, que se sente uma estrangeira e sonha em retornar à terra natal. Em certo momento, é acusada de ser “internacional”, palavra pronunciada em tom carregado de desprezo.
Nascida em solo brasileiro, com a infância passada em Ilha Grande (RJ) e levada ainda criança para a Alemanha, Lola cresce sob o peso das convenções sociais e das expectativas impostas às mulheres, enquanto busca afirmar sua própria identidade. Ao mesmo tempo romance de formação, narrativa intercultural e crítica social,“Entre as raças”antecipa debates contemporâneos sobre identidade, migração, autonomia feminina e violência de gênero. Faz um retrato da condição de quem vive entre culturas bem como a defesa de liberdade, dignidade e direito à autodeterminação.
O título da obra, sobretudo na Alemanha, ainda causa estranhamento pelo uso da palavra “raça” aplicada a seres humanos. “Mas em 1907, ano da publicação, o termo ainda não estava impregnado pela carga ideológica nefasta que adquiriria mais tarde com osdesdobramentosdas teorias raciais e do racismocientífico.Assim, no contexto histórico de Heinrich Mann ena trama, estar ‘entre as raças’ é estarentremundos, entre culturas, entre formas de pertencimento”, escreve Paulo Astor Soethe, responsável pela tradução do alemão para o português com Fernanda Boarin Boechat. A obra tem ainda posfácio assinado por João Assim.
FLORESTAS E MAR
Para entender melhor a trajetória da protagonista da obra, Lola Gabriel, é preciso saber quem foi Júlia da Silva Bruhns Mann, nascida Júlia da Silva- Bruhns, apelidada Dodô na infância e natural de Paraty, no litoral fluminense – tudo indica que veio ao mundo entre as localidades de Graúna e Rio Pequeno, durante mudança da família.
Dodô viveu num sobrado, que existe até hoje à beira-mar, até a morte da mãe, Maria Senhorinha da Silva. Não passou muito tempo e o pai de Júlia, o abastado fazendeiro alemão Johann Ludwig Hermann Bruhns, naturalizado brasileiro com o nome de João Luiz Germano Brunhs, levou a menina e irmãos ao seu país natal, mais exatamente para Lübeck. Nessa cidade, Júlia adotou o alemão como primeiro idioma e esqueceu de vez a língua materna.
Casada aos 17 anos com o senador e comerciante alemão Thomas Johann Heinrich Mann, de 29, Júlia teve cinco filhos: Heinrich, Thomas, Julia, Carla e Viktor. Thomas e Heinrich nasceram em Lübeck. Cresceu numa família abastada e, após a morte de seu pai (1891) e a extinção da empresa, tiveram que se mudar para Munique.
No livro “Terra mátria – A família de Thomas Mann e o Brasil” (2013), de Karl-Josef Kuschel, Frido Mann e Paulo Astor Soethe, há o trecho de uma carta de Thomas Mann a Karl Lustig-Prean, datada de 8 de abril de 1943, sobre o Brasil: “Cedo soou em meus ouvidos o louvor de sua beleza, pois minha mãe veio de lá, era uma filha da terra brasileira; e o que ela me contou sobre essa terra e sua gente foram as primeiras coisas que ouvi sobre o mundo estrangeiro. Também sempre estive consciente do sangue latino-americano que pulsa em minhas veias e bem sinto o quanto lhe devo como artista. Apenas uma certa corpulência desajeitada e conservadora de minha vida explica que eu ainda não tenha visitado o Brasil. A perda de minha terra pátria ('mein vaterland') deveria constituir uma razão a mais para que eu conhecesse minha terra mátria ('mein mutterland'). Ainda chegará essa hora, espero.”
Trechos do livro
“Não vá embora!”
“ Anna precisa ir.”
“Se você for, então...”
A criança teve um sobressalto de dor. Pressionou seu rosto nos ombros nus e negros; e junto ao cheiro oleoso dessa pele, na qual outrora dera seus primeiros suspiros, elevaram-se as memórias mais remotas. envolvendo-a.
Lola viu primeiramente, em uma imensidão de imagens perturbadoras, uma floresta de palmeiras; depois muitas silhuetas de negros trejeitosos, indescritivelmente belos, agachados em volta de caldeirões com carne nos quais ela costumava mergulhar suas mãozinhas; viu um pedaço do mar azul agitado e espumante, e à frente o basto fronde de cana-de-açúcar; viu Nenê, o lago e os ‘kurubus’...
“Se você for embora”, choramingava, “então...”
Surgiu uma explosão de flores nas pálpebras apertadas pelos ombros de Anna. E em meio às flores pendia uma rede com a bela Mai que acenava e desviava o rosto aos poucos, como diante
de alguém que se ausentasse:
“Se você for embora, então...estará tudo acabado!”
*
“Tubarões acompanhavam o navio. Lola observou como os marinheiros içavam-nos com anzóis e, mesmo antes que a cabeça houvesse alcançado a borda do navio, enfiavam-lhes bastões pela goela, que atravessavam o corpo de lado a lado. Quando os monstros indefesos chicoteavam com o rabo no convés e os marinheiros batiam as mãos de alegria nos joelhos, Lola sentia uma tristeza paralisante. Os passageiros reuniam-se, era uma festa; e lá Lola viu em pensamento uma criança esquivar-se entre as pessoas e com elas liberar-se em uma alegria incontida: reconheceu a si mesma, como havia sido outrora em sua primeira viagem no mar, e espreitou a si mesma, essa criança ingênua, alegre e meio perversa, com menosprezo, nostalgia e um traço de pavor. Não era agora que pegariam uma faca para estrinçar o animal? Exato. Ela também presenciara isso naquele tempo. Na época, não parecera nada de excepcional; na sua terra, os negros tinham essa mesma crueldade na lida com os animais que capturavam. Até mesmo Lola espedaçara uma cobra que a havia assustado: cortara-a devagar, ainda viva, em diversos anéis. Ela observou a mão que havia usado para fazer isso – essa mesma mão. “E quando me lembro da Ilha Grande, penso apenas em rolinhos de papel incandescentes lançados sobre o mar e na fragrância das flores de laranjeira! Que erro. Quando viajei para a Europa, só parecia haver pessoas amáveis a bordo, querendo apenas dar alegria umas às outras. A verdade é outra. Ah, o que percebo agora, ao ler esses rostos que veem morrer os tubarões!”
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
“ENTRE AS RAÇAS”
De Heinrich Mann
Tradução de Fernanda Boarin Boechat e Paulo Astor Soethe
Editora Zain
368 páginas
R$ 97,90 (livro físico)